Navegação

Menu Skip link

Funcionalidade principal

Globi: o héroi dos quadrinhos suíços

Globi é o mesmo há mais de setenta anos: azul, chapéu preto na cabeça e calças quadriculadas. (foto: www.globi.ch)

Há mais de setenta anos, gerações de suíços acompanham as aventuras do papagaio azul, um personagem criado em 1932 por iniciativa de uma cadeia de lojas.

O sucesso foi tão grande, que até uma editora foi criada para lançar os quadrinhos. Globi é agora homenageado numa grande exposição em Berna.

Diz a lenda que Globi nasceu no deserto do Saara, quando os raios de sol chocaram um ovo abandonado na areia. Ao nascer, o papagaio azul gritou - “Kri-krack” - e logo voou para terras distantes, acabando por aterrissar em Zurique. Desde então, ele é o companheiro inseparável de muitas crianças suíças.

Globi é tão suíço como Toblerone, Ovomaltine, fondue e as montanhas. Há mais de setenta anos, suas aventuras são publicadas em versos e quadrinhos e estão nas prateleiras ou baús de grande parte das famílias suíças. Depois de lidos, os livros passam de pai para filho.

Idéia de marketing

A verdadeira origem do papagaio azul está numa campanha de marketing. Em 1932, quando vários países na Europa viviam um período de crise econômica, a rede de lojas “Globus” organizou uma grande festa para comemorar seus 25 anos de existência. A idéia do evento era não só conquistar novos clientes, mas também atrair os consumidores do futuro, ou seja, jovens e crianças.

Karl Schiele era o chefe do departamento de publicidade da Globus. Para elaborar o símbolo da nova campanha, ele convidou Robert Lips, um jovem desenhista que, nas horas vagas, também era atleta especializado em luta militar, nadador e campeão suíço de esgrima.

Lips criou então um papagaio para ser o principal personagem das festas realizadas nas lojas “Globus”. Nessa época de vacas magras, as crianças de Zurique não tinham muitos passatempos. Por isso “Globi” acaba encantando muitas delas, que não se satisfaziam mais de apenas brincar com o funcionário fantasiado de papagaio. Elas queriam também tê-lo em casa.

”Globi” vira personagem de quadrinhos

Por isso, “Globus” decidiu lançar revistas com as aventuras do papagaio. Uma delas era até verídica e conta quando uma pantera foge do Zoológico de Zurique, deixando a população na cidade de cabelos em pé.

Alguns anos mais tarde, a direção da Globus acabou com as festas nas lojas do grupo, para acabar com as confusões provocadas pelo grande número de crianças presentes. Porém no final dos anos 30, o papagaio azul já havia se tornado numa paixão nacional.

Suas aventuras passaram então a ser publicadas anualmente em forma de livro. O primeiro exemplar foi lançado em 1935, com uma tiragem de oito mil exemplares.Seu título: “Viagem de Globi pelo mundo” (“Globis Weltreise”).

Em 1937 foi lançado “Globi junior”, o segundo volume da série. A partir desse momento, os autores encontraram o formato tradicional do livro que até hoje é a marca registrada nas histórias do papagaio azul: quadrinhos acompanhados de versos rimados.

Ao mesmo tempo em que colecionadores de todas as idades já se encontravam para trocar os últimos exemplares das revistas e livros de Globi, outras crianças fundavam os chamados “Clubes-Globi”. Assim como no escotismo, seus membros se reuniam sob três lemas - “camaradagem, atividades em comum e ajuda ao próximo”. A moda durou até o final dos anos setenta.

“Globi” em português

Em 1942, Globi completou 10 anos de idade. A revista com o papagaio já contava com oito mil assinantes e, em média, os redatores recebiam mais de 17 mil cartas de crianças e jovens por ano.

A editora “Globi” foi fundada em 1944. O principal motivo para separar o trabalho da redação das atividades da empresa “Globus” foi o sucesso editorial: 400 mil livros “Globi impressos e vendidos”. Quatro anos depois, a editora comemorava a venda de mais de um milhão de livros.

Devido ao sucesso, Karl Schiele decidiu lançar “Globi” em outros países. Em 1946 a editora publicou em Paris o primeiro exemplar em francês. Um ano depois, a América do sul entrou nos planos da editora que também lançou no Brasil o “Globi” em português.

Crise e reforma

Apesar dos esforços – até mesmo desenhos animados foram realizados para lançar o papagaio azul no mercado dos Estados Unidos – “Globi” nunca teve sucesso fora da Suíça. Ele sempre permaneceu uma paixão das crianças de língua alemã no país. Quanto aos “romands”, como são conhecidos os habitantes da parte de expressão francesa, “eles sempre consideraram Globi como uma figura de Zurique, ou seja, de língua alemã”, explica Gisela Klinkenberg, diretora da “Globi Verlag”.

“Globi” teve sua maior crise nos anos 70, quando o personagem foi chamado de “racista” e “reacionário” por intelectuais e pedagogos. Ao mesmo tempo, os temas apresentados já não atraiam mais a juventude como no passado. A partir de 1971 a revista “Globi” deixava mesmo de ser publicada.

Em 1975, o desenhista Robert Lips foi encontrado morto num quarto de hotel em Wallisellen. Para substituí-lo, a editora contratou o caricaturista Werner Büchi que, depois de alguns anos, teve de abandonar o posto devido às críticas de muitos fãs de “Globi”.

Depois de muitos acreditarem que o papagaio azul já estava ultrapassado, a editora do “Globi” resolve dar a volta por cima nos anos 80. A direção da empresa é trocada e a nova equipe contrata em 1980 o artista Peter Heinzer, que até hoje desenha com sucesso os quadrinhos de “Globi”.

Os temas também se modificam. Se na época da Segunda Guerra Mundial, o papagaio azul era visto em títulos patrióticos ou políticos como “Globi vira soldado” (1940), “Como Globi virou fazendeiro” (1941) ou “Nós suíços temos muito que agradecer”, publicado como revista em junho de 1945 para festejar o fim da guerra, a partir dos anos 80 os temas se tornam mais coloridos e realistas, falando de meio-ambiente e dia-a-dia, por exemplo. Em 1984, Globi aparece em “Viagem pela Suíça”, vive com Guilherme Tell aventuras no passado (1991) e conhece até o Parque Nacional (1993).

Atualmente “Globi” continua sendo lido pelas crianças. Em 2003, a editora alcançava a marca de 9,2 milhões de livros já vendidos na Suíça.

Para homenagear o conhecido personagem, o Museu do Ofício de Winterthur organizou a exposição “Globi – encontro com um fenômeno suíço”. Através de antigos exemplares, fotos, textos e jogos, crianças e adultos aprendem um pouco mais sobre o papagaio azul. A exposição é itinerante e ocorre em outras cidades como Basiléia e Berna.

swissinfo, Alexander Thoele em Berna


Links

×