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Imigração Como as mulheres estrangeiras promoveram a emancipação na Suíça

Lachende Frauen um einen Tisch

Jovens imigrantes italianas em um bar em St. Gallen, 1954.

(Frauenarchiv)

Alguns consideram hoje a migração como uma ameaça aos direitos das mulheres. Mas um novo olhar sobre a história suíça mostra que a imigração, especialmente originária da Itália e Rússia, foi um importante catalisador para a emancipação das mulheres e a igualdade de gênero. A historiadora Francesca FalkLink externo examinou esta evolução em detalhe.

Falk é historiadora na Universidade de Friburgo. Publicou recentemente o livro "Gender Innovation and Migration in Switzerland" (Inovação de gênero e migração na Suíça), que trata em particular da migração italiana na Suíça. A estudiosa, que também tem raízes italianas, chega à conclusão de que essa migração deu um impulso ao movimento de mulheres suíças, e teve uma influência positiva sobre a emancipação na Suíça: "Muitas vezes se esquece que a situação legal das mulheres na Itália naquela época era melhor do que na Suíça."

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Este conteúdo foi publicado em 15 de Fevereiro de 2019 11:51

swissinfo.ch: Numa resenhaLink externo do seu novo livro lê-se que está sendo lançando um novo fundamento, uma nova base para escrever uma nova história da Suíça. O que há de tão novo na sua abordagem?

Francesca Falk: A imigração é muito importante para a Suíça em vários níveis. As pessoas falam frequentemente dos efeitos positivos na economia. Basta pensar no papel dos Huguenotes no desenvolvimento da indústria relojoeira suíça. Muito menos conhecido é o fato de a imigração ter sido também um fator importante no desenvolvimento sociopolítico e na renovação social do país. A imigração, por exemplo, foi um catalisador para a emancipação das mulheres na Suíça. 

swissinfo.ch: Como aconteceu o seu interesse pela questão da imigração na Suíça?

F.F.: Cresci nos anos 80 no município de RheineckLink externo, no cantão de St. Gallen, de onde meu pai veio. Muitos dos meus colegas de turma tinham um passado de migração. Isso era normal para nós, crianças, mas ao mesmo tempo notei que havia algo como uma discriminação estrutural na escola. Por exemplo, somente a muito poucas crianças imigrantes eram dadas oportunidades de fazer estudos superiores.

Mais tarde reparei que muitas decisões sobre pedidos de naturalização na nossa comunidade foram tomadas arbitrariamente. Isso foi uma alavanca para mim. O fator decisivo, no entanto, foi a experiência da minha mãe, que é de Parma (Itália), ao chegar à Suíça. Ela me contou que sentiu a sua chegada à Suíça como uma viagem no tempo, de 50 anos no passado.  

Francesca Falk, nascida em 1977, é docente no departamento de História da Universidade de Friburgo.

(Selwyn Hoffmann)

swissinfo.ch: Você pode explicar o que significa "viagem no tempo"?

F.F.: Tenho de começar por dizer que o vilarejo do meu pai, no leste da Suíça, era muito conservador. Minha mãe percebeu imediatamente que a igualdade de gênero não era muito avançada na vida cotidiana de lá.

swissinfo.ch: Você pode ilustrar isso com um exemplo?

F.F.: Considerava-se acordado que as mães de uma determinada classe social ficariam em casa. Uma mãe trabalhadora era vista como uma mãe desnaturada. Esta imagem de uma mulher não existia na cidade natal da minha mãe, na Itália. Imaginem só: a base legal no direito de família suíço, em vigor até 1988, dizia que a mulher que pretendia trabalhar deveria obter previamente autorização do seu cônjuge.

Naquela época, o horário escolar era muito irregular e praticamente não existiam estruturas externas de acolhimento de crianças, como as creches. Na classe, ainda havia uma separação clara entre meninos e meninas. Um estudo realizado em St. Gallen, em 1968, mostra que, naquela época, as meninas recebiam menos aulas em matérias que eram necessárias para chegar às escolas secundárias.

swissinfo.ch: As mulheres na Itália tinham mais direitos do que as mulheres na Suíça?

F.F.: Alguns direitos sociais e políticos das mulheres, como o direito de voto das mulheres e o seguro de maternidade, foram introduzidos na Itália muito antes da Suíça. O princípio da igualdade de gênero foi incorporado na Constituição italiana já em 1948. Isso não aconteceu na Suíça até 1981. Os direitos de voto das mulheres foram introduzidos na Itália logo após a Segunda Guerra Mundial. Na Suíça, os direitos de voto das mulheres a nível federal só entraram em vigor em 1971.

swissinfo.ch: Como você explica o fato de que a Suíça estava tão atrasada?

F.F.: Existem várias razões. Uma das razões foi certamente o fato de a Suíça não ter estado ativamente envolvida nas duas guerras mundiais. Não havia necessidade de mudar a sociedade. E a explosão econômica impulsionou as forças conservadoras. Outras razões podem ser encontradas na democracia direta e no federalismo. Houve muitos votos a favor do sufrágio feminino a nível cantonal. E a introdução deste direito foi regularmente rejeitada.

"Quando os italianos chegaram à Suíça, ninguém pensaria que isto daria um impulso a uma renovação social da Confederação."

Aqui termina a citação
Eine Frau in den Bergen

Marie Heim Vögtlin (1845-1916) foi a primeira médica da Suíça. A imagem foi tirada durante uma caminhada em Richisau, no cantão de Glarus. 

(Albert Heim / ETH-Bibliothek, Fotoarchiv)

swissinfo.ch: No seu livro, você argumenta que a imigração para a Suíça foi um motor para a igualdade de gênero. Como você chegou a esta conclusão?

F.F.: Vejamos o exemplo das creches que, àquela altura, eram muito poucas na Suíça. As famílias imigrantes enfrentaram o problema da conciliação da vida profissional e familiar, uma vez que muitas mulheres imigrantes estavam empregadas na indústria.

A fim de satisfazer a demanda da economia suíça por trabalhadores estrangeiros, a rede de creches foi ampliada. Um detalhe interessante: a situação mudou precisamente na década de 1980, quando muitos imigrantes retornaram à Itália como resultado da crise do petróleo. As creches, de repente, tinham muitas vagas. E, pela primeira vez, surgiu a ideia de disponibilizar esses lugares para as famílias suíças de classe média.

A existência destas infraestruturas e o movimento de mulheres levou a uma normalização dos cuidados fora de casa das crianças, tal como os conhecemos hoje. A posição da sociedade mudou.

swissinfo.ch: Houveram algumas estrangeiras, em especial, que contribuíram decisivamente para a emancipação das mulheres na Suíça?

F.F.: A Suíça foi um dos primeiros países da Europa a dar às mulheres a oportunidade de se matricularem em universidades. No entanto, foram as estudantes russas que lutaram por este direito. Em 1867, Nadežda Suslova foi a primeira mulher na Suíça a receber um doutorado. Sua história, por sua vez, foi uma inspiração para Marie Heim VögtlinLink externo, a primeira médica suíça.

No final da Segunda Guerra Mundial, 70% das professoras das universidades suíças tinham raízes estrangeiras. Por exemplo, Anna Tumarkin, que nasceu na Bielorrússia, foi a primeira professora universitária na Suíça e, em toda a Europa, a oferecer aos estudantes vagas para doutoramento.

swissinfo.ch: E hoje, como a imigração está mudando a sociedade suíça atualmente?

F.F.: Parece que os rapazes de origem migratória são cada vez mais ativos nas profissões tradicionais das mulheres, por exemplo nas creches para crianças. Mas porque é que isso é assim? Isto se deve provavelmente ao fato de serem profissões mal remuneradas. E aqueles com um nome estrangeiro muitas vezes têm dificuldade em encontrar outros empregos. Isto significa que a imigração também pode ter uma influência direta nas mudanças no mundo do trabalho.

swissinfo.ch: Assim, podemos então dizer que a migração é sempre positiva?

F.F.: Em si mesma a migração não é positiva ou negativa. As condições de migração podem ser boas ou más. Quando os italianos chegaram à Suíça, ninguém teria pensado que isto poderia impulsionar uma renovação social da Confederação. A imagem dos italianos era tudo, menos boa. Bastante comparável à dos atuais imigrantes muçulmanos.

No entanto, aqueles que veem a migração hoje como um problema que precisa ser resolvido ignoram a certeza histórica de que a inovação sociopolítica pode, por vezes, ser desencadeada por fluxos migratórios. Aqueles que olham para a história através da lente da migração não só acrescentam novos (re)conhecimentos, mas também mudam a perspectiva para contar a história e o presente. E isso também muda a nossa visão do futuro. 


Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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