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Inseticidas neonicotinóides Especialista suíço em apicultura considera exagerada a ênfase nos inseticidas

O tempo dedicado à pesquisa sobre os inseticidas conhecidos como neonicotinoides é desproporcional quando comparado ao esforço investido no combate ao principal inimigo das abelhas: o ácaro varroa. Isso é o que argumenta Jean-Daniel Charrière, um especialista suíço em apicultura.

Abelha trabalhando na colméia

As abelhas são mais importantes para o equilíbrio da natureza do que muitos imaginam.

(Keystone)

Charrière supervisiona as pesquisas sobre abelhas no AgroscopeLink externo, o instituto governamental suíço de agricultura. Abelhas e outros polinizadores são vitais para três quartos das culturas alimentares do mundo, mas têm sofrido expressivo declínio nas últimas décadas.

swissinfo.ch: Desde 2003, as perdas anuais de colônias de abelhasLink externo na Suíça têm sido de -16%, tendo atingido até -25%. Contudo, a associação suíça de apicultura, a ApisuisseLink externo, divulgou no início deste mês que a colheita de mel em nível nacional foi excelente. Devemos nos preocupar com o declínio das abelhas na Suíça?

Jean-Daniel Charrière: A situação varia de ano para ano, mas em geral, a existência da abelha melífera não está em risco. Graças aos grandes esforços dos apicultores na reposição das colônias perdidas, ainda temos cerca de 165.000 colônias e uma boa densidade apiária na Suíça. Recentemente, publicamos um relatório mostrando que em apenas dois ou três locais com muitas árvores frutíferas ao longo do lago de Genebra e nos cantões do Valais e Turgóvia, poderia haver um déficit de polinização. 

Jean-Daniel Charrière é o responsável pela pesquisa de abelhas no instituto suíço de pesquisas de agricultura, Agroscope.

(Agroscope)

Existem muitos apicultores na Suíça, e alguns deles ficam desencorajados ao perder colônias ao longo dos anos. Mas nós também vemos muita gente querendo entrar para a apicultura. A quantidade de abelhas melíferas na Suíça está diretamente ligada ao número de apicultores, uma vez que existem apenas poucas colônias selvagens e a maioria das abelhas são mantidas por apicultores.

swissinfo.ch: Atualmente há uma grande ênfase entre cientistas, ativistas e políticos na ligação entre neonicotinoides e o declínio das abelhas (ver quadro abaixo). Seriam eles a principal causa?

J-D. C.: Eu acho que é importante a preocupação com os neonicotinoides. Mas eu acho que o espaço que lhes é dado é desproporcional. Falamos muito sobre pesticidas como uma das causas das perdas durante o inverno, mas não há prova de que eles estejam entre as principais causas.

Para a abelha melífera, a principal causa de mortandade é o ácaro varroa e os vírus por ele transmitidos. Muitos estudos confirmam isso. Eles mostram sistematicamente que a presença do ácaro varroa é determinante na sobrevivência ou não das abelhas durante o inverno.

Isso não significa que os pesticidas não tenham um efeito. Eu posso imaginar que a exposição das abelhas à pesticidas enfraqueça seu sistema imunológico fazendo, por exemplo, com que elas fiquem mais suscetíveis a vírus. Mas é um assunto complexo onde muitas causas estão envolvidas, sendo que elas variam de acordo com a localização e o ano.

swissinfo.ch: Pesquisadores da Universidade de Neuchatel publicaram que em âmbito mundial 75% do mel contém traços de neonicotinoides. Enquanto os níveis estão abaixo dos limites legais exigidos para consumo na Europa, eles dizem que, para as abelhas, esses resultados são alarmantes uma vez que uma pequena concentração de pesticida de 0,1 ng / grama pode ter um efeito significante. Qual é a sua opinião sobre essa pesquisa?

J-D. C.: No artigo publicado na revista "Science", os resultados são interessantes e dão uma boa visão geral sobre a exposição das abelhas. Contudo, a interpretação dos resultados vai longe demais. Pessoalmente, não fiquei surpreso por eles terem encontrado resíduos no mel. Afinal, a questão é se há um risco real para as abelhas.

Eu conheço alguns estudos que mostram que o risco para as colônias de abelhas melíferas não é tão grande. Isso se dá porque as abelhas são muito resistentes e são capazes de reagir e se adaptar.

Eu me preocupo mais com os outros polinizadores: as mamangabas (abelhões) e as 600 espécies de abelhas selvagens que não têm mecanismos de adaptação semelhantes. As abelhas vivem em sociedade. Se algumas abelhas morrem, a colônia tem capacidade de reagir, e a rainha pode colocar mais ovos, ou o tempo de vida das abelhas é estendido. Mas se uma abelha selvagem tem apenas cinco descendentes ao invés de 20, e isso continua por um ano, o impacto é enorme e a população pode diminuir rapidamente.

Eu penso que é muito importante conduzir estudos sobre os neonicotinoides, mas a quantidade de estudos sendo publicados no momento é exagerada. Eu não acho que essa situação corresponde ao que vemos na prática. Nós sabemos que o ácaro varroa é a principal causa de mortandade entre as abelhas, e a solução para tratar esse parasita não é ideal. Nós precisamos investir muito dinheiro na busca de uma solução.

No momento é mais fácil encontrar financiamento para projetos sobre neonicotinoides do que para projetos sobre o varroa, que podem durar entre 6 e 7 anos e não tem sucesso garantido. 

swissinfo.ch: Desde 2013, a União EuropeiaLink externo (EU) e a Suíça impuseram restrições ao uso de alguns neonicotinoides, dadas as dúvidas sobre seus efeitos prejudiciais às abelhas na Europa. Esta moratória será revista no início de 2018. Podemos esperar regras mais estritas, como algumas pessoas preveem?

J-D. C.: Eu posso imaginar que alguns neonicotinoides possam desaparecer, mas em minha opinião, é um erro impor uma proibição estrita a todos os inseticidas do grupo dos neonicotinoides. Eu penso que é necessário avaliar caso a caso. De qualquer maneira, a decisão da EU vai influenciar a posição suíça.

swissinfo.ch: Você diz que o problema com a discussão sobre os neonicotinoides é que ela é categórica demais, ou preto ou branco, a favor ou contra. O meio termo, que você propõe, nem sempre é entendido pela comunidade dos apicultores.

J-D. C.: Em geral, as associações de apicultura são contra os pesticidas. Esse movimento começou na França, onde o debate é mais virulento. Aqui na Suíça as coisas são mais tranquilas. Eu participei de encontros na França onde o pesquisador era vaiado se seus resultados, apesar de objetivos, não indicassem que os pesticidas eram tóxicos ou perigosos para as abelhas. É considera pesquisa ruim.

Se você se diz favorável ao uso razoável de pesticidas, você é na mesma hora acusado de estar a serviço de conglomerados como a Syngenta ou Monsanto.

Neonicotinoides

Neonicotinoides, ou neônicos, são uma classe relativamente nova de pesticidas usados por todo o mundo. Eles atacam o sistema nervoso central dos insetos.

Ativistas do meio-ambiente dizem que as evidências de danos causados pelos neonicotinoides aos polinizadores têm aumentado em anos recentes. Entre os estudos publicadosLink externo se encontram um teste de campo divulgado em julho que mostra que neonicotinoides danificam populações inteirasLink externo, e não apenas abelhas isoladas e um estudo globalLink externo revelando a contaminação do mel por inseticidas. Em 2014, pesquisas nos Países Baixos sugerem que concentrações de um neonicotinoide comum era responsável pelo declínio de certas espécies de pássarosLink externo. Um estudo na Alemanha também mostrou que, desde 1989, 75% de todos os insetos voadoresLink externo daquele país e possivelmente em outros países, tinham desaparecido. Isso sugere que o uso de pesticida é uma das possíveis causas do declínio das populações de insetos.

Grupos agroindustriais como Syngenta e Bayer, grandes produtores de neonicotinoides, criticam tanto esses estudos quanto a recente cobertura negativa dos neonicotinoides na imprensa. Erik Fyrwald, o diretor executivo da Syngenta, insiste que "há bastantes dados sugerindo que os neonicotinoides não estão tendo qualquer impacto significativo na saúde das abelhas".

Desde 2013, a União Europeia e a Suíça impuseram uma moratória sobre o uso de neonicotinoides em floriculturas. A Comissão Europeia quer agora uma proibição total de seu uso fora de estufas, sendo que a decisão final devera ser tomada em janeiro. O governo britânico anunciou neste mêsLink externo que era a favor de maiores restrições sobre os neonicotinoides devido ao "peso crescente da evidência científica".

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Adaptação: Danilo von Sperling, swissinfo.ch

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