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Internet revoluciona imprensa alternativa

Cidade de Friburgo, local do Congresso.

(picswiss.ch)

A Internet revoluciona a comunicação como a imprensa de Gutenberg mudou a sociedade. Para a imprensa alternativa, com preocupações sociais, é uma mão na roda, devendo permitir uma articulação que democratize a informação desafiando grandes monopólios preocupados em apenas fornecer entretenimento. Este o teor de palestra de Plínio de Arruda Sampaio, político brasileiro que se define como "socialista cristão", em Congresso da União Católica Internacional da Imprensa , em Friburgo, na Suíça.

Cerca de 600 jornalistas dos 4 cantos do mundo, inclusive 12 do Brasil, reuniram-se de 17 a 23 de setembro na cidade suíça de Friburgo, para analisar que resposta a mídia alternativa pode dar à globalização. Entre os convidados ao debate, o político brasileiro Plínio de Arruda Sampaio, 70 anos, natural de São Paulo, filiado ao Partido dos Trabalhadores. Ele se define como "um homem da esquerda cristã. E gosta de repetir: "Sou um socialista cristão".

Articulação indispensável

Foi Plínio - ex-deputado, ex-refugiado político, ex-candidato a governador de S.Paulo - quem apresentou uma das propostas consideradas da mais interessantes no Congresso. Ele sugere uma articulação da imprensa alternativa, "pequenininha", através da Internet. A rede mundial de computadores "pode ligar milhares de jornalistas de pequenas comunidades, formando uma grande comunicação".

Plínio estima que para se chegar a esse objetivo, é preciso que uma grande organização internacional "faça um banco de dados com todos esses jornais, com todas essas informações, estabelecendo um intercâmbio gratuito..." Só assim terão força para competir com grandes monopólios mais preocupados em divertir do que em informar".

É preciso botar fé...

Para isso porém, é necessário "acreditar no impacto mundial de um pequeno meio de comunicação. E, referindo-se aos ataques terroristas nos Estados Unidos, lembra que apenas 19 cidadãos fizeram um estrago imenso "no colosso americano", dando a entender que também pode haver união para realizar obras construtivas, bastando botar fé na força de uma imprensa alternativa bem articulada. (Clique aaixo para ouvir destaque da entrevista).

A ENTREVISTA NA INTEGRA

A imprensa católica existe?

A imprensa católica se fechou muito no ghetto, no noticiário da coisa religiosa: a procissão, a nomeação do bispo... Deixou de ser uma imprensa que reflete o drama do homem, o drama da pessoa humana no mundo. E obviamente é jornal que interessa a quem é daquele meio. Tornou-se o que os norte-americanos chamam de "house organ", o órgão da casa. Sob esse aspecto, muitos jornais católicos são muito bons. Mas os católicos, ou melhor, os cristãos não se preocuparam em ter, ecumenicamente, confessionalmente, jornais que expressem a luta do povo. É este que no fundo seria um jornal cristão. Jornal cristão não é o que faz apologia da religião católica ou faz promoção da formação catequética. Jornal cristão é o que se posiciona ao lado das lutas do povo pobre. Esta foi a opção de Cristo.

Imprensa seria sinônimo de mídia católica?

A mídia - a tv, o radio - têm seu meio próprio, sua linguagem própria. A religião não é algo maciço que se transmita como se transmita um anúncio de hambúrguer. Ela tem que ser expressão de testemunhos pessoais. E isso não se pode fazer numa rede de tv. Isso se faz através de comunidades locais que vão se unindo, vão se comunicando em círculos maiores, maiores... Aí você tem então uma expansão da religião. Mas essa religião de massa, com grande pregador que atrai multidão, não é algo que me fascine.

Como vê a imprensa alternativa?

É uma imprensa que informa e não uma imprensa que entretém. Jornais como New York Times, Washsington Post, Le Monde... são jornais que entretêm. Admito que estou sendo reducionista, mas a grande preocupação deles é com a mercadoria notícia. A imprensa alternativa não tem preocupação com a mercadoria notícia, tem preocupação em informar o leitor sobre a realidade que estamos vivendo - a realidade mundial, a realidade de seu local. Então é uma diferença de qualidade, uma diferença de substância. Não é alternativa porque é pequenininha. É alternativa porque trata de outro assunto. Ela tem outro objetivo.

Que importância tem a imprensa alternativa?

Tem papel fundamental. Sem ela caminharemos para uma sociedade muito pouco democrática. Sem ela remos para uma sociedade orwellana , sociedade do "brave new world" e de Huxley. Vamos para uma sociedade guiada por um grande pensador, por um grande mentor que comanda tudo. A imprensa alternativa na medida que é uma imprensa critica pode trazer realmente a possibilidade de uma decisão democrática.

Ela se identificaria com a oposição?

De certa maneira sim. Não necessariamente. Você pode ter uma imprensa alternativa que decida colocar os argumentos que existem em favor da situação. O que importante é que se faça o debate, que as idéias sejam discutidas no plano racional e não empurradas subliminalmente através de truques, de manipulação do pensamento.

Você falou no congresso de "muita notícia e pouco informação..."

A freira brasileira, Rose Marie Murraro é que quem criou a frase: "Nós temos uma surdez polifônica". Porque recebemos notícias de todo o lado. Seja de um produto, seja de um acontecimento... No entanto, estamos muito pouco informados, no sentido de que não conhecermos realmente as causas, as conseqüências, o porquê das questões. Mesmo esse terrorismo lá em Nova York. Todos nós sabemos que um avião entrou, arrebentou um prédio... Uma barbaridade. Morreram milhares de pessoas... Mas vem cá. Por que isso aconteceu? Qual foi a causa profunda disso. Qual vai ser a conseqüência. Isso não é discutido no público. Isso antigamente era o papel da imprensa e que eu acho mais função da imprensa escrita, do que a imprensa visualizada e da imprensa falada. Nessa amostra você vê. Mas para entender o que você vê, acho que é preciso o texto escrito.

Que papel para a Internet a esse respeito?

Muito grande, no sentido de que ela barateia terrivelmente a comunicação. Ela tem o mesmo papel que a imprensa de Gutenberg. Antes de Gutenberg havia livros. Mas quem podia ter livros? Reis, nobres, grandes confrarias religiosas. O povo não podia ter livros. A imprensa de Gutenberg barateou o livro. E na medida que barateou o livro, mudou a sociedade. A internet barateia a comunicação. Eu posso comunicar-me com uma pessoa em Burkina Faso pelo preço de um telefonema local. Isso vai ser uma revolução.

Como vê a função da Internet na imprensa alternativa?

A Internet tem função importante. A interatividade, que é fundamental para que a coisa seja democrática, está presente na Internet. Acontece por ex. alguma coisa na Noruega. Se eu tiver um correspondente de um pequeno jornal alternativo, eu posso me comunicar através da Internet e ter uma notícia daquele fato, ao mesmo tempo em que uma grande rede de televisão manda seu repórter e coloca a notícia no ar. Eu dou para minha pequena comunidade. Mas se eu tiver ligado a uma rede em que mil outros jornalistas façam o mesmo, mil pequenas comunicações atingindo pequenas comunidades... são uma grande comunicação atingindo uma grande localidade.

Como vê na prática essa articulação?

Propus no Congresso que se comece a pensar nisso. Não é coisa para amanhã. Mas que a gente comece a pensar numa grande organização internacional que faça um banco de dados com todos esses jornais, com todas essas fontes de informação e que fizesse um intercâmbio gratuito entre elas, notícias, comentários, informações.

Você falou na necessidade de "acreditar" no impacto mundial de um pequeno meio de comunicação?

Confirmo e acrescento: toda tendência a achar que as coisas são imutáveis... Quando vou a Roma e passo pelo Coliseu, eu penso no romano, escravo, se ele podia imaginar que esse colosso um dia iria virar uma ruína de pedras. E, no entanto, virou. Então você pensa: esse colosso americano, será que um dia é possível ter alguma forma de evitar o seu poder. Dezenove cidadãos fizeram um estrago imenso... Quer dizer que essa coisa da inexpugnabilidade, da inevitabilidade das coisas que estão mal organizadas é que nós precisamos tirar da mente para poder construir coisas novas.

J.Gabriel Barbosa


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