A literatura além da fronteira

Ler na língua de origem promove identidade cultural e melhora a integração do emigrante e de seus filhos

Filhos de brasileiros encontram literatura em português em muitas bibliotecas na Suíça. swissinfo.ch

O hábito de ler não deveria ser interrompido na travessia de uma fronteira. Com essa frase, a professora de português Denise Castro chama a atenção para a importância, nem sempre percebida, da literatura em vários aspectos na vida do migrante. De acordo com Denise, se os livros têm o poder de construir e reproduzir a mentalidade de uma época, eles conseguem também resgatar e conceber a memória poética de um povo, reforçar uma identidade cultural e até mesmo ajudar na integração dos filhos de imigrantes.

“Quando vivi em Portugal, eu ouvia muitas brasileiras relatarem que liam os livros comprados naquele país, mas que sentiam falta de algo que elas não sabiam explicar. Refleti muito sobre o tema, porque eu também vivia essa perturbação interna, até que eu descobri o que era: a necessidade de textos que nos trouxessem a nossa memória cultural, estórias que se passassem em ambientes brasileiros e que nos fizessem, pelo menos na imaginação, viajar de volta para casa”, explica Denise, que ensina português como língua de herança para filhos de brasileiros na Associação Linguarte em Munique, na Alemanha. 

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas" da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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A doutora em Linguística, Andreia Moroni e a doutora em Didática e Organização Educativa, Juliana Azevedo Gomes explicam, na Revista de Estudos Brasileiros, que a expressão Língua de Herança (LH) pode ser utilizada para definir uma língua diferente da dominante na sociedade local. Embora seja um idioma vivo no ambiente doméstico, repleto de história e significados para a família, não é o de comunicação oficial e nem o ensinado na escola formal, o que pode acarretar a perda de domínio e de sentido no uso com o passar do tempo. Dessa forma, o português ganha uma missão além da comunicação, torna-se a língua pela qual se transmite um legado cultural de brasilidade. Seus falantes muito provavelmente serão bi- ou multilíngues, e podem ter maior proficiência no idioma do país de residência que no português como língua de herança (PLH).

Memória cultural – Nesse cenário paradoxal de intimidade e distância, a professora Denise fala do valor e da dimensão que a obra literária na língua materna pode ter na vida dos filhos desses emigrantes. Se a leitura interfere no emocional e funciona muitas vezes como um alento para o adulto; para as crianças exerce a função de construtora de uma memória poética e cultural, trazendo a intimidade dos lugares do país de um dos pais, e trabalhando ao mesmo tempo a fluência da língua de herança.

Apaixonada por leitura desde criança, Denise explica que o livro é uma excelente ferramenta para entrar em contato e promover intimidade com costumes locais. A viagem proporcionada por um bom texto, segundo ela, leva até à sensação de cheiros e cores, estando onde for. “É importante que o filho de um brasileiro se sinta também pertencente à cultura dos pais e não tenha sua brasilidade expressa só no passaporte”, explica a professora.

Mas como fazer para consumir literatura brasileira ou portuguesa na Suíça? A forma mais fácil e barata seria frequentar bibliotecas internacionais, que oferecem obras em vários idiomas, inclusive em português. A aquisição de exemplares brasileiros pode ser feita em sites de vendas como Amazon e Fnac, na Europa; e até em lojas virtuais no Brasil, que entregam no continente mediante pagamento de frete. Na Suíça, os brasileiros e portugueses podem frequentar as bibliotecas interculturais, que oferecem livros em outros idiomas, inclusive em português.

Falar a língua de origem com os filhos, entretanto, é uma decisão pessoal de cada imigrante. Denise explica que não há regra nem obrigatoriedade. A professora de português como língua de herança, Miriam Müller Vizentini, diz que a resolução pelo português favorece a integração da própria criança, já que reforça sua autoestima ao mostrar a ela onde estão suas raízes. “Ninguém pode valorizar aquilo que não conhece”, explica Miriam, que tem experiência de 20 anos no ensino da PLH na região de Baden, Suíça.

Contar estórias na língua de origem melhora a proficiência do alemão 

O projeto Conte-me uma Estória – Family Literacy – nasceu em 2006 na Suíça com o objetivo de apoiar a leitura nas famílias de origem migrante. O programa consiste no oferecimento gratuito de sessões de contar estórias na língua do imigrante para pais e crianças de dois a cinco anos. A monitora convida famílias do idioma específico para o encontro, no qual pais e filhos são convidados a cantar, a fazer jogos e trabalhos manuais simples. A proposta é baseada em estudos que mostram que experiências variadas com a escrita e a oralidade, além de domínio da primeira língua, são fatores fundamentais que facilitam a eficiente aprendizagem da língua alemã e, posteriormente, do mecanismo de leitura na escola, ou seja, promove um desenvolvimento dos bons hábitos de leitura. 

Ana Amelia, contadora de estórias em língua portuguesa da Biblioteca de Aarau. cortesia

O projeto parte do princípio de que os pais são os principais avaliadores e uma referência indispensável da criança no processo de aprendizagem da língua e no seu desenvolvimento. Dessa forma, o programa apoia os pais na promoção do desenvolvimento da linguagem, fomentando o gosto pelos livros e a criação dos hábitos de leitura nas famílias de origem migrante, incentivando-as a cuidar e a valorizar o seu idioma.

O programa foi criado pelo Instituto Suíço de Meios de Comunicação para Crianças e Jovens (SIKJM, na sigla em alemao). Após dois anos de implantação, ganhou prêmio Alpha da Comissão Suíça da UNESCO para a Luta contra o Analfabetismo e em 2010 foi agraciado com o prêmio Orange da UNICEF para a Promoção do Diálogo Intercultural. O SIKJM para língua portuguesa está presente em 15 cidades, de acordo com uma página da internet. O objetivo, no entanto, é ampliá-lo para todo o país e com o maior número de línguas possível. Dependendo da região, há sessões de leitura em albanês, alemão, árabe, curdo, bósnio, sérvio, espanhol, francês, português, tamil e turco.

A paulistana Ana Amélia Pace participa do programa de língua portuguesa e conta estórias para crianças na biblioteca de Aarau. Além de livros, ela utiliza uma técnica japonesa de narrativa chamada Kamishibai, na qual as figuras ilustrativas são colocadas numa espécie de janela, isto permite que o narrador passe as ilustrações e tenha maior interatividade com o público.

De acordo com Ana Amélia, o projeto a cativou porque tem uma característica muito especial: o fato de as atividades serem feitas entre pais e filhos. “No passado, não se tinha essa ideia, mas hoje sabe-se que, para a integração, é fundamental a participação dos pais”, explica a contadora de estórias, que é professora de português e francês e trabalha voluntariamente no projeto há um ano.

A contadora leva sempre o filho de três anos às sessões. O menino é a prova viva de que leitura ajuda a desenvolver a linguagem. No sábado em que a swissinfo.ch visitou a sessão, o clima entre as crianças era de entusiasmo e entrega, todas muito participativas, falando um português igual a qualquer outro brasileirinho que viva no Brasil. Vale a pena investir no aprendizado do idioma dos pais, mesmo que dê um pouco mais de trabalho.

Mais informações sobre Conte-me uma estória: http://www.sikjm.ch

Bibliotecas Interculturais na Suíça têm à disposição livros em várias línguas: http://www.interbiblio.ch/interbiblio/karte.html

Aulas de português: http://www.abec.ch​​​​​​​

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