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No aroma dos cubanos

Vahé Gérard sabe reconhecer os cubanos de "alma". Gérard Vahé

Fumar um bom charuto é como apreciar um vinho de reserva. É preciso saboreá-lo para apreciar todos os matizes do seu aroma como as reminiscências da madeira, coro, terra, mel ou pimenta...

Este conteúdo foi publicado em 08. janeiro 2006 - 10:52

Os aficionados desfrutam dos seus puros de forma solitária o baforar com os amigos. A reportagem sobre uma paixão: o charuto.

Dizem os entendidos na arte de fumar que para reconhecer um "tabaco com vida e alma" e poder prever seus sabores e qualidade é necessário deixar-se levar pelos sentidos: a vista, o tato, olfato e o gosto. Porém um puro "não tem apenas o sabor do puro, mas também o sabor do tempo e do lugar onde ele é consumido".

Muitos aficionados gostam de desfrutar um excelente charuto sozinhos, seja pois o puro é "o único amigo que escuta nossos pensamentos" (Arturo Fuente, tabaqueiro), "povoa a solidão com mil imagens graciosas" (George Sand, escritora) e "alimenta nossa inspiração" (Orson Welles, escritor) ou é "a pura metáfora" (Guillermo Cabrera Infante, escritor).

Esse prazer é comparável com aqueles que muitas pessoas exercem depois de uma intensa jornada de trabalho: degustar um momento de repouso, folheando uma revista, escutando música ou lendo um livro, analisa Vahé Gérard, proprietário da loja especializada em Genebra, "Gérard Père & Fils".

Porém o charuto, que guarda muitos paralelismos com o vinho e está intimamente relacionado com os prazeres da vida, "é também um produto de convivialidade", que se divide entre amigos como o prazer da mesa.

Se o fumador de cachimbo costuma se considerar mais reflexivo e introvertido, "no mundo do puro temos as duas coisas: o aficionado introvertido, que é menos freqüente, e o aficionado extrovertido, muito mais comum", explica.

Cigarros e os puros: dois mundos

Dizem que o Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, era um apaixonado consumidor dos charutos da marca Romeo y Julieta e especialmente daquela que levava seu nome. A lenda conta que ele teria fumado mais de 300 mil puros cubanos durante toda a sua vida. Pedir a Vahé Gérard que revele o nome da sua marca preferida é como condenar "um pai a revelar qual dos seus filhos ele gosta mais". Por outro lado ele não tem problema nenhum de dizer qual charuto está na sua preferência para o consumo diário.

- O melhor de todos é aquele que eu fumo logo depois do café da manhã, quando estou sozinho e disponho de uma hora de tranqüilidade, apesar de gostar também de desfrutar desse prazer com os amigos, no final do dia, depois da comida. São prazeres totalmente diferentes, não é possível compará-los. Mas o melhor mesmo é o da manhã, que tem um aroma que os outros não têm - confessa Vahé.

Apesar do hábito de fumar estar em retrocesso nas sociedades ocidentais, as cifras de negócios das grandes empresas do setor mostram que os puros de qualidade parecem ter atravessado incólumes as campanhas de proibição do cigarro e contra o consumo do tabaco.

Também se observa que muitos fumantes de cigarros comuns estão passando a fumar charutos.

- Eles se transformam então num tipo de consumidor completamente diferente. É como se você, no lugar de beber todos os dias vinho comum, decide reservar os sábados e domingos para saborear uma boa garrafa. É lógico que não é possível beber os dois tipos de vinho da mesma maneira - analisa Gérard.

Os bons puros cubanos, os charutos de altíssima qualidade, feitos a mão, são degustados de uma outra maneira. Eles exigem dedicação absoluta. "Um bom fumador de puros é como um bom amante: sempre irá tomar tempo para fumar seu cigarro", conclui.

Mulheres charutos

O tamanho do puro está relacionado e evolui de acordo com a sociedade que vive. Assim, desde os anos 80, o "Robusto" é o tipo de charuto mais vendido no mundo, pois esse puro curto e gordo (12,5 centímetros de comprimento e 2 centímetros de largura), que leva a média de uma hora para ser fumado, corresponde ao ritmo de vida dos dias de hoje.

A prognose de Vahé Gérard é de que, nos próximos anos, irá crescer a demanda por outros formatos, incluindo também os menores como os "Coronas" ou "Petit Coronas". A razão: os aficionados têm cada vez menos tempo para desfrutar da sua paixão.

Também não é possível esquecer que o gosto pelos puros não exclui as mulheres. "Se a sua mulher não gosta do aroma do seu charuto, troque de mulher", é uma das frases mais conhecidas do lendário Zino Davidoff.

Sem dúvida, "existem tabacos que seduzem mais as mulheres do que aos homens", como explica Vahé Gérard. Ele já comprovou na sua experiência de vendedor que as mulheres têm um paladar e olfato muito desenvolvido para essa paixão.

Se Sara Montiel, veterana aficionada pelos puros cubanos, um costume adquirido do escritor Ernst Hemingway, foi considerada uma mulher adiantada para o seu tempo, hoje se multiplica o número de mulheres que sucumbiram ao prazer denominado de "fumar bem".

Não é coincidência que a modelo canadense Linda Evangelista ou a atriz americana Demi Moore, entre outras célebres fumadores do puro, já foram até retratadas nas revistas com um legítimo cubano nos lábios.

- Creio que existe uma sensibilidade feminina, tanto para consumir como para colecionar as melhores marcas - confirma Vahé Gérard. Ele conta que muitos dos seus clientes costumam aparecer com suas mulheres, pois elas são as que selecionam o tabaco antes da compra.

- Quando falo com mulheres sobre o tabaco, seus odores e aromas, elas são muito mais precisas do que os homens - conclui o cliente de 45 anos, casado e pai de dois filhos.

Por isso podemos dizer com humor, que o conselho de Zino Davidoff poderia até ser reescrito: se sua mulher não gosta do aroma do charuto, troque de marca.

swissinfo, Belén Couceiro

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