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O que diz a imprensa suíça "Qual Bolsonaro governará o Brasil?"

Bolsonaro

Jair Bolsonaro será o 38° presidente do Brasil, mas os observadores estrangeiros temem que ele efetivamente cumpra suas violentas promessas de campanha. Na foto, Bolsonaro homenageia sozinho o golpe militar de 1964 em sessão parlamentar abruptamente interrompida em protesto ao mesmo. Brasília, 1° de abril de 2014.

(Fernando Bizerra/Keystone)

A imprensa suíça noticiou a vitória de Jair Bolsonaro no mesmo tom apreensivo que pautou a cobertura nas últimas semanas – tanto as mídias conservadoras quanto as progressistas deixaram claro seu desconforto com a incerteza do que representa o resultado do pleito para o Brasil e para o mundo.

O conservador Neue Zürcher Zeitung (NZZ), de Zurique, teme o pior caso o novo presidente cumpra suas promessas de campanha: “Ele não é o remédio para a doença brasileira”, é o título do comentário do jornalLink externo. “Caso [Bolsonaro] transforme sua retórica em ação, o país terá tempos muito difíceis pela frente”. O artigo observa que a extrema insatisfação popular com a corrupção, que atinge todo o espectro da classe política, e com a mais profunda recessão da história recente do país levou a um cenário de alta polarização, encerrando o período de pactos políticos que garantiram os governos eleitos desde o fim da ditadura militar (1985) até o impeachment de Dilma Roussef, em 2016..

Com a implosão das forças políticas de centro, continua o NZZ, resta esperar para ver se Bolsonaro manterá sua linha de confronto da campanha, ou se estenderá a mão para os partidos e políticos conservadores mais tradicionais. De toda forma, conclui o articulista, o clima geral é de medo pelo futuro da frágil democracia brasileira.

“Brincando com fogo”

O Tages Anzeiger (Zurique)Link externo, carro-chefe de um dos maiores grupos de mídia do país e contraponto mais liberal ao NZZ, adotou uma postura semelhante ao concorrente: “Eleger Bolsonaro é brincar com fogo”, adverte ele na manchete. Fazendo coro ao NZZ e ao Basler Zeitung,Link externo de Basileia, o comentarista do TA ressalta os 27 anos de uma carreira parlamentar medíocre, em que o novo presidente conseguia projeção nacional somente por suas tiradas homofóbicas, misóginas, racistas e de louvor à tortura e à ditadura militar.

“Mas isso não significa que a maioria dos brasileiros deseje um sistema autoritário ou a volta da ditadura”, diz o autor. Se as razões para sua alta popularidade são evidentes, os comentaristas levantam dúvidas sobre o real projeto de governo do novo presidente, provocadas por contradições ao longo de toda a campanha.

O jornal explica que o provável ministro da Economia, Paulo Guedes, defende a privatização completa dos ativos e mesmo das funções do Estado, como educação e saúde. Mas Bolsonaro o contradisse algumas vezes, dizendo ser contra a privatização de empresas de segurança nacional, por exemplo. No caso, essa contradição reflete a disparidade de ideias dentro do campo bolsonariano, que reúne economistas ultra-liberais e militares nacionalistas.

Programa de governo é ainda um mistério

Nesse sentido, a televisão pública suíça SRF se pergunta “qual Bolsonaro vai governar?”. Aquele que prometeu “metralhar opositores”, ou o que, no discurso da vitória, encenado como um culto religioso e com a Bíblia ao lado, prometeu defender a Constituição?

Bolsonaro chuta boneco de Lula

Bolsonaro chuta um boneco inflável com caricatura do ex-presidente Lula da Silva durante um comício. Sua campanha utilizou-se quase que exclusivamente das redes sociais, onde disseminou uma controversa campanha de demonização do Partido dos Trabalhadores (PT) e de Lula.  

(Joedson Alves/Keystone)

A correspondente da SRF no Rio de JaneiroLink externo continua: “Para Jair Bolsonaro, os adversários políticos não são oposição, são inimigos. E vários dos seus seguidores entendem isso ao pé da letra. (...) De repente coisas que eram normais há um mês viraram atos corajosos, como dois homens andarem de mãos dadas, ou vestir uma camiseta vermelha. Nas últimas semanas, foram registrados mais de 50 ataques de seguidores de Bolsonaro contra esquerdistas e minorias”, diz ela, lembrando que a revista inglesa “The Economist” (liberal-conservadora) considera a vitória de Bolsonaro uma “tragédia”, e que mesmo a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, distanciou-se do líder brasileiro por considerar suas ideias “enormemente desagradáveis”.

Em suma, e em contraste com uma expressiva maioria dos eleitores brasileiros residentes na Suíça que votaram em Bolsonaro (62%), nenhuma das mídias suíças, da esquerda à direita, alegrou-se com a notícia. Possivelmente o semanário Weltwoche, mais à direita, deverá se posicionar com mais otimismo, como o fez antes da eleição. Mas até o fechamento dessa edição, a revista ainda não havia se posicionado - o próximo número chega às bancas na quinta-feira.  

Novo modelo econômico

Já na Suíça de língua francesa, o jornal “Le MatinLink externo” cita o futuro ministro da Fazenda, Paulo Guedes, para falar de um novo rumo econômico para o Brasil. “O governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, eleito presidente do Brasil no domingo, vai ‘mudar o modelo econômico do país’ graças a um importante programa de privatizações e maior controle sobre os gastos públicos. Estas palavras vêm de Paulo Guedes, anunciado como futuro ministro da Fazenda”, diz o diário online.

O jornal diz que Guedes é “o guru econômico do presidente eleito” e cita trechos da coletiva de imprensa concedida pelo economista no Rio de Janeiro. "O Brasil teve 30 anos de gastos públicos descontrolados, (...) seguindo um modelo que corrompeu a política e causou um aumento dos impostos, das taxas de juros e da dívida pública, como uma bola de neve".

O Le Matin lembra ainda que Paulo Guedes defendeu sua tese na Universidade de Chicago, berço do liberalismo econômico moderno, e criticou o modelo social-democrata, que ele considera muito ruim e responsável pelo fraco crescimento do país.

Um programa que segundo o jornal “24 Heures”, de Lausanne, teria encontrado um eco entre dezenas de milhões de eleitores, cansados dos casos de corrupção que dizimaram a classe política. Uma consequência lógica “em um país onde a taxa de desemprego tem oscilado entre 12% e 14% desde 2016 e onde quase 64.000 assassinatos foram cometidos no ano passado”.

comemoração de bolsonaristas

Em meio a festa, o medo: "De repente coisas que eram normais há um mês viraram atos corajosos, como dois homens andarem de mãos dadas, ou vestir uma camiseta vermelha", comenta a televisão suíça.

(Fernando Maia/Keystone)

Angústia da esquerda

O “Tribune de GenèveLink externo” se interessou pelas primeiras declarações do presidente eleito, que anunciou mudar o destino do Brasil governando a quarta democracia mais populosa do mundo baseado na Bíblia e na Constituição, e que sua eleição virou a página do "comunismo".

Em seu primeiro discurso, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, não parabenizou o vencedor, ressalta o jornal “Le Nouvelliste”, do cantão do Valais. Por outro lado, ele exigiu que seus "45 milhões de eleitores fossem respeitados", em resposta a discursos em que Jair Bolsonaro, durante sua campanha, prometeu aos seus opositores "prisão ou exílio". "Os direitos civis, políticos, trabalhistas e sociais estão em jogo agora", diz o jornal citando Haddad.

Mesma preocupação expressa pelo Le TempsLink externo: “Jair Bolsonaro, que assumirá o cargo em 1º de janeiro, herda um país dividido que ele não busca pacificar. O tom de seu primeiro discurso após sua eleição, postado no Facebook, foi considerado belicoso”, diz o jornal de língua francesa, que lembra ainda a ameaça de Bolsonaro "de varrer os bandidos vermelhos do mapa do Brasil", em alusão ao PT e movimentos sociais.

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