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Os Mann têm um pé no Brasil

Recentemente o casarão foi restaurado e abriga o Projeto da Escola do Mar, do navegador e aventureiro brasileiro Amyr Klink. (foto: cartão postal de Paraty)

Propridedade de um suíço, fazenda em Paraty pode transformar-se em museu. Nela viveu Julia Mann, mãe dos escritores Thomas Mann, Nobel de literatura em 1929, e Heinrich Mann.

Proposta é construir um condomínio de luxo e usar parte do casarão para instituição cultural do neto de Thomas Mann.

Roberto Sanvido está convencido de que fez um bom negócio. Em 2002, o empresário suíço comprou a Conscor S.A, uma empresa falida, mas proprietária de alguns imóveis no exterior.

Dono de várias empresas que atuam no setor imobiliário e financeiro, com sede em Chiasso, uma pequena cidade localizada na fronteira da Suíça com a Itália, Sanvido descobriu no espólio adquirido uma pequena jóia: um belo casarão construído no século XVII na baía de Paraty, uma cidade colonial no litoral do Brasil.

O casarão é parte da Fazenda Boa Vista, que já foi um tradicional engenho em Paraty. Recentemente ele foi restaurado e abriga hoje em dia o Projeto da Escola do Mar, do navegador e aventureiro brasileiro Amyr Klink. Entre 1851 e 1858, lá viveu Julia da Silva Bruhns Mann, matriarca de uma dinastia de intelectuais que influenciou a cultura alemã como nenhuma outra na sua história: a família Mann.

Num terreno de 225 mil metros quadrados coberto de palmeiras e florestas tropicais, de frente para a baía da Paraty, o empresário suíço quer concretizar uma idéia.

Empreendimento em Paraty

“Eu não tinha a menor idéia do valor da casa, porém quando me informaram que nela tinha vivido a Julia Mann, a mãe dos escritores Thomas e Heinrich Mann, descobri que tinha nas mãos algo de muito precioso”, explica Sanvido.

Desde então, Sanvido já esteve oito vezes no Brasil. Seu interesse não se resume ao valor histórico da construção, mas ao grande potencial de negócios que oferece o grande terreno na baía da Paraty.

“Assim como os cubanos exploram o mito do escritor Ernest Hemingway mantendo sua casa e seu bar preferido, quero criar a mesma atmosfera em Paraty em relação à família Mann”, revela Sanvido. “Afinal, existem mais de sete milhões de germanófilos na América Latina”.

Sua idéia a lotear o terreno para a construção de 40 mansões. A casa de Julia Mann será mantida e deve se transformar num centro cultural misto. “O primeiro andar irá abrigar um shopping para produtos náuticos; o segundo andar terá um restaurante com comidas típicas da Alemanha e do Brasil e o terceiro, com 100 metros quadrados, será o Museu de Julia Mann”.

Além de reformar o casarão, Sanvido quer construir uma pousada de 30 quartos, onde será construída também uma biblioteca de livros de Thomas, Heinrich, Klaus Mann e outras pessoas da família de escritores.

Outros interessados

Além de Sanvido, outras pessoas estão de olho na Fazenda Boa Vista. Porém, nesse caso, o interesse é puramente cultural.

Frido Mann, escritor, professor universitário e também neto de Thomas Mann, também gostaria de ver o casarão se transformar num espaço de homenagem a Julia Mann.

“Muito pessoas desconhecem origem brasileira da família Mann, conta Frido. “Porém estou convencido de que o caráter aberto e o interesse cultural de Julia Mann foi determinante para a veia artística não só de Thomas, mas também de todo o resto da família”.

Por isso o acadêmico decidiu conhecer o Brasil. Em 1994 ele viajou a terra da sua bisavó, acompanhado pelo jornalista suíço Peter Wehrli. Recebidos no Brasil com estardalhaço pela imprensa local, os dois foram a Paraty e tiveram uma grande surpresa.

“Conhecemos pessoas que não só conheciam a Julia Mann, mas que também já tinha pesquisado tudo sobre a sua história como o fizeram jornalistas e também um historiador de Paraty”, revela Peter Wehrli que, na sua infância, estudou na mesma escola de Frido Mann e freqüentou a família Mann no seu exílio em Zurique.

A viagem ao Brasil marcou suas personalidades e os motivou a criar um projeto. Em outubro de 1997, Wehrli, Frido Mann e mais outros colaboradores inauguraram em Paraty o “Centro Cultural Euro-Brasileiro Julia Mann”.

O principal objetivo da instituição é promover o intercâmbio cultural entre a Europa e o Brasil. “Queremos trazer artistas e escritores para passarem um período em Paraty, assim como ocorre em muitas instituições de intercâmbio internacional na Europa”, explica Wehrli.

O Centro Cultural Euro-Brasileiro trabalha em conjunto com a Sociedade Thomas Mann de Zurique, uma instituição que promove pesquisas sobre o escritor alemão e também um pequeno museu, onde são exibidos o mobiliário e outros objetos pessoais do prêmio Nobel.

Frido Mann também aproveitou a experiência brasileira para escrever o romance “Brasa”, publicado em 1999. “A história da minha bisavó Julia Mann me inspirou nesse romance, que conta a história de cinco gerações de uma família entre o Brasil e a Europa”.

Negociações entre o escritor, o empresário e o governo

Quando descobriu, em 2002, que era o proprietário da antiga casa de Julia Mann, o empresário suíço Roberto Sanvido entrou em contato com o escritor Frido Mann e a sociedade Thomas Mann em Zurique.

“Não quero vender a casa nem o terreno, mas sim ceder um espaço para que eles possam concretizar seus planos”, afirma Sanvido.

O suíço recusa qualquer espécie de subvenção. Cartas enviadas pelo governo estadual do Rio de Janeiro mostram que autoridades brasileiras estariam interessadas em assumir o projeto, porém Sanvido insiste na sua idéia de conjugar a exploração comercial do terreno com um projeto cultural.

Sanvido aguarda agora a liberação do alvará, para começar os trabalhos de construção e reforma na fazenda Boa Vista. “Essa idéia me entusiasma”, afirma o animado suíço.

swissinfo, Alexander Thoele


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