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"Benghazi está liberada, as pessoas cantam nas ruas"

Benghazi desafia atualmente o poder do coronel Muamar Kadafi Keystone

Várias cidades líbias, dentre as quais Benghazi, reduto da oposição anti-Kadhafi, estão desde segunda-feira na mão de manifestantes.

Este conteúdo foi publicado em 22. fevereiro 2011 - 11:58
Julia Slater, Samuel Jaberg, swissinfo.ch

Ahmad Bentaher, médico no hospital Jala'a, viveu o afluxo de dezenas de vítimas desde o início da insurreição e fala à swissinfo.ch sobre a situação na Líbia.








Depois de muitas tentativas, a ligação telefônica finalmente é completada. "Nós podemos receber chamadas, mas todas as comunicações para o exterior estão cortadas". Ahmad Bentaher, médico no principal hospital de Benghazi, assiste há uma semana em primeira linha à insurreição contra o regime do coronel Muamar Kadafi.

Segundo seu depoimento, Benghazi, como outras cidades, particularmente na costa leste da Líbia, teria sido tomada na segunda-feira pelos manifestantes. A revolta chegou também à capital Trípoli, onde mais de 60 pessoas foram mortas no mesmo dia.

swissinfo.ch: Como está a situação atualmente em Benghazi?

Ahmad Bentaher: Após os violentos protestos no domingo, as forças especiais do exército se juntaram aos manifestantes. Eles controlaram as milícias privadas de Kadafi e assumiram o controle da cidade. Os paramilitares deixaram Benghazi. Desde o início da revolta, os três principais hospitais já contabilizaram mais de 300 mortos e 2000 feridos. Ainda precisamos operar inúmeras pessoas e já estamos com falta de material médico. Só no domingo, 61 pessoas foram mortas, das quais uma criança de três anos.

swissinfo.ch: Há o risco que as forças de segurança retornem à Benghazi?

A.B.: Sim, esse cenário existe ainda. Mas no momento, as pessoas estão cantando nas ruas. Eles celebram a liberdade após 42 anos passados sob o regime de Kadafi.

swissinfo.ch: Quem compõe as fileiras dos manifestantes anti-Kadafi?

A.B.: Em primeiro lugar, a elite intelectual da cidade, sejam os advogados, juízes, doutores e engenheiros. Essas pessoas não são ligadas a um partido político ou a uma associação qualquer. Mas nos últimos dias, é toda a população que foi às ruas para reclamar por liberdade como em não importa qual país do mundo. No início, as manifestações eram pacíficas. Depois o regime prendeu um dos principais organizadores. Então as massas se concentraram na frente do prédio da segurança interna para exigir sua libertação. Esse foi o início da mobilização massiva.

swissinfo.ch: No Ocidente alguns afirmam que Benghazi é uma área de islamitas. É verdade?

A.B.: Isso é o que Kadafi e sua família tentam fazer-nos acreditar. Mas o que eu vi nas ruas são pessoas que reclamam por liberdade, unidade e uma constituição, algo que não temos na Líbia. Nós deveríamos ser um país rico, mas veja você, as pessoas são muito pobres aqui.

swissinfo.ch: O senhor sabe o que está acontecendo atualmente em Trípoli?

A.B.: Nós acompanhamos os acontecimentos com uma grande preocupação. Colegas me disseram ter visto um grande número de vítimas. Na metade da segunda-feira, 60 pessoas haviam sido mortas em Trípoli. Também há manifestações nos arredores da capital.

swissinfo.ch: O senhor acredita que Kadafi tem o apoio necessário para retomar o controle do país?

A.B.: O clã Kadafi não é muito numeroso. Mas ele é muito perigoso, pois detém muitas armas. Suas milícias, baseadas em Sirte, são muito bem equipadas.

swissinfo.ch: Existem diferenças entre os líbios que vivem nas cidades e os das tribos?

A.B.: Obviamente, mas existe um ponto comum que une todos os líbios: a vontade de viver em um único e mesmo país. Os Warfala e outras grandes tribos líbias se juntaram às fileiras dos manifestantes, pois elas sofreram muito sob o regime do coronel Kadafi. O clã Kadafi deverá encontrar uma solução pacífica, pois não é suficientemente poderoso para lutar só contra os outros clãs.

swissinfo.ch: Em sua opinião o que irá acontecer a Muamar Kadafi e seus filhos?

A.B.: Para o país, o melhor seria que os Kadafi abandonassem a Líbia nos deixando em liberdade e paz. Se eles escolherem a força, haverá um massacre muito maior do que o já ocorrido. Rumores circulam em Benghazi sobre possíveis ataques aéreos. São apenas rumores, mas as pessoas acreditam que Kadafi é capaz de cometer tais coisas.

swissinfo.ch: É perigoso para o senhor receber chamadas do exterior?

A.B.: Já estamos em perigo. Em Benghazi já chegamos ao ponto de não retorno. Isso está claro no espírito de todos os cidadãos de Benghazi.

swissinfo.ch: O senhor teme pela sua própria vida?

A.B.: Sim, é claro. Não há uma linha vermelha. Os mercenários africanos de Kadafi vieram ao hospital para liquidar alguns feridos. É possível imaginar a que ponto Kadafi é brutal? Eu conclamo a comunidade internacional para que faça uma intervenção séria.

swissinfo.ch: O que ela pode fazer?

A.B.: No Darfour a comunidade internacional enviou soldados para proteger civis. Se os Estados Unidos e a União Europeia fizerem pressão, talvez ele parta. A ONU deve intervir através de todos os meios e convencer Kadafi a sair do país.

swissinfo.ch: Qual foi o impacto obtido por Seif al-Islam, o filho "reformista" de Kadafi na televisão no domingo à noite?

A.B.: Eu fiquei muito feliz quando soube que ele ia falar na televisão. Eu pensei que ele traria uma mudança real. Mas foi deprimente. Ele levantou o dedo e alertou o povo líbio que, no caso de desobediência, ele faria o exército intervir. Eu não sei que tipo de pessoa ele é. Ele foi qualificado de reformador, mas hoje em dia ameaça de nos matar. Mais do que nunca, os líbios não querem mais ver o rosto de Kadafi e nem dos seus filhos.

A reação suíça

Tribunal: a Suíça anunciou na segunda-feira a suspensão dos trabalhos preparatórios do tribunal de arbitragem encarregado de examinar o "caso Kadafi". A decisão está ligada aos acontecimentos que ocorrem atualmente na Líbia, declarou o Ministério suíço das Relações Exteriores (DFAE, na sigla). Esse corpo jurídico deveria avaliar as condições da prisão de Hannibal Kadafi (filho do coronel Kadafi) em Genebra no ano de 2008. Como retaliação à prisão, o cidadão suíço Max Göldi e suíço-tunisiano Rachid Hamdani ficaram detidos na Líbia.

Apoio: Segundo o DFAE, atualmente não há cidadãos suíços em perigo na Líbia. A maior parte das 46 pessoas registradas na embaixada em Trípoli tem a dupla-nacionalidade.

Condenação: Micheline Calmy-Rey, ministra suíça das Relações Exteriores, condenou em uma tomada de posição "os atos de violência" dos últimos dias em vários países do Maghreb e do Oriente Médio. "Eu apelo às autoridades competentes a respeitar os direitos fundamentais dos seus povos, em particular no que diz respeito à liberdade de expressão, direito de reunião e de manifestações pacíficas", afirmou.

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UE preocupada

A União Europeia teme um colapso do Estado na Tunísia, na Líbia e em outros países, juntamente com uma grave crise econômica que poderia desencadear um afluxo de imigrantes em direção às suas fronteiras no sul e colocar em teste a solidariedade entre seus países membros.

"Estamos extremamente preocupados com a evolução da situação na África do norte", reconheceu na segunda-feira Michele Cercone, porta-voz da comissária encarregada das questões de imigração e de segurança, Cecila Malmström.

A Comissão Europeia leva muito a sério as ameaças líbias de interromper toda a cooperação com a UE na luta contra a imigração ilegal, pois elas se tornarão realidade se o Estado desaparece nesses países.

A UE planeja, em todo caso, evacuar seus cidadãos na Líbia e, em particular, na cidade de Benghazi, bastião dos oponentes, mil quilômetros ao leste de Trípoli, em razão da degradação da situação, indicou a ministra das Relações Exteriores da Espanha.

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