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Avós da Praça de maio Caso De Carlotto traz esperança para famílias de desaparecidos

Estela de Carlotto, presidenta das avós da Praça de Maio, com seu neto Ignacio (Guido), depois de mais três décadas de busca.

Estela de Carlotto, presidenta das avós da Praça de Maio, com seu neto Ignacio (Guido), depois de mais três décadas de busca.


(Keystone)


Em 1978, cinco horas depois de ter nascido, Guido (Ignacio) foi arrancado do peito de sua mãe pela ditadura. Levou 36 anos para que sua avó, Estela De Carlotto, pudesse recuperá-lo. Dia 5 de agosto, a notícia comoveu todo o país. “Isso significa o fortalecimento de uma sociedade que aposta na justiça”, afirma o advogado suíço-argentino, Inti Pérez Aznar.

“Não queria morrer sem abraçá-lo”

Em 5 de agosto foi divulgado o comunicado das Avós da Praça de Maio que haviam recuperado o neto 114,  filho de Laura, a filha de Estela de Carlotto.

Nesse dia o país estremeceu de alegria e as capas do jornais do mundo inteiro estamparam a notícia: depois de 36 anos de procura, Guido (hoje Ignacio) tinha voltado para casa.

As primeiras declarações de Estela de Carlotto foram: “Eu não queria morrer sem abraça-lo e agora vou pode abraçar. Este é um prêmio para todos; já tenho meus 14 netos comigo e ele me procurou.”

Ignacio Hurban, de 36 anos, músico criado no interior da Província de Buenos Aires, soube há poucos meses que tinha sido adotado e se apresentou voluntariamente com a suspeita sobre sua identidade.

Finalmente, a provas de ADN confirmaram suas dúvidas e deram que ele era filho de Laura, a filha desaparecida da presidente das Avós, que deu a luz quando esta no cativeiro do centro clandestino “La Cacha”, durante a ditadura cívico-militar, e logo depois foi assassinada.

Os resultados do ADN confirmaram também que o pais de Ignacio era Oscar Walmir Montoya (apelidado de ‘Puño’) músico, companheiro de militância e parceiro de Laura, ambos sequestrados em 1977, quando ela estava nos primeiros meses de gravidez.

O corpo de Montoya como N/N no cemitério de Berazategui, meses depois de ter sido sequestrado, dos conhecidos há seis anos quando a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) identificou o corpo do jovem: tinha sido badeado.

O neto 114 já tinha identidade: Ignacio era Guido Carlotto Montoya que, em meio a uma grande emoção afetiva, pedia, quase rogava, que continuasse chamando Ignacio, mesmo se entendia que para sua família era Guido, ele estava acostumado com o nome que o chamavam durante toda sua vida. 

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“A luta das Avós da Praça de MaioLink externo é uma luta pela paz e pela democracia” , precisa o advogado que apresentou muitas queixas à Secretaria de Direitos Humanos da Nação, em referência ao labor dessas mulheres, presididas por Estela De Carlotto, que não cessaram de procurar os seus, apesar dos muitos riscos de outrora e dos muitos anos desde que começaram.

“É uma alegria enorme. Não somente para mim, mas porque eu sabia que essa resposta ia trazer alegria a muita gente. Vejo a alegria em seus olhos (indicando a sua avó) e me parece maravilhoso. Estou desfrutando”, disse Ignacio, em sua primeira coletiva à imprensa, junto com sua avó, tios, famílias e netos recuperados.

"Pela paz e a democracia"

 “Que o dia de hoje se continue descobrindo que havia crianças que eram roubadas, fala que é uma sociedade que aposta em ganhar a briga pela paz e a democracia através da justiça”, acrescenta Inti Pérez Aznar, em conversa com swissinfo.chLink externo.

Ignacio, o neto 114 das Avós da Praça de Maio, soube apenas há alguns meses que havia sido adotado e decidiu rapidamente fazer um teste ADN para descobrir sua própria origem. Descobriu que era neto de Estela, que seus pais tinham sido assassinados pela ditadura e que ele havia nascido em um centro clandestino de detenção, La Cacha.Link externo

“Ali estavam sequestradas, desaparecidas, centenas de pessoas e reinava um regime de absoluta violação dos direitos humanos.

Se sequestrava militantes, se torturava, em muitos casos até a norte, e ali também havia uma maternidade clandestina, vizinha ao prédio La Cacha, que é o Hospital da prisão de Olmos”, explica o advogado. 

Plano de apropiar das crianças

O trabalho de investigadores, antropólogos, ativistas dos direitos humanos e da justiça permitem revelar o que aconteceu no autodenominado Processo de Reorganização Nacional   (24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983), e a

Campanha de conscientização pela identidade fundamental para recuperar os bebês roubados pela ditadura.

“Ficou demonstrado com o julgamentos que a ditadura argentina tina um plano de apropriação de crianças dos militantes que eram sequestrados”, denuncia Pérez Aznar.

Entre centenas de casos similares, está o de Ignacio. Ele nasceu em 26 de junho de 1978 e apenas cinco horas depois foi separado de sua mãe para ser entregue a pessoas alheias. Em 25 de agosto, um mês depois de seu nascimento), sua avó Estela foi convocada pelos militares para receber o corpo da filha.

 Reconstruir a identidade em caso de netos recuperados é tomar consciência do horror que padeceram seus pais e do sofrimento de suas famílias.

 O jovem músico também ficou sabendo que, segundo informações  

del Equipo Argentino de Antropología Forense (EAAF)Link externo, os restos ósseos de seu pai apresentavam pelo menos 16 marcas de bala e que a ditadura havia simulado um “enfrentamento” em que morreu dia 27 de dezembro de 1977.

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Uma história de muitas lágrimas, dor e alegria

A aparição de Guido, ou Ignacio, é alentadora. Seu tio, Guido Carlotto, secretário dos direitos humanos da Província de Buenos Aires, disse ao swissinfo.ch que seu sobrinho foi criado em uma boa família, com pessoas boas que nada tinham a ver com a ditadura.

Sua tia, Claudia Carlotto, titular da Comisión Nacional por el Derecho a la Identidad (CONADI)Link externo, explica que seu sobrinho “é muito generoso, com conceitos firmes e muita consciência; para nós é um orgulho porque tínhamos muito medo de não nos entendermos, porém nos entendemos como se nos conhecêssemos e toda a vida.”

O encontro da presidenta das avós da Praça de Maio, paradigma da luta pelos direitos humanos, com seu neto foi como um milagre que viveu toda a Argentina. Vera a cara Estela radiante, viva, com seus 84 anos e toda a sua energia, representou para muitos, sem distinção de raças nem de credos, uma nova esperança.

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Cumplicidades civis

O advogado suíço-argentino Inti Perez Aznar foi promotor na Secretaria de Direitos Humanos da Nação entre 2008 e 2013, nos julgamentos do ‘Circuito Camps’, quando foram condenados 23 repressores. Entre outros, estavam Jaime Lamont Smart e Miguel Etchecolatz condenados à prisão perpétua.

Nesse Circuito detido Guido Carlotto, esposo da presidenta das Avós da Praça de Maio, Estela Barnes de Carlotto. Foi sequestrado em 1° de agosto de 1977 e ficou no cativeiro 25 dias, tendo sido torturado.

La Cacha, onde este detida Laura, filha dos Carlotto e mãe de Ignacio, era um centro clandestino de detenção situado em La Plata, na localidade de Olmos, cujo prédio pertencia ao Serviço Penitenciário da Província de Buenos Aires.

Pouco antes da volta à democracia, o prédio foi demolido e os restos são preservados como memorial.

 “Era um edifício em que funcionava a Radio Província. Isso marca a grande responsabilidade dos políticos de fato que eram o general Ibérico Saint Jean (que morreu sem ser condenado) e Jaime Lamont Smart, que hoje está condenado pelo Circuito Camps.

Porque o prédio de La Cacha foi cedido durante o golpe de Estado desde a Radio Província ao Serviço Penitenciário Bonaerense”, precisa Pérez Aznar. 

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Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch

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