Enfermeiras do mundo lutam por melhores condições de trabalho

Enfermeiras britânicas saíram às ruas em julho em Londres para exigir aumento salarial e melhores condições de trabalho. Keystone / Andy Rain

Após meses de trabalho até a exaustão em áreas de isolamento da Covid-19, enfermeiras vão às ruas em vários países protestar por melhores condições de trabalho. Na Suíça, profissionais da saúde também não estão satisfeitos, mas o Parlamento hesita em mudar o quadro.

Este conteúdo foi publicado em 17. setembro 2020 - 17:17

Estados Unidos, Nova Zelândia, França, Peru e Zimbábue: enfermeiras e enfermeiros nesses países param de trabalhar para exigir melhores salários e condições de trabalho. A crise provocada pelo surgimento do novo coronavírus demonstra as dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde. Escassez de mão-de-obra, baixos salários e falta de reconhecimento são alguns dos problemas. A situação extrema vivida nos últimos meses dá um novo impulso às demandas, que já pairam no ar há décadas. 

O movimento ganha na Suíça impulso. Associações e sindicatos formaram uma aliança de profissionais da saúde para organizar diversos protestos e ações no final de setembro. O ponto alto será uma carreata frente ao Parlamento federal em Berna, em 31 de outubro. 

Parlamentares hesitantes

Deputados e senadores suíços debatem atualmente nas câmaras uma iniciativa (projeto de lei levado à plebiscito após recolhimento de um número mínimo de assinaturas de eleitores) intitulada "Por uma forte enfermagem". Ela foi lançada pela Associação Suíça de Enfermeiros (ASI, na sigla em francês) em 2017. A maioria dos parlamentares recomendam aos eleitores que votem “sim” a um projeto alternativo, que visa alcançar alguns dos objetivos propostos pela iniciativa original: este propõe medidas de ajuda como apoio à formação contínua e reforço das competências profissionais.

O Conselho Nacional (Câmara dos Deputados) e Conselho dos Estados (Senado) debatem atualmente os detalhes da contraproposta, em particular a obrigação dos cantões (estados) de apoiar financeiramente os jovens profissionais em treinamento ou a garantia de reembolso pelo seguro de saúde das despesas individuais dos enfermeiros com formação.

A ASI lamenta, entretanto, que o projeto do Parlamento não inclua nenhuma medida para garantir a manutenção do quadro de profissionais de saúde e a melhora das condições de trabalho. Atualmente 46% dos enfermeiros abandonam profissão após alguns anos de exercício, como indicou um estudo do Observatório de Saúde da Suíço, um dos índices mais elevados entre os profissionais do setor.

Situação pode piorar

A Suíça está em uma posição mais confortável em comparação internacional: o país tem uma das proporções mais altas de enfermeiros por habitante ou recém-formados. Porém alguns indicadores começam a preocupar os observadores. De acordo com o último "Panorama da Saúde", estudo publicado em 2019 pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a remuneração dos enfermeiros em relação ao salário médio na Suíça está entre as mais baixas dos países da OCDE. 

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A Suíça ocupa o segundo lugar entre os países que mais empregam enfermeiros estrangeiros. O Departamento Federal de Estatísticas (OFS) também revela que 36% dos profissionais não têm a nacionalidade suíça: eles são em grande parte alemães (13%), franceses (12%) e italianos (3%).

A dependência de mão-de-obra estrangeira, especialmente trabalhadores fronteiriços (empregados na Suíça, mas residentes nos países vizinhos), ficou clara durante a pandemia. Muitos países fecharam suas fronteiras no ponto alto do “lockdown” para limitar a disseminação do vírus. Nesse momento, a Suíça teve que negociar acordos especiais com as autoridades nos países vizinhos para permitir que profissionais da saúde pudessem a atravessar a fronteiras e garantir o funcionamento dos hospitais onde trabalhavam.

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A pandemia segue seu curso, com números aumentando diariamente. O governo suíço impôs recentemente regimes de quarentena para pessoas que chegam oriundas de regiões de risco, dentre elas departamentos (estados) da França. Porém abriu exceções para as regiões fronteiriças.

Enfermeiros mais satisfeitos

Um estudo internacional realizado em 2012 mostra que os enfermeiros suíços estão mais satisfeitos com seu ambiente de trabalho - e sofrem menos fadiga mental - do que colegas em países europeus. Entretanto, uma pesquisa de opinião realizada pelo sindicato Unia no final de 2019 com o pessoal de enfermagem na Suíça, revelou que 90% dos enfermeiros questionados declararam trabalhar "sob pressão" e 87% afirmaram não ter tido tempo suficiente para se dedicar aos pacientes. A maioria declarou também trabalhar em turnos sem respeitar os períodos de descanso e reclamam não ter tempo suficiente para a família e o lazer. 

Os depoimentos que coletamos durante a reportagem sobre a vida diária dos enfermeiros na Suíça confirmam o estresse, o excesso de trabalho e a falta de tempo para se dedicar aos pacientes. Muitos profissionais também criticaram a pressão da hierarquia e a falta de reconhecimento.

"É importante ter profissionais à disposição e boas condições de trabalho para garantirmos a qualidade do tratamento", ressalta Sophie Ley, presidente da ASI. "Simplesmente oferecer mais formação contínua não será suficiente para garantir a qualidade, se quase metade dos enfermeiros abandonam sua profissão."

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