Coronavírus e clima, quando uma crise não eclipsa a outra

Lago Gruyère em Broc, cantão de Friburgo. A primavera deste ano na Suíça tem sido caracterizada até agora por uma seca incomum e prolongada. Valeriano Di Domenico

2020 era para ser um ano crucial para o clima. No entanto, o aquecimento global foi relegado para segundo plano pela pandemia do coronavírus. Uma situação que poderia dar um novo impulso à luta contra as mudanças climáticas e a degradação ambiental.

Este conteúdo foi publicado em 28. abril 2020 - 11:00

Por que se preocupar com o derretimento das geleiras alpinas ou com o fato de que ondas de calor e secas se tornarão a norma na Suíça dentro de 30 ou 40 anos, quando um vírus desconhecido até alguns meses atrás está perturbando nossas vidas neste momento? Uma pergunta legítima, à qual muitos de nós talvez respondam inconscientemente.

Por exemplo, quando decidimos ir de carro para viagens desnecessárias, apenas para fugir do confinamento em casa por algumas horas. Ou quando não hesitamos mais em usar um saco plástico para recolher resíduos potencialmente infectados, como máscaras e lenços de mão. Ou quando deixamos a água da torneira correr para lavar as mãos como recomendado pelas autoridades sanitárias, utilizando até oito litros de água de cada vez. Em tempos do coronavírus, a consciência ecológica é posta à prova.

Mas enquanto os cidadãos, a mídia e o mundo político concentram sua atenção na pandemia, outra crise, a crise climática e de sustentabilidade em geral, continua presente. 2019 foi o ano mais quente já registrado na Europa, com temperaturas médias quase dois graus acima das da segunda metade do século XIX, segundo um relatório sobre o estado do clima publicado na semana passada.

O coronavírus e a mudança climática são problemas muito sérios, mas entre as duas crises há uma diferença fundamental, disse o secretário da ONU, Antonio Guterres. O Covid-19 é um problema temporário que um dia vai desaparecer, mas a mudança climática existe há muitos anos e vai "ficar conosco por décadas", disse ele.

"Precisamos urgentemente enfrentar a crise de saúde e seus efeitos sociais e econômicos. Mas não podemos esquecer que, na corrida para deter as mudanças climáticas, o tempo está acabando", disse Nick Mabey, do E3G, um think tank independente que apoia a transição global para uma economia de baixas emissões.

+ Aquecimento global: os próximos anos serão decisivos

Ar limpo, mas não por muito tempo

Ao invés de desviar a atenção do aquecimento global, o coronavírus parece ter um impacto positivo sobre o clima. Como resultado do fechamento de empresas e indústrias, bem como da paralisação do tráfego aéreo, as emissões globais diminuíram e a qualidade do ar melhorou em muitas cidades.

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As consequências da pandemia devem levar a uma redução de 6% nos gases de efeito estufa este ano, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial. 

Entretanto, não há motivo para se alegrar, adverte a Organização Meteorológica Mundial (OMM), com sede em Genebra, segundo a qual a pandemia terá poucos efeitos duradouros sobre o clima. Assim que a pandemia passar, o planeta voltará ao trabalho e as emissões de CO2 serão retomadas, prevê Lars Peter Riishojgaard da OMM, em entrevista ao jornal francófono 24 Heures.

Quem polui não merece suporte

Para Franz Perrez, Embaixador da Suíça para o Meio Ambiente, "o desafio será relançar a economia de uma forma compatível com os objetivos que consideram as mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável".

Georg Klinger, especialista em clima do Greenpeace Suíça, afirma que as várias medidas de apoio financeiro do governo federal devem ajudar a criar uma economia de baixa emissão, mais resistente às consequências do aquecimento global.

Em particular, a associação ambiental pede à Confederação e aos cantões que não ofereçam qualquer apoio financeiro às empresas que prejudicam o clima, a menos que elas cumpram os requisitos para reduzir as emissões a zero até 2030, sugere o Greenpeace.

Augustin Fragnière, pesquisador do Centro Interdisciplinar de Sustentabilidade da Universidade de Lausanne, também expressou esse desejo. O apoio aos setores mais poluidores, incluindo multinacionais, aviação e indústria automotiva, deve ser condicionado à proteção climática e ambiental, diz ele.

"A antecipação é o grande ensinamento do Covid-19", escreve Fragnière em seu blog , segundo o qual "a crise do coronavírus mostra que as democracias estão prontas para tomar medidas extremamente vigorosas quando se trata de proteger a população".

Batalha nas ruas e nas urnas

O cientista ambientalista espera pouco dos governos, porém, cuja única prioridade será impulsionar a economia "agarrando-se ao que eles fazem de melhor, ou seja, a exploração dos combustíveis fósseis". Augustin Fragnière acredita que caberá à sociedade civil e aos movimentos de proteção ao clima fazer ouvir suas vozes. "A batalha das mudanças climáticas será ganha nas ruas e nas urnas".

Reiterando seu chamado para ouvir a ciência e agir de acordo com ela em favor do clima e do meio ambiente, o movimento Greve Climática pede que a crise climática seja enfrentada com a mesma "solidariedade intergeracional" com a qual a Covid-19 está enfrentando.

Até porque, para proteger as populações dos efeitos das mudanças climáticas, não será possível contar com a descoberta de uma vacina.

Conferência climática crucial foi adiada

Como resultado do coronavírus, vários eventos internacionais foram adiados - por exemplo, as cúpulas da ONU sobre oceanos e diversidade biológica - e a 26ª Conferência Internacional da ONU sobre Mudanças Climáticas, marcada para novembro em Glasgow, Escócia, que foi adiada para 2021.

A COP26 é considerada a conferência mais importante desde a COP21 em Paris, em 2015, que terminou com a assinatura de um acordo climático histórico. A COP26 é uma data crucial para a revisão dos compromissos nacionais de redução de emissões, atualmente inadequados para cumprir o objetivo de limitar o aumento da temperatura global a 2°C.

"Tudo foi adiado, mas as negociações continuam assim como os contatos bilaterais e multilaterais com muitos países", disse Franz Perrez, negociador suíço em conferências climáticas internacionais, à swissinfo.ch. "Mesmo antes do coronavírus, grandes economias como a União Européia e a China, assim como muitos países em desenvolvimento, já haviam anunciado que precisariam de mais tempo para rever suas ambições de redução de emissões. Nesta perspectiva, o adiamento do COP26 é positivo.

A Suíça, lembra Perrez, já apresentou sua nova meta de neutralidade climática para 2050, em fevereiro. No plano legislativo, porém, levará mais tempo porque o debate parlamentar sobre a nova lei de CO2, um dos pilares da política climática suíça, foi adiado devido à pandemia.

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