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Egito Uma democracia controlada, aguardando algo melhor



26 de julho: manifestação de apoio às forças armadas no Cairo, retrato do géneral Sissi, novo mestre do país.

26 de julho: manifestação de apoio às forças armadas no Cairo, retrato do géneral Sissi, novo mestre do país.

(Keystone)

Uma revolução leva anos e ocorre raramente sem violência. No Egito, a retomada brutal do poder pelo exército não significa obrigatoriamente uma deriva autoritária. Pelo menos alguns estão convictos.

A revolução não se faz forçosamente com cravos (como em Portugal), nem com jasmim (como na Tunísia). Na França, da tomada da Bastilha em 1789 até a queda de Napoleão III em 1870, foi preciso quase um século para banir o antigo regime.

Mesmo se ele não gosta desse tipo de comparação, Lorenzo Vidino, especialista do islã político no Centro de Estudos de Segurança da Escola Politécnica Federal de Zurique, admite que toda revolução tem sua “escala de tempo que sempre é acompanhada de uma escala de violência.”

O cúmulo do horror

Violência que culminou em 14 de agosto com a evacuação pelo exército e a polícia de duas áreas ocupadas pela Irmandade Muçulmana no Cairo, em protesto contra a derrubada do presidente Mohamed Morsi. Naquele dia, e na semana seguinte, quase 1.000 civis foram mortos em todo o país.

“Chegamos ao cúmulo do horror na praça Rabiya al-Adawiya, conta Rachid Mesli, diretor jurídico da Ong de defesa dos direitos humanos Karama, sediada em Genebra. “Nossos observadores locais viram atiradores em helicópteros militares matar manifestantes, soldados que impediam a chegada de socorros e matavam feridos nos postos de urgência”. São testemunhos atrozes confirmados por jornalistas estrangeiros como o suíço Serge Michel, do jornal Le Monde, que chegou bem perto do tiros.

Para Rachid Mesli, pode-se, sem hesitação, qualificar esses atos de crime contra a humanidade” . Sua organização, que antes desses acontecimentos já havia submetido mais de 250 casos documentados de execuções extrajudiciais ao relator especial do Alto Comissariado da Onu para os Direitos Humanos, promete agora recorrer à justiça internacional.

No entanto, por mais chocantes que sejam, as violências das últimas semanas não fazem dessa revolução uma das mais violentas que se viu”, lembra Lorenzo Vidino.

“Razoável”

Mesmo assim, em 14 de agosto viu-se “os piores massacres da história do Egito moderno, sublinha um pesquisador suíço que prefere o anonimato. Isso ocorreu com o consentimento tácito da maioria da população, para quem um "barbudo" é doravante o inimigo. Vê-se pessoas sendo surradas no meio da rua, nem mesmo por militares, por cidadãos comuns. A mídia só fala contra a Irmandade Muçulmana como nunca se viu, mesmo nos tempos de Moubarak.”

Por exemplo, um editorial do al-Masri al-Youm compara os islâmicos a células cancerosas que se deve extirpar cirurgicamente, ou mesmo por “meios mais fortes como armas químicas ou radioativas”. Quase todos os jornais criticam regularmente a imprensa estrangeira, acusada de conivência com a Irmandade. Os jornalistas egípcios que trabalham para televisão al-Jazira, do Catar, são taxados de “traidores” e de “filhos da p...”! Com relação à jornada do 14 de agosto, Al-Shourouk, diário de centro-esquerda, julga que “as forças da ordem agiram com profissionalismo. Considerando o número de manifestantes, o número de vítimas foi razoável.”

Irmandade Muçulmana volta para a clandestinidade

Frente à repressão (quase 1.000 mortos e pelos menos 2.000 prisões em um mês), os militantes da Irmandade Muçulmana no Egito, habituados à clandestinidade, retomam os velhos reflexos.

“Voltamos ao contato direto sem telefone nem internet que permitem nos localizar”, explica um militante da região de Alexandria. Seu pai, dirigente da Irmandade Muçulmana, voltou à clandestinidade com medo de ser preso. “Está pior do que sob Moubarak”, afirma. “Além da violência da polícia, há a hostilidade das pessoas. Dezenas de nossos locais foram saqueados em todo o país. Muita gente não quer mais ter vizinhos da Irmandade Muçulmana. Felizmente, ainda há pessoas que se simpatizam conosco.”

A confraria podia mobilizar em todo o país centenas de milhares de pessoas, mas essas manifestações tornaram-se raquíticas desde que se tornaram alvos sistemáticos de tiros de soldados e de policiais. Agora as convocações ocorrem somente de boca a boca e a confraria não pode mais fretar ônibus, devido o estado de urgência, para transportar seus adeptos nas grandes cidades, particularmente no Cairo.

Certos especialistas não decretam tão rapidamente o fim da Irmandade Muçulmana, um movimento que tem 85 anos e está habituado à clandestinidade.  “A confraria está desestabilizada, mas controla suas finanças e grande parte de seus militantes está em liberdade”, relativiza Achraf al-Charif, professor de ciências políticas na Universidade Americana do Cairo.

“Como organização fechada e secreta, a confraria é capaz de resistir à onda de repressão e se reorganizar rapidamente”, afirma Haitham Abou Khalil, antigo membro.

Um militante de Port-Saïd diz que seu movimento continua a mobilizar, mesmo se perdeu seus locais. “Agimos novamente em contato direto com a população e não precisamos de escritórios para fazê-lo”, explica.

(Fonte: afp)

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Sem escolha

“É um fato inegável que a vasta maioria da população, e mesmo as elites liberais, está agora com o exército e contra a Irmandade Muçulmana”, afirma Lorenzo Vidino. “As pessoas estão dispostas a aceitar limitações da liberdade e o retorno de certas pessoas da era Moubarak, que não são melhores do que a realidade dos últimos 18 meses”, acrescenta.

“Morsi quis instaurar uma teocracia”, afirma Hisham Qasem. “Aí as pessoas foram para as ruas. Os militares não tinham muita escolha. Ou deixavam as coisas correrem e teríamos um cenário a la Ceausescu, ou agiam para isolar o presidente. E a resposta da Irmandade Muçulmana foi próxima de uma insurreição armada. Era preciso reagir.”

Portanto, o editorialista não assina um cheque em branco ao general Abdelfattah al-Sissi, atual homem forte do país. “Quando eles decretaram a lei marcial por um mês, eu estava na televisão, e rapidamente manifestei meu desacordo por esse prazo. Eu teria preferido uma semana, renovável. Se isso durar mais de um mês, será preciso que o governo me explique porquê. E se a resposta não me convencer, passarei a ser contra.”

Nem alcorão nem tanque

Para o futuro, Lorenzo Vidino vê como cenário provável a volta de um “moubaraquismo sem Moubarak”, afirma. “isso ocorreu em numerosas revoluções, é preciso mudar tudo par que tudo fique parecido. Na fase atual, a vasta maioria das pessoas no Egito parece concordar que os maus dias não eram tão ruins. Pelo menos, não faltava gasolina e havia segurança nas ruas.”

Trata-se de uma ditadura militar ? O pesquisador de Zurique não acredita nisso. “Não seria muito sábio da parte do exército controlar visivelmente o país, que Sissi ou um deles seja o próximo presidente. O que pode acontecer é ter um governo ligado ao exército, com uma independência de fachada e com limites a não serem ultrapassados, uma espécie de democracia controlada.”

Hisham Qasem também tem a convicção que os militares vão voltar para as casernas. Aliás, “se Morsi não tivesse agido tão estupidamente, eles não teriam saído às ruas”. No entanto, o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito “fez muito estrago. Em todos os problemas econômicos, ele via uma castigo de Deus e pensava que, perseverando na fé em Deus, acabaria ocorrendo milagres.”

“Os egípcios se revoltaram duas vezes em menos de três anos. Isso mostra que ninguém pode ficar no poder sem que haja um consenso. Quer seja usando o alcorão, um tanque ou a força”, conclui o editorialista. No entanto, ele não nega as dificuldades que virão, mas não imagina que seu país entre em guerra civil.


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch


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