Diplomata acredita que direitos humanos e comércio devam caminhar juntos


Os sete membros do gabinete da Suíça dão as boas-vindas ao presidente indiano em setembro de 2019. A estratégia de política externa visa envolver mais estreitamente os outros ministérios e, assim, tornar a Suíça mais coerente com o mundo exterior. Keystone / Peter Schneider

Fazer negócios com outros países e promover os direitos humanos não é contradição. Na verdade, as duas funções podem e andam "de mãos dadas", diz a Secretária de Estado para Relações Exteriores da Suíça, Pascale Baeriswyl. Em entrevista exclusiva à swissinfo.ch, ela falou sobre a estratégia de política externa e seu novo cargo como chefe da missão permanente da Suíça junto às Nações Unidas em Nova York.

Baeriswyl está encarregada de escrever a estratégia de política externa da Suíça para os próximos anos, inspirada no relatório de um grupo de especialistas do qual ela fez parte. O grupo também incluiu representantes da comunidade empresarial, como o grupo segurador Swiss Re e a gigante de engenharia ABB, bem como representantes do governo, acadêmicos e think-tanks

Baeriswyl acha que a frequência dos confrontos entre fazer negócios e promover os direitos humanos no mundo é "superestimada". "Conflitos de interesse podem acontecer, e se acontecerem, a decisão tem que ir para o nível político, que então também tem que assumir a responsabilidade por essa decisão", disse ela à swissinfo.ch. "Mas normalmente essas funções andam de mãos dadas, porque não se pode ter boas relações comerciais e econômicas de forma sustentável se um país está em péssima forma doméstica. Na maioria dos casos, as relações econômicas não contradizem outros objetivos de política externa".

swissinfo.ch encontrou-se com a Secretária de Estado para Assuntos Estrangeiros Pascale Baeriswyl em seu escritório em Berna. swissinfo.ch

Arábia Saudita e China 

E o que dizer então sobre as relações com países como a China (o terceiro maior parceiro comercial da Suíça, depois da União Europeia e dos EUA) e Arábia Saudita (um parceiro estratégico no Oriente Médio, para quem a Suíça tem um mandato de "poder de proteção" para representar seus interesses diplomáticos no Irã) que têm registros problemáticos de direitos humanos?  

O presidente suíço Ueli Maurer fez uma visita de sete dias à China em abril deste ano, focando principalmente em interesses econômicos. Ele também havia planejado uma visita à Arábia Saudita, mas esta foi cancelada após o caso Khashoggi, no qual altos funcionários sauditas são suspeitos de assassinato brutal de um jornalista crítico. Embora a visita tenha sido adiada e a Suíça tenha falado sobre o caso Khashoggi, Maurer foi à Arábia Saudita em outubro, encontrando-se com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Seria apenas uma questão de esperar até que o caso estivesse fora dos holofotes? 

"Não", diz Baeriswyl. "Eu acho que o desafio é como lidar com países que cometem violações de direitos humanos ou que têm outro sistema e não possuem governos democraticamente eleitos." 

Ela observa que a Suíça sempre teve uma política para conversar com todos os países, o que ela considera um dos pontos mais fortes da diplomacia alpina.   

"Discutimos as relações econômicas tanto quanto discutimos o direito internacional e as questões de direitos humanos", diz Baeriswyl. "Fazemos isso também com a Arábia Saudita. Eu mesma estive este verão na Arábia Saudita e tivemos uma longa discussão sobre os direitos humanos e o caso Khashoggi, que de fato foi chocante para o mundo inteiro". 

Os "bons ofícios" suíços 

A demanda por "bons ofícios" suíços neutros está em ascensão. Durante os três anos de Baeriswyl em seu atual cargo no Ministério das Relações Exteriores, a Suíça recebeu quatro novos mandatos de "poder protetor" (protecting power, no jargão diplomático) para representar os interesses diplomáticos da Arábia Saudita no Irã, do Irã na Arábia Saudita, do Irã no Canadá e dos Estados Unidos na Venezuela.  

Ela explica que a Suíça tem uma longa tradição de tentar falar com todos para construir confiança. "É por isso que, em muitas circunstâncias, a Suíça é considerada neutra", continua. "Então eles vêm até nós e querem que sejamos o mediador entre dois países que já não se falam". E diz que a procura está a aumentar porque "há muitos hotspots no mundo onde os países estão começando a degradar as suas relações bilaterais".  

Um assento suíço no Conselho de Segurança da ONU? 

A diplomata suíça não acha que a reputação de neutralidade do seu país será prejudicada pela sua pressão para um assento não permanente no Conselho de Segurança da ONU. Como chefe da missão suíça à ONU a partir da primavera do próximo ano, Baeriswyl estará à frente dessa meta. 

"Eu acho que a Suíça pode trazer muita experiência para o Conselho de Segurança em como ser um construtor de pontes, e é isso que outros países esperam que façamos se formos membros", diz ela. 

Então, se a Suíça neutra estivesse no Conselho de Segurança em 2023-24, ela se absteria em votos sensíveis como a imposição de sanções?   

"Esta é uma decisão caso a caso", diz Baeriswyl, "mas temos bons exemplos de países que têm um perfil semelhante ao da Suíça, como a Suécia, que fez um trabalho maravilhoso no Conselho de Segurança como construtores de pontes, como promotores da paz e da segurança. E penso que este é também o caminho que a Suíça escolheria".  

Para o próximo ano, ela diz que as prioridades suíças na ONU serão "a diplomacia científica, o apoio ao Secretário-Geral em relação às reformas do sistema das Nações Unidas, que precisa de uma reforma urgente, e a política de direitos humanos em relação ao jornalismo e aos direitos das mulheres".  

Enquanto isso, Baeriswyl elabora a nova estratégia de política externa da Suíça, e ela está confiante de que estará terminada até o final do ano. Ela diz que "sempre foi missão das nossas embaixadas abrir portas para as empresas e universidades suíças" e que o relatório dos especialistas "talvez tenha enfatizado mais este aspecto, tornando-o assim mais visível". 



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