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Revolta árabe reconcilia palestinos inimigos



Mussa Abu Marzuk, do Hamas (esq.) e Azzam al-Ahmad do Fatah durante runião no Cairo.

Mussa Abu Marzuk, do Hamas (esq.) e Azzam al-Ahmad do Fatah durante runião no Cairo.

(Keystone)

O Fatah e o Hamas, que controlam respectivamente a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, ratificaram nesta terça-feira (03/5), no Cairo, um acordo de reconciliação entre palestinos.

Segundo o especialista em Oriente Médio, Riccardo Bocco, o acordo entre os grupos inimigos é possível devido as mudanças que ocorrem na região, especialmente no Egito.

O acordo a ser firmado terça-feira (03/5) no Cairo entre o Fatah e o Hamas, estabelece a formação de um governo de transição composto de personalidades independentes. No prazo de um ano deverão ocorrer eleições legislativas e presidenciais.

A Suíça reagiu com satisfação ao acordo de reconciliação e reconheceu “o papel central desempenhado pelo Egito nas negociações”, conforme comunicado do Ministério das Relações Exteriores (DFAE).

Para o governo suíço, o acordo “deve contribuir para o avanço do processo de democratização e o respeito aos direitos humanos em todo o território”. Também é necessário decretar rapidamente um cessar-fogo duradouro, acrescenta o DFAE.

Na entrevista a seguir, o especialista em Oriente Médio no Instituto de Estudos Internacionais de Genebra, Riccardo Bocco, analisa o processo de paz palestino.

swissinfo.ch: Que leitura o senhor faz desse acordo, considerado por muitos observadores como surpreendente?

Riccardo Bocco: As negociações estavam interrompidas desde o início deste ano, pelo menos. Os acontecimentos da “revolta árabe” aceleraram as coisas, forçando o Hamas e o Fatah a se unirem. O que aconteceu no Egito não só alarmou os israelenses, que perderam o apoio de Mubarak, mas também os palestinos.

Houve várias manifestações de jovens palestinos que de uma forma velada colocaram em dúvida a representatividade da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e do Fatah na Cisjordânia.

O que está acontecendo na Síria provoca inquietude no Hamas, pois o apoio de Damasco pode vacilar.

É preciso mencionar também a vontade de Mahmud Abbas (líder do Fatah) de declarar um Estado palestino na Assembleia da ONU em setembro. É difícil para Abbas apresentar uma proposta sabendo-se que a ANP controla somente a Cisjordânia.

swissinfo.ch: Este acordo pode marcar o início de una nova era para os palestinos?

 R.B.: A ratificação do acordo por Abbas e  Jaled Meshaal, do Hamas, desta vez parece para valer.

No passado, vimos acordos serem cancelados. Não apenas pela dissidência interna, mas também por interferências principalmente de Israel e da CIA, o serviço secreto dos Estados Unidos. Não é segredo que desde o acordo de 2007 os EUA armaram 500 homens do Fatah, que entraram em Gaza com o objetivo de destruir o Hamas.

swissinfo.ch: Com as declarações do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, dizendo que a ANP deve escolher entre o Hamas e a paz com Israel

 R.B.: Em primeiro lugar, devemos esperar para ver o conteúdo exato do acordo. A posição do Hamas será  interessante: será que ela vai renunciar à violência e reconhecer o Estado de Israel? De um ponto de vista puramente estratégico, o Hamas pode fazer concessões sempre que haja reciprocidade, pois eles também querem ser reconhecidos.

No entanto, Netanyahu não tem interesse nenhum na unidade entre o Fatah e o Hamas. Ele não quer a paz. Para ele é suficiente uma forma de paz econômica, que não implique de maneira alguma a criação do Estado palestino. Enquanto houver divisões internas entre palestinos, Israel pode fazer prevalecer o fato de não haver um interlocutor representativo de todo o povo palestino.

Não estou defendendo o Hamas, porém estamos diante de dois terroristas: o Hamas mata civis israelenses e Israel pratica terrorismo de Estado ao matar a população civil palestina. Sair dessa situação requer uma vontade política que só os Estados Unidos podem impor.

swissinfo.ch: Como os acontecimentos no mundo árabe podem influenciar o processo de paz no Oriente Médio?

R. B.: Os processos de mudança em curso, em particular no Egito, terão resultados positivos, por exemplo, adotando um pluralismo político que vai impulsionar a democratização em outros países.

Israel terá dificuldades, no sentido em que não pode mais pretender ser a única democracia no Oriente Médio. Nesse ponto, algumas pessoas podem questionar que tipo de “democracia” existe em Israel, um país que discrimina a minoria palestina e que ocupa outro Estado através da colonização. 

swissinfo.ch: A Suíça é um dos poucos países ocidentais a manter um diálogo com o Hamas. Seu papel de mediador terá mais peso?

 

R. B.: Que eu saiba, esse acordo do Cairo não teve participação direta da Suíça. Não que papel terá no futuro, porém posso ser orgulhoso do que o país tem feito até agora

Quando houve o boicote contra o Hamas, em 2006, a Suíça foi um dos poucos países a estabelecer um diálogo com o novo governo. A posição do governo suíço foi inteligente. Frente ao boicote contra o Hamas por parte de israelenses e americanos, Al Qaeda e outros grupos extremistas poderiam pensa que seguir a via democrática para chegar ao poder seria inútil. Qual o resultado? Muitos continuaram a luta armada.

Palestina, povo dividido

Dois  movimentos disputam o controle dos territórios palestinos: Fatah e Hamas.

O Fatah é laico e fundado por Yasser Arafat em 1959. Até 2006 era a maior organização palestina. O partido, que controla a Cisjordânia é dirigido por Mahmud Abbas (Abu Mazen), presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Para Israel, este é o único interlocutor válido no processo de paz.

O Hamas é de inspiração islâmica e foi criado em 1987 pelo xeique Ahmed Yassin. Considerado como organização terrorista por muitos governos ocidentais, entre outros fatores porque não reconhece o Estado de Israel. Nas últimas eleições (2006), realizadas com a participação de observadores, foi o vencedor e assumiu o controle da Faixa de Gaza.

As tensões entre o Hamas e o Fatah surgiram depois da norte de Arafat e se intensificaram depois da vitória eleitora do partido islâmico.

Além da luta pelo poder, ambos divergem quanto às condições de negociar com Israel.

Durante dos últimos cinco anos, houve uma verdadeira
guerra civil,
especialmente na Faixa de Gaza.

Apesar de diversos acordos de cessar-fogo e da tentativa de negociar em 2009, o conflito causou centenas de mortos.

Aqui termina o infobox


Adaptação: Claudinê Gonçalves, swissinfo.ch


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