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Portugueses, caboverdianos e brasileiros Lusitânia arrebata principais prêmios de Locarno

Nunca na história do Festival Internacional de Cinema de Locarno foram tantas as chances de um filme lusófono conquistar o Pardo D’oro, o prêmio máximo da competição internacional. Mas não se esperava que a lusofonia amealhasse 3 dos 4 principais prêmios: melhor filme (“Vitalina Varela”), melhor atriz (Vitalina Varela ela mesma), e melhor ator (Régis Myrupu, indígena brasileiro, por “A Febre”, de Maya Da-Rin).

Pedro Costa and Vitalina Varela

O diretor Pedro Costa congratula Vitalina Varela com seus respectivos Leopardos na mão. Vitalina deu a Costa o conceito para o filme, o argumento e a história - daí a homenagem dada à atriz no próprio título do filme. 

(Locarno Film Festival/Marco Abram)

Dos 17 filmes em concurso, dois eram “puro-sangues” portugueses: o vencedor, “Vitalina Varela”, e “Technoboss”, de João Nicolau. O terceiro, “O Fim do Mundo” de Basil da Cunha, é na verdade um filme suíço realizado por um diretor natural de Lausanne mas de origem portuguesa. E seu filme é todo falado em creole caboverdiano. Por fim, “A Febre” é um filme brasileiro (em co-produção com a França) mas praticamente todo falado na língua indígena Tukano. O prêmio de melhor direção foi para Damien Manivelfor pela produção franco-coreana "Os Filhos de Isadora" (Les Enfants d’IsadoraLink externo).

A participação lusófona foi ainda além, tanto na seção Cineastas do Presente (para realizadores em seu primeiro ou segundo longa-metragem), nos curtas-metragens e nos filmes fora de competição – dos quais destaca-se a docuficção “Prazer, Camaradas!”, de José Filipe Costa.

Regis Myrupu

Desacreditando no destino: Regis Myrupu realizou em Locarno o sonho que nunca havia sonhado. 

(Locarno Film Festival/Samuel Golay)

Jovem nação velha

Toda essa presença transmite uma imagem de Portugal como uma nação cada vez mais  multicultural e criativa, que muito avançou desde o retorno à democracia com a Revolução dos Cravos, em 1975, depois de mais de 40 anos de ditadura salazarista, que fechou o país às agitadas mudanças de mentalidade do século 20.

Hoje Portugal é a bola da vez, o país predileto da Europa para os europeus em diversos aspectos, a começar pela economia. Durante a mais recente crise financeira (2012-13), o governo de centro-esquerda decidiu fazer tudo aquilo que o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o Banco Central Europeu e a revista britânica The Economist falavam para não fazer: em vez de austeridade, cortes nos gastos e benefícios públicos, e privatizações desvairadas - a receita dos doutos -, Portugal decidiu investir em saúde, educação, transportes, enfim, na coisa pública.

Em resumo, os portugueses não ficaram mais ricos, mas a infraestrutura do país renovou-se de tal forma que os estrangeiros estão vindo em massa, comprando imóveis, abrindo negócios, atraindo ainda mais turistas (e gentrificando as suas cidades mais vibrantes, como Porto e Lisboa, aumentando o custo de vida e os aluguéis para além das possibilidades dos moradores nativos – voilà o outro lado da moeda). No futebol, Portugal também alçou-se ao time das maiores potências da Europa e do mundo.

Os riscos do cinema

Em termos de cinema, isso tudo significa que a produção portuguesa não chegou a afundar nas profundezas do Tejo como temia o diretor Miguel Gomes há alguns anos, falando para swissinfo.ch no lançamento de seu filme “Tabu” em Zurique. Mas os cineastas e produtores tampouco estão nadando em dinheiro, muito pelo contrário.

João Nicolau, director de “Technoboss”, e José Filipe Costa de “Prazer, Camaradas!” lamentam que todos os filmes que estamos cá a ver são fruto de muito sangue, suor e invenção, pois todos os filmes são subfinanciados.  

“Todos temos de baixar nossos orçamentos constantemente durante a produção, e olhe que nossos orçamentos são bastante realistas”, disse Nicolau à swissinfo.ch em Locarno.

Considerando que Portugal mal produz mais que uma dúzia de longas por ano, a presença destes films em diversos festivais internacionais é um feito notável.

Nada mais justo, aliás, que “Vitalina Varela” tenha levado o Pardo d’Oro. O veterano diretor Pedro Costa mostra como é possível fazer uma obra-prima de cores épicas com pouco dinheiro e muita arte. O que mais se destaca no filme é sua fotografia: absolutamente todas as cenas são cuidadosamente construídas como quadros, num jogo impressionante de luzes e sombras como na técnica do “chiaroscuro” que faz parecer que a fotografia foi dirigida pelo próprio Caravaggio. Mas o crédito é do cinegrafista Leonardo Simões.

O prêmio de melhor atriz para Vitalina Varela também surpreendeu mas em nada desapontou, e a ela deve-se muito mais crédito que apenas a atuação. Afinal, a história e o argumento partiram dela, daí a homenagem de Costa na atribuição do próprio título.

Cabo Verde também desponta na produção suíça de raiz portuguesa “O Fim do Mundo”, que traz o miserável distrito da Reboleira, nos arredores de Lisboa, para Locarno e o mundo. Lamentavelmente, o filme não levou nenhum prêmio – pois em muito merecia. Todo feito com pessoas da comunidade, sem nenhum ator profissional, o filme de Basil da Cunha pode ser colocado lado a lado com clássicos recentes como os americanos “Do the Right Thing”, (Faça a coisa certa, 1989) de Spike Lee, “Boyz in the Hood” (A Malta do Bairro - em Portugal - ou Os Donos da Rua- Brasil -, 1991) de John Singleton, e o francês “La Haine” (O ódio, 1995), de Matthieu Kassovitz.

Mas para o elenco, estar em Locarno já vale por um prêmio. Como disse o jovem ator Michael Spencer, ou Spira, à swissinfo.ch, seus planos de avançar a carreira de ator, algo que jamais sonhara ser possível, começam a fazer mais sentido agora.

O melhor ator do festival tampouco é ator profissional. Regis Myrupu atuava, e ainda atua, como propagador da cultura de sua etnia nos arredores de Manaus, e assim como Vitalina Varela para Pedro Costa, teve um papel vital no tratamento do roteiro da diretora carioca Maya Da-rin e em sua adaptação para a língua Tukano. Assim como para Spira e elenco de “O Fim do Mundo”, só o fato de estar em Locarno com toda a atenção e respeito já lhe era a realização de um sonho que jamais havia sequer sonhado.

Essa atenção devida, porém, assume importância muito além do filme e de suas contingências, mas por amplificar o alerta sobre as ameaças reais e imediatas que sofrem a floresta amazônica, as nações indígenas e a agência de fomento ao audiovisual brasileiro (Ancine) sob o governo ultra-direitista de Jair Bolsonaro. “Temo que daqui em diante será muito difícil fazer um filme como este no Brasil”, disse Maya Da-Rin.   

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