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Prezada senhorita, quanto você custa?

Caricatura no jornal humorístico "Der Neue Postillon" mostrando situação num cabaré de Zurique (imagem: http://www.ausstellung-prostitution.ch)

Exposição no Museu Bärengasse conta a história da prostituição em Zurique entre 1875 e 1925.

Em ambiente de cabaré, organizadores apresentam imagens, fotos, sons e contam
as condições de trabalho, perseguição da polícia e o medo de doenças venéreas.

Quem poderia imaginar?

Zurique, um dos centros do puritanismo, a cidade onde em 1523 o padre Huldrych Zwingli iniciou uma radical reforma protestante da Igreja, é a capital do sexo na Suíça.

A única verdadeira metrópole na Suíça não perde para outras grandes cidades européias no quesito “negócios do amor”. Segundo as estatísticas, Zurique é a cidade com o maior número de prostitutas.

Para retratar essa tradição, o Museu Bärengasse abre uma exposição pouco comum: “Prezada senhorita, quanto você custa?”, exibindo fotos, imagens e textos sobre a prostituição em Zurique de 1875 até 1925.

A intenção do evento não é apenas mostrar um lado que muitos suíços gostariam de esconder, mas também encher as salas dos museus.

“Devo confessar que nos últimos tempos temos tido cada vez menos visitantes. Por isso decidimos escolher temas que chamem a atenção do público. A prostituição é seguramente um deles”, revela a funcionária do museu, que prefere ficar anônima.

A exposição foi montada no porão do museu, localizado a poucos metros da sede do UBS, o maior banco suíço. O visitante que entra já sente-se num bordel: móveis antigos, luzes vermelhas e as paredes cobertas por um papel com flores em relevo de tom violeta. Até a música ambiente lembra os antigos cabarés de Zurique.

Paris como modelo

O moderno sistema de prostituição desenvolveu-se gradualmente em Paris no século XIX. A partir dessa época o sexo pago foi descriminalizado. Apenas o proxenetismo e a abordagem ofensiva de “clientes” continuou sendo objeto de perseguição pela polícia.

A tolerância oficial se estabeleceu apenas após a criação de estabelecimentos discretos, chamados de “maison closes” (casas fechadas) ou “maison de tolérance” (casas de tolerância), que permitiam o encontro entre clientes e prostitutas fora das ruas.

Na chamada “Belle Époque”, o sexo também era farto e barato em Zurique, uma cidade que crescia devido à rápida industrialização. Novos bairros eram criados e prédios construídos para abrigar a massa de operários que chegavam. Ao mesmo tempo, muitas mulheres vinham para fugir do desemprego ou falta de perspectivas na província agrícola. Muitas delas vinham até de longe, da Alemanha, França, Europa do leste. As suíças eram originárias do interior e de cantões distantes.

Na dura luta diária por trabalho, a prostituição acabava sendo a única forma de sobrevivência para muitas delas.

300 “estabelecimentos”

Como mostram documentos oficiais exibidos na exposição, entre 1893 e 1900 o governo registrava em Zurique mais de 300 restaurantes e bares, onde também era exercida a prostituição. Muitas garçonetes trabalhavam nos chamados “varietés”, que eram bares que ofereciam pequenos espetáculos semi-eróticos ou humorísticos.

A única exigência da polícia é que as mulheres fizessem pelo menos dois exames de saúde por semana, para evitar as infeções provocadas pela gonorréia ou sífilis.

Depois da cerveja e música, muitos clientes satisfaziam seus outros desejos com as funcionárias desses estabelecimentos.

Bordéis

O livro de controle do bordel “Haus zum Prüfstein” tem anotações de 17 de agosto de 1875 até 4 de outubro de 1892. Elas mostram que 281 mulheres trabalharam durante o período no estabelecimento. A maior parte delas vinha do sul da Alemanha e tinham entre 18 e 21 anos. Algumas porém chegavam a ter entre 15 e 17 anos, o que não era proibído na época.

Na ruas muitas mulheres também se prostituíam, apesar da vigilância constante da polícia de Zurique. A abordagem de clientes era feita através de anúncios codificados nos jornais ou discretamente nas ruas, quando as prostitutas passeavam na principal avenida Bahnhofstrasse e lançavam seu charme para os passantes.

Graças à eficiência dos correios suíços, a entrega das cartas ocorria até no mesmo dia e vários encontros podiam ser programados. Quanto às investidas nas ruas, elas podiam ser arriscadas. A exposição mostra cartas da prostituta alemã Martha von Ow, apreendidas pela polícia de Zurique depois que ela foi flagrada abordando clientes potenciais nas ruas da cidade.

Repressão

Apesar de já ser uma metrópole na época, Zurique nunca deixou de perder seu lado puritano. A libertinagem nos bares não demorou para provocar uma reação.

Uma das razões mais fortes é a forte incidência de doenças venéreas e a exploração de mulheres. De fato, grande parte delas entrava no ofício para ganhar dinheiro. Porém muitas se endividavam ou eram simplesmente jogadas às ruas, depois que atingissem a idade “limite”.

A oposição à prostituição pode ser vista em panfletos e brochuras, como as publicadas pela “Associação de Mulheres pela Elevação da Moral e bons Costumes” (Schweizerischer Frauenbund zur Hebung der Sittlichkeit). “Meninas, mantenham-se puras” ou “Esporte: força para a abstinência”, eram as palavras de ordem da época, como podem ser vista em alguns cartazes.

Na repressão oficial, as estrangeiras flagradas vendendo seus corpos eram geralmente expulsas dos cantões. No caso de mulheres suíças, muitas eram enviadas para reformatórios de moças, onde a disciplina não diferenciava muito dos quartéis.

Em 1898 mudanças na lei terminam por fechar grande parte dos bordéis.

Cigarros e mulheres

Porém a prostituição não terminou. Em pequenas lojas, onde se vendiam cigarros, ela continuou. “Ao mesmo tempo em que as vendedores serviam charutos por 10 centavos, seus corpos custavam de cinco a dez francos nos quartinhos de fundo”, como conta o livro preparado para a exposição no Museu Bärengasse. Apenas em 1914 esses estabelecimentos foram fechados pela polícia.

Esses e outros relatos e documentos exibidas no pequeno museu de Zurique apenas sugere que a prostituição faz parte da história da cidade. Tanto que ela não acabou, mas sim se desenvolveu.

A prova está na ocupação intercontinental das boates, bares, nas ruas e nas exposições de mulheres nas vitrines da “Langstrasse”.

Os protestos continuam.

swissinfo, Alexander Thoele em Zurique.


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