Bancos precisam ainda investir mais em diversidade

Tidjane Thiam, presidente do Credit Suisse, aparentemente nunca se sentiu em casa na Suíça. Depois de perder a luta pelo poder com o presidente do conselho administrativo, Urs Rohner, deixou o segundo maior banco da Suíça em fevereiro. © Keystone / Walter Bieri

Tidjane Thiam deixou o cargo de presidente-executivo do Credit Suisse (CS) há oito meses. Agora se torna tema de um artigo no New York Times. Nele, o autor discute a possibilidade de o racismo ter levado à demissão do executivo franco-marfinense.

Este conteúdo foi publicado em 16. outubro 2020 - 10:00

O jornal americano não dá uma resposta clara. Mas o artigo publicado no início de outubro não deixa dúvidas, pelo menos nas entrelinhas: a cor da pele de Thiam desempenhou um papel na sua demissão. O jornal se refere, por exemplo, à forma como o presidente-executivo foi apresentado na festa de aniversário do presidente da diretoria do CS, Urs Rohner, que Thiam aparentemente considerou racista. Indagado pelo jornal The Guardian, o banco pediu desculpas pelos incidentes nesta semana.

O costa-marfinense, agora com 58 anos, deixou o segundo maior banco suíço em fevereiro depois que se descobriu que a instituição havia colocado vários altos executivos sob vigilância.

Entretanto, pouco mudou, diz Anina Cristina Hille, que está fazendo pesquisas sobre diversidade na Universidade de Ciências Aplicadas e Artes de Lucerna. Os empregadores na Suíça, especialmente os grandes bancos, estão muito comprometidos com esta questão. Mas, no final, a diversidade é um problema que precisa ser resolvido não apenas pelos empregadores, mas também pelos políticos e pela sociedade em geral.

Foco nas questões de gênero

Na questão da diversidade, os bancos e outras empresas têm até agora se concentrado fortemente na igualdade de gênero. "Quando você fala sobre diversidade hoje, a maioria das pessoas pensa em gênero", diz Hille. "Provavelmente porque o gênero tem sido uma questão política importante nos últimos anos, por um lado, e porque afeta metade da população, por outro", suspeita o pesquisador.

Não é de se admirar, portanto, que esta seja a área em que mais progressos foram feitos. Um estudo da empresa de consultoria Oliver Wyman concluiu no final do ano passado que graças ao trabalho duro e dedicação, as manifestações de boa-vontade dos bancos estavam finalmente tendo um impacto real. Afinal, 20% dos membros da diretoria executiva são agora mulheres. Mas as mulheres ainda estão claramente subrepresentadas na administração. Afinal de contas, mais da metade de todo o pessoal do banco são mulheres.

Poucas estruturas para promover as minorias

À sombra da questão de gênero está a promoção das minorias. Em uma pesquisa realizada pela Universidade de Ciências Aplicadas e Artes de Lucerna, 92% das empresas suíças pesquisadas disseram que sua gestão da diversidade incluía a questão de gênero sendo que apenas 49% também incluía o aspecto da etnia.

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A lacuna é ainda mais extrema quando se trata de medidas tangíveis. 54% das empresas afirmaram que tinham redes e grupos especiais para promover as mulheres. Apenas 9% têm estruturas comparáveis para a promoção de minorias étnicas.

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Credit Suisse está em uma boa posição

E quanto ao Credit Suisse? Em termos de gênero, o banco está bem posicionado em comparação com o resto do setor: três em cada 13 membros do conselho de administração são mulheres, o que está exatamente de acordo com a média do setor. Em contraste, a diretoria executiva é composta por um número de mulheres acima da média. A proporção de mulheres no Credit Suisse é de 27%. Em geral, 22% da alta administração são mulheres. De acordo com uma pesquisa da Skema Business School, em todo o setor este número é inferior a 17%.

Hille examina regularmente como várias empresas suíças abordam a diversidade em um sentido mais amplo. Em sua pesquisa on-line, as empresas participantes respondem cerca de 50 perguntas sobre a organização geral da empresa, sua gestão da diversidade e a composição de seu pessoal em termos de idade, sexo, nacionalidade, religião e saúde/incapacidade. O Índice de diversidade, publicado pela última vez em 2018, é o resultado desta pesquisa. Àquela época, o Credit Suisse ficou em primeiro lugar, à frente da IKEA e do Instituto Paul Scherrer.

O segundo maior banco suíço, o UBS, participou da pesquisa pela última vez em 2014 e não chegou ao top 10. O Credit Suisse estava em 4º lugar na época.

Para Hille, o bom desempenho do CS não é nenhuma surpresa. A partir de sua experiência, ela sabe que as grandes empresas internacionais estão geralmente mais conscientes de como lidar com a diversidade. "A igualdade de direitos por si só não é suficiente nos negócios. Entretanto, quando as vantagens da diversidade como, por exemplo, o melhor aproveitamento do potencial da força de trabalho, são mencionadas, as empresas respondem bem.

Ainda há muito a fazer

No entanto, os bancos suíços são empresas e, no final das contas, não devem satisfação a ninguém. É diferente nos EUA, a pátria do debate da diversidade e do movimento "Black Lives Matter". Lá, as grandes empresas são obrigadas a fornecer às autoridades dados sobre a diversidade de sua força de trabalho. Não existe um instrumento comparável na Suíça.

No ano passado, o Washington Post avaliou os dados disponíveis das instituições financeiras e chegou à conclusão inequívoca de que "Os bancos têm dificuldades para aumentar o número de pessoas negras em posições de liderança”.

Um relatório do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara de Deputados dos EUA chega a uma conclusão semelhante: os grandes bancos americanos ainda estão firmemente nas mãos de homens brancos. Ainda há muito a ser feito.

Adaptação: DvSperling

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