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Por Bruno Marfinati e Hugo Bachega
SÃO PAULO (Reuters) - A vinda ao país do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, gerou uma série de protestos, especialmente da comunidade judaica, mas o governo vai tentar aproveitar a ocasião para assumir um papel-chave de intermediador no delicado impasse internacional em torno do programa nuclear do Irã.
Apesar de controversa, sua visita não deve criar dores de cabeça ao país, contanto que o governo seja cauteloso e o líder iraniano se abstenha de suas polêmicas declarações em solo brasileiro, disseram analistas.
A chegada de Ahmadinejad acontece dias depois da visita do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e duas semanas após a passagem de Shimon Peres, presidente de Israel, país que, para o iraniano, deveria ser "riscado do mapa".
No Brasil, Peres esquivou-se de comentar as afirmações do iraniano. Ficará Ahmadinejad distante de declarações explosivas?
"Espero que ele não extrapole nas declarações porque justamente isso não pegaria bem para o Brasil", afirmou o ex-embaixador do Brasil em Washington Roberto Abdenur.
"O chanceler (Celso) Amorim deu a entender que houve uma preparação cuidadosa da visita, inclusive com vários recados aos iranianos no sentido de que o Ahmadinejad no Brasil evite declarações indesejáveis", acrescentou, afirmando, no entanto, considerar a visita "despropositada e inoportuna".
Além dos discursos polêmicos por defender o fim de Israel, a inexistência do Holocausto e ser contra as liberdades sexual e religiosa, Ahmadinejad colocou o Irã no centro de um impasse que contribuiu para o isolamento do país pela comunidade internacional, desconfiada de que seu enriquecimento de urânio seja para a produção de armas nucleares. E é nesse dilema que o Brasil quer se fazer ouvido.
O governo brasileiro tem buscado ampliar sua projeção internacional com a atuação militar no Haiti, a tentativa de mediação da crise em Honduras, o envio de tropas ao Sudão e a abertura de uma embaixada na Coreia do Norte.
Mostrar que o país está disposto a mediar situações de tensão seria parte da campanha brasileira para conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), analisou o coordenador do curso de Relações Internacionais da Faap, Gunther Rudzit.
"A política externa atual quer mostrar que o Brasil é capaz de ter papel mais ativo na solução dos problemas", disse.
O especialista em Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser vai na mesma linha. "Não se consegue uma vaga a não ser demonstrando capacidade, poder econômico, liderança política."
FIO DA NAVALHA
O enriquecimento de urânio iraniano é a preocupação das potências ocidentais. Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Rússia e China negociam com o Irã tendo como objetivo que o país desista do enriquecimento de urânio.
Ao receber Ahmadinejad, o Brasil gostaria de se qualificar para entrar nessa negociação, até agora problemática.
Faltaria ao país, no entanto, o potencial necessário para se tornar um intermediador de peso na questão nuclear iraniana e a aproximação diplomática com a República Islâmica poderia gerar dúvidas sobre os reais interesses deste diálogo.
"O Itamaraty está escolhendo um caminho no fio da navalha", disse Rudzit. "O Brasil tenta ter sua própria autonomia no enriquecimento do urânio para fins pacíficos, que não restem dúvidas no mundo sobre as nossas intenções."
"Só que uma aproximação muito grande com o Irã pode justamente fazer surgir um efeito contrário, de as pessoas perceberem isso como indo para um outro caminho", acrescentou.
O ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia não acredita que a visita cause dúvidas sobre o programa nuclear brasileiro, "perfeitamente respeitado por todo o mundo", mas aponta que a aproximação brasileira pode provocar controvérsias.
"Isso que não entendo.... não precisava de nenhuma forma de se colocar como amigo do Irã e atrair uma certa suspeita do que esteja ocorrendo com ele", afirmou Lampreia.
Para Nasser, da PUC-SP, apesar de não ter o poder de persuasão nos moldes de grandes potências, como Rússia ou China, o Brasil poderá ser um elemento a mais no estabelecimento dessa agenda nuclear que está sendo levada para os fóruns internacionais.
"O Brasil tem que se colocado claramente contra países que adotam a política nuclear para a produção de armas, então, ele continua com essa posição. O Brasil não está concordando com isso, está ouvindo o Irã e acreditando naquilo que o Irã está dizendo."
Brasil e Irã mantêm relações diplomáticas desde 1903 e os países vão aproveitar a visita de Ahmadinejad para assinarem acordos bilaterais.

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Reuters