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Por Nick Tattersall e Humeyra Pamuk

ISTAMBUL (Reuters) - De maneira muito semelhante à grande mesquita que mandou erguer no topo de uma das colinas mais altas de Istambul, o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, conta com apoiadores que esperam que um referendo marcado para domingo coroe seu ímpeto de reformulação do país.

A votação, na qual milhões de turcos irão decidir se substituem sua democracia parlamentar por uma Presidência de amplos poderes, pode trazer a maior mudança em seu sistema de governança desde que a república turca moderna foi fundada sobre as cinzas do Império Otomano quase um século atrás.

O desfecho terá repercussões muito além das fronteiras turcas.

Em nenhuma ocasião dos tempos modernos a Turquia, um de somente dois membros muçulmanos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), foi tão crucial para as questões mundiais, desde a luta contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque à crise imigratória da Europa e às alianças oscilantes de Ancara com Moscou e Washington.

A campanha dividiu a nação de 80 milhões de habitantes ao meio, repercutindo sobre a grande diáspora turca em solo europeu. Erdogan acusou líderes do continente de agirem como nazistas por impedir comícios por motivos de segurança, enquanto seus opositores no exterior disseram ter sido espionados.

Os apoiadores fervorosos de Erdogan veem sua busca por maiores poderes como a recompensa justa para um líder que levou os valores islâmicos de volta à vida pública, defendeu as classes trabalhadoras devotas e construiu aeroportos, hospitais e escolas.

Seus adversários temem uma guinada autoritária de um presidente que veem como viciado no poder e intolerante com a dissidência, que vem erodindo os fundamentos seculares criados pelo fundador da Turquia moderna, Mustafa Kemal Ataturk, e os afastando ainda mais dos valores ocidentais da democracia e da liberdade de expressão.

"Nos últimos 15 anos ele conseguiu tudo antes considerado impossível, impensável para os turcos, sejam pontes, túneis subterrâneos, estradas, aeroportos", disse Ergin Kulunk, engenheiro civil de 65 anos que lidera a associação de Istambul que está financiando a nova mesquita na colina Camlica.

Mas para os críticos de Erdogan –entre eles liberais secularistas, curdos de inclinação à esquerda e até alguns nacionalistas– seu controle cada vez mais rígido representa uma ameaça quase existencial.

"Ele está tentando destruir a república e o legado de Ataturk", opinou Nurten Kayacan, dona de casa de 61 anos de Izmir, cidade costeira do mar Egeu, presente a um pequeno comício a favor do "não" no referendo realizado em um porto de balsas de Istambul.

Erdogan assumiu a presidência, então um cargo essencialmente cerimonial, em 2014 depois de mais de uma década como primeiro-ministro, e desde então continuou a dominar a política pela força de sua personalidade, não escondendo sua ambição por poderes mais amplos.

Ele vem capitalizando uma onda de patriotismo desde um golpe de Estado fracassado de julho, argumentando que a Turquia está ameaçada por uma série de forças externas e precisando de uma liderança forte para conter os riscos do Estado Islâmico, de militantes curdos e dos inimigos internos que tentaram depô-lo e seus apoiadores estrangeiros.

(Reportagem adicional de Umit Bektas, Melih Aslan e Daren Butler)

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Reuters