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Por Fernando Exman
BRASÍLIA (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou nesta segunda-feira sua defesa ao programa nuclear iraniano, aproveitando a visita do presidente do país islâmico ao Brasil, Mahmoud Ahmadinejad. Ele destacou, no entanto, que a iniciativa iraniana deve ter fins pacíficos.
Por sua vez, o líder iraniano apoiou a inclusão do Brasil entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), um dos objetivos da política externa do governo brasileiro. O presidente Lula informou que pretende visitar o Irã no primeiro semestre de 2010.
"Aquilo que o Brasil defende para nós, nós defendemos para os outros", destacou o presidente Lula durante entrevista de imprensa conjunta no Palácio do Itamaraty.
Mediar situações de tensão seria parte da campanha do governo brasileiro para ampliar sua projeção internacional, dizem analistas.
"A política externa atual quer mostrar que o Brasil é capaz de ter papel mais ativo na solução dos problemas", afirmou o coordenador do curso de Relações Internacionais da Faap, Gunther Rudzit.
O especialista em Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser vai na mesma linha. "Não se consegue uma vaga a não ser demonstrando capacidade, poder econômico, liderança política."
A vinda ao país do presidente iraniano gerou uma série de protestos, especialmente da comunidade judaica, devido a seus discursos. Ahmadinejad já fez declarações polêmicas defendendo a extinção de Israel, a inexistência do Holocausto, além de se manifestar contra as liberdades sexual e religiosa.
Nesta segunda-feira, manifestantes pró e contra Ahmadinejad tomaram a frente do Palácio do Itamaraty antes da chegada do líder iraniano. A polícia reforçou a segurança no local após sua chegada, inclusive com a presença da cavalaria.
O presidente do Irã também enfrentou uma manifestação durante entrevista coletiva no hotel em que se hospeda em Brasília.
Enquanto Ahmadinejad respondia perguntas de jornalistas, um homem que estava na sala empunhou a bandeira do movimento homossexual, mas logo foi retirado da sala por seguranças.
Mais cedo, citando o exemplo do Brasil, onde as comunidades judaica e árabe convivem de forma pacífica, Lula lembrou que seu governo é favorável à criação de um Estado palestino independente que assegure a segurança de Israel.
"O Irã pode ter um papel decisivo, não só no Oriente Médio, mas também na Ásia Central. Confiamos na experiência milenar de sua cultura para forjar uma ordem internacional harmônica em sua própria região", destacou Lula.
Em outra parte do discurso, Lula citou outros temas que frequentemente constam da agenda crítica que o Irã enfrenta no cenário internacional.
"A política externa brasileira é balizada pelo compromisso com a democracia e o respeito à diversidade. Defendemos os direitos humanos e a liberdade de escolha de nossos cidadãos e cidadãs com a mesma veemência com que repudiamos todo ato de intolerância ou de recurso ao terrorismo", ressaltou Lula.
A chegada de Ahmadinejad ao Brasil acontece dias depois da visita do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e duas semanas após a passagem de Shimon Peres, presidente de Israel.
CAMPANHA NEGATIVA
Ahmadinejad colocou o Irã no centro de um impasse que contribuiu para o isolamento do país pela comunidade internacional, desconfiada de que seu enriquecimento de urânio não tenha fins pacíficos.
"Os dois países procuram um mundo livre de armas de destruição em massa, particularmente armas nucleares", afirmou Ahmadinejad ao defender, em declaração conjunta com o presidente Lula, a não-proliferação de armas nucleares.
O presidente iraniano criticou a postura dos países ocidentais, os quais acusou de promover uma política de dominação econômica, cultural e bélica.
Perguntado se seu país estava preparado para um ataque militar dos Estados Unidos ou de Israel, o presidente do Irã afirmou durante a entrevista coletiva no hotel que "a era dos ataques militares já chegou ao seu fim". Mesmo assim, disparou uma provocação.
"Aqueles que você se referiu não têm coragem para praticar isso."
Ahmadinejad disse também que o Irã, que teria sido o autor da proposta de obtenção de urânio enriquecido no exterior, não chegou a um entendimento com a ONU sobre o programa devido a uma campanha de propaganda promovida pelos países ocidentais, segundo a qual o Irã teria sido enfraquecido por essa solução.
O presidente do Irã também disse que, para essa solução ir adiante, o direito de comprador do Irã --de fazer exigências técnicas dos produtos adquiridos-- teria que ser respeitado.
"Cabe ao adquirente definir as condições da compra... no Irã, as pessoas não vão aceitar imposições de terceiros", justificou.
Ele afirmou também que a atual conjuntura internacional não pode permanecer como tal, pois existe uma necessidade de mudança.
"A presença do Brasil no Oriente Médio pode levar a um aperfeiçoamento da cooperação bilateral e multilateral. Pode também ajudar na promoção da paz e da estabilidade", acrescentou.
VISITA AO CONGRESSO
Ahmadinejad foi recebido pelos líderes do Congresso, mas a polêmica em torno de sua vinda ao país, que foi alvo de críticas também da classe política, refletiu no humor do evento solene.
Normalmente sorridente, o presidente do Senado, José Sarney, foi cortês, mas não esboçou gracejos. Era evidente o clima de desconforto. Dois deputados estenderam uma faixa com os dizeres "Holocausto nunca mais".
Ahmadinejad fez um discurso de paz, disse que Brasil e Irã eram países amigos e com muitas semelhanças e criticou o Conselho de Segurança da ONU, dizendo que "se não existe a Justiça, não vamos ter a paz".
Brasil e Irã mantêm relações diplomáticas desde 1903 e os países aproveitaram a visita de Ahmadinejad para assinar acordos bilaterais.
(Reportagem adicional de Natuza Nery em Brasília e de Bruno Marfinati e Hugo Bachega em São Paulo)

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Reuters