Reuters internacional

CARACAS (Reuters) - Manifestantes marcharam por Caracas e outras cidades da Venezuela neste sábado, depois que o banimento de cargos eletivos de um importante líder da oposição deu mais força a um movimento fraturado e impulsionado pelas primeiras manifestações contínuas anti-governo desde 2014.

Milhares de pessoas, algumas carregando cartazes escritos “Não à ditadura!” e “Capriles para presidente”, em apoio ao líder banido Henrique Capriles, participaram de manifestações contra o impopular governo do presidente Nicolás Maduro.

Os protestos deste sábado estendem uma semana de inquietações geradas pela decisão do Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela na semana passada de assumir o papel do Congresso, liderado pela oposição. A ação foi rapidamente revertida, mas a repercussão global gerada pelo ato reanimou a oposição.

Autoridades empregaram neste sábado medidas de segurança usadas em protestos recentes, como o fechamento de 17 estações de metrô em Caracas e criação de pontos de verificação em rodovias que levam à capital.

Forças da segurança usaram gás lacrimogêneo em uma importante avenida em Caracas, enquanto a polícia em San Cristobal, foco da oposição, atirou balas de borracha contra manifestantes, ferindo duas pessoas, de acordo com uma testemunha da Reuters.

“O governo está com medo. Se não estivesse com medo, não iria fechar as ruas... Não iria desclassificar Capriles”, disse a advogada de 27 anos Gikeissy Diaz, acrescentando que metade de sua turma da graduação deixou o país e que pensa em fazer o mesmo.

“CAMINHO DA DITADURA”

Capriles, duas vezes candidato à Presidência e atual governador do Estado de Miranda, é visto por muitos como a melhor chance da oposição na eleição presidencial marcada para 2018. Mas na sexta-feira ele foi banido de disputar cargos eletivos por 15 anos.

A condenação citou “irregularidades administrativas”, incluindo quebra de leis contratuais e administração imprópria de doações, de acordo com uma cópia do banimento.

“O país escolheu o caminho da ditadura”, disse Capriles para uma multidão de apoiadores em Caracas, pedindo para que marchassem até o escritório do ouvidor do Estado de direitos humanos, cuja oposição diz ser uma marionete do governo.

A Venezuela tem sido atingida por uma crise econômica brutal, que faz com que milhões deixem de se alimentar, não consigam comprar bens básicos e enfrentem longas filas por produtos escassos.

Críticos do governo dizem que o banimento de Capriles é arbitrário e permite que o Partido Socialista afaste políticos populares sem o processo devido.

Após um referendo revogatório contra Maduro ser anulado no ano passado e em meio a temores de que a eleição presidencial do próximo ano não seja justa, apoiadores da oposição dizem não ter opções além de tomar as ruas. Mas, após anos de manifestações, muitos se mostram céticos.

Ainda assim, muitos outros foram motivados para crescente crise política e a coalizão de oposição tem colocado um fronte mais dinâmico e coordenado do que o comum.

“Havia dois anos que não estava nas ruas”, disse Richard Morton, engenheiro elétrico de 43 anos que disse que a escassez fez com que tivesse que importar equipamentos necessários para seu trabalho, à medida que se preparava para participar do protesto sob o sol de Caracas.

“Estou na rua hoje porque vejo as pessoas agindo em solidariedade e os parlamentares estão nos apoiando mais. Além disto, a situação econômica está intolerável. Ninguém pode viver aqui.”

A Venezuela, rica em petróleo, segue para o que se acredita ser um quarto ano seguido de recessão, com inflação crescente e salários estacionados em um punhado de dólares na taxa do mercado negro.

O vice-presidente da Venezuela, Tareck El Aissami, afirmou que os protestos deste sábado são ilegais uma vez que as autoridades desconhecem as rotas que serão usadas pelos manifestantes.

Os adversários da oposição alertaram que a intenção das manifestações é gerar violência e "um banho de sangue".

Na quinta-feira, um jovem de 19 anos foi morto a tiros durante protestos. Um policial foi preso.

O grupo de direitos humanos Penal Forum afirma que quase 100 pessoas foram presas durante os protestos no país nos últimos dias. A oposição afirma que mais de 100 ativistas políticos foram presos em uma campanha do governo contra os dissidentes.

(Por Corina Pons, Girish Gupta e Alexandra Ulmer)

Reuters

 Reuters internacional