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Por que o degelo das geleiras nos afeta?

Desaparecimento das geleiras suíças alimenta conflitos por água

As geleiras podem desaparecer quase completamente até o final do século. Keystone / Arno Balzarini

A Suíça perde importantes reservas de água à medida que as geleiras estão recuando devido ao aquecimento global. O fenômeno afeta a agricultura, a produção de energia e a navegabilidade dos principais rios europeus.

Este conteúdo foi publicado em 20. novembro 2019 - 12:15

Começamos com a boa notícia: "as montanhas cobertas de gelo continuarão a fornecer água suficiente durante o ano, mesmo no futuro", escreveLink externo Matthias Huss, diretor da Rede Suíça de Monitoramento das Geleiras (Glamos). Nos meses quentes do verão, a água armazenada nas geleiras estabiliza o nível dos rios, reduzindo os efeitos de secas cada vez mais frequentes.

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Porém se acentua o recuo das geleiras recuam. Não se descarta mais a possibilidade que a água de degelo que escorre para os rios nos vales se esgote no futuro. Essa viragem (denominada tecnicamente "peak water") já foi alcançada na maioria das bacias hidrográficas da América do Sul, mas ainda não na Ásia e América do Norte, observa Matthias Huss. "Nos Alpes estamos passando por esse ponto de inflexão", ressalta.

Por que as geleiras são importantes?

Desde os picos dos Alpes até as planícies: uma série de artigos publicado no site da swissinfo.ch ilustra as consequências do derretimento das geleiras em diferentes altitudes e apresenta as estratégias de adaptação e proteção.

3000 - 4500 metros: as geleiras alpinas e a paisagem

2000 - 3000 metros: turismo e riscos naturais

1000 - 2000 metros: produção hidroelétrica (outubro)

0-1000 metros: recursos hídricos (novembro)

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Água das geleiras nos próximos 60 anos

As geleiras armazenam 95% das reservas de água doce do planeta. Portanto, não é surpreendente que as 1.500 geleiras encontradas nos Alpes suíços sejam consideradas reservatórios importantes de água potável para o continente. Porém essas reservas sofrem com a crise climática, especialmente nos últimos anos.

À medida que as temperaturas aumentam e as ondas de calor persistem, as geleiras recuam a um ritmo acelerado. "Se o gelo derretido em 2017 fosse distribuído a todas as famílias do país, cada uma poderia encher uma piscina de 25 metros", escreveLink externo o grupo ambientalista WWF Suíça.

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As reservas de água armazenadas nas geleiras suíças somam 57 quilômetros cúbicos de água, o que cobriria o consumo de água potável da população suíça (8,5 milhões de pessoas) pelos próximos 60 anos.

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Conflitos hídricos

Quais seriam as consequências do desaparecimento das geleiras frente a sua importância para as reservas de água do país? Risco para o abastecimento? "De forma alguma", responde Paolo BurlandoLink externo, professor de hidrologia e gestão da água na Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH, na sigla em alemão).

"A Suíça terá água suficiente, mesmo considerando o aumento da população para 10 milhões até 2050. Nos Alpes, a precipitação de águas continuará a ser significativa. O que vai mudar é a forma como a água cairá do céu: será cada vez menos em forma de neve e, cada vez mais, como chuva. Será necessário, portanto, acumular a água de uma forma diferente", explica o especialista.

O maior problema é o conflito de uso entre agricultores e hidrelétricas. Se alguns grupos necessitam aproveitar da água dos rios para irrigar os campos nos períodos de estiagem, especialmente no verão, outros querem acumulá-las em barragens para utilizá-la nos momentos de alta demanda de energia no inverno.

A represa de Limmern (cantão de Glarus). Na Suíça, a energia hidrelétrica é responsável por 60% da eletricidade gerada no país. Keystone / Alessandro Della Bella

Mas no futuro haverá picos na produção hidrelétrica mesmo nos meses de verão. Afinal, muitos lares estarão utilizando ar condicionado. Esse detalhe limitará parcialmente os conflitos, observa Paolo Burlando. Para o professor da ETH, as autoridades deverão gerir as reservas de água de forma justa e sustentável, dentre elas, criando novas bacias de armazenamento nas montanhas.

"Fontes renováveis de energia como a solar e eólica podem desempenhar um papel importante na solução deste problema. Penso, por exemplo, nos sistemas de turbinas elevatórias", diz.

Como lidar com as secas frequentes?

A segunda fase do programa pilotoLink externo de adaptação às mudanças climáticas foi lançada em 2013. Nela, o governo federal apoia projetos destinados a evitar conflitos no uso da água em períodos de estiagem. No cantão dos Grisões, por exemplo, estudos avaliam a possibilidade de construir um reservatório polivalenteLink externo para substituir as geleiras derretidas. Já no cantão de Argóvia avalia-se formas de adaptaçãLink externoo da agricultura aos períodos de estiagem.

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Menos água nos principais rios europeus

O derretimento das geleiras terá consequências significativas, de longo prazo, não só para os vales alpinos e as regiões de planícies, mas também para todo continente europeu, afirma Matthias Huss.

O professor de glaciologia na ETH calculouLink externo que mais de 25% da água do rio Ródano que desemboca no Mediterrâneo em agosto vem do derretimento das geleiras. O mesmo se aplica aos rios Reno, Danúbio e Pô, mas em menores proporções. Huss considera que a navegabilidade dos grandes rios europeus será prejudicada se a fonte das geleiras secar.

Segundo um artigo publicadoLink externo no jornal francês Le Monde, a profundidade do rio Ródano poderá cair pela metade até o final do século se menos água derreter das geleiras. O fenômeno atingirá também lagos e rios suíços como o Aare, explica Andreas Fischlin, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ao portal watson.chLink externo.

O rio Reno na região de Oberwesel, Alemanha, em julho de 2018. Keystone / Peter Zschunke

Navios mais leves

Já confrontados com as secas prolongadas dos últimos anos, os responsáveis pelo transporte fluvial na Suíça são obrigados a se adaptar. "Com relação à navegação no rio Reno, notamos que os períodos de vazante estão se tornando mais frequentes. Isto significa que os navios podem transportar menos (mercadorias) nesses períodos. Por exemplo, um navio que levaria três mil toneladas de mercadorias em períodos normais, acaba só carregando entre 300 a 900 toneladas", explica Simon Oberbeck, porta-voz da Portos da SuíçaLink externo, empresa administradora do maior porto suíço na Basileia.

Uma das soluções adotadas pelo setor é o desenvolvimento de barcos mais leves, completa Oberbeck. Além disso, a profundidade do canal de navegação na área urbana de Basileia foi aumentada para permitir a passagem de maiores cargas durante períodos de vazante.

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