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"Viver na rua é não ter dignidade"

Ivaneti de Araújo na sede da Anistia Internacional em Berna.

Para a brasileira Ivaneti de Araújo ocupar prédios não é apenas uma forma de trazer dignidade a famílias de desabrigados. Ela afirma que suas ações também trazem vida a lugares antes relegados ao abandono.

A ex-moradora de rua e ativista social veio à Suíça à convite da ONG Anistia Internacional. Em Berna ela explicou a situação dos desabrigados no Brasil.

Na Europa também se ocupam casas. Os "squatters", a palavra inglesa para denominar pessoas que vivem sem autorização em construções abandonadas por seus proprietários, estão até em várias capitais suíças. Porém Ivaneti de Araújo se admirou ao saber que um dos jornalistas suíços que a entrevistava também fazia parte do movimento. "Ele parecia tão arrumado e educado", comentou rindo.

Para a ex-moradora de rua e coordenadora do Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC) nada menos evidente. Em viagem pela Europa a convite da ONG de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional, ela não queria se limitar a fazer palestras, mas também fazer muitas perguntas. Presente em Berna no final de abril, a tradutora lhe explicou que os ocupantes dos squats são, em grande maioria, jovens politicamente engajados e oriundos da classe média. "Entendi, mas de qualquer maneira, a situação deles é bem diferente da nossa", replicou.

Sua vida foi bastante diferente. Nascida em Guariba, no interior de São Paulo, Ivaneti começou a trabalhar aos oito anos como colhedora em plantações de algodão e amendoim. Aos 14 anos engravidou pela primeira vez e foi viver em Ribeirão Preto, onde trabalhava de empregada doméstica. Já casada, decidiu levar as duas filhas ainda pequenas para viver com o marido em São Paulo, onde ele havia conseguido um emprego de metalúrgico. Depois de uma discussão com o chefe, ele perdeu o trabalho e todos foram parar na rua no início de 1998.

Moradora de rua

Durante nove meses, Ivaneti e sua família viveram sem um teto sob a cabeça nas ruas do centro de São Paulo, uma experiência que nunca mais se esqueceu. "Eu não dormia por medo de ser roubada. Não tinha chuveiro, banheiro e nem porta que pudesse fechar. Tive de aprender a mendigar e sobreviver do lixo", lembra-se, acrescentando também outros problemas práticos da vida na rua. "Sem endereço, não tinha acesso à saúde. Muitas vezes adoecia e não podia ir ao médico. Estava suja e não sabia que endereço podia colocar nos formulários."

A situação mudou depois que a família foi abordada por ativistas do MSTC. Em cinco de outubro de 1998 eles participaram da primeira ocupação. "Foi a do Hospital Matarazzo, com várias famílias". Nesse momento Ivaneti descobriu não apenas a importância de ter um lugar para morar, mas também de não estar sozinha. "Para nós tudo mudou, pois a família passou a ter um endereço para apresentar no trabalho, na escola e na saúde. Muda muita coisa, pois o problema deixa de ser individual e passar a ser uma questão coletiva. É como se fosse um casamento: na saúde, na doença, na tristeza e na alegria estamos sempre em um coletivo. A gente aprende a defender nossas causas", conta.

As ocupações de prédios e terrenos no centro de São Paulo foram seguidas por várias outras. Muitas vezes os proprietários conseguiam na justiça o direito de recuperação do imóvel. Uma das mais célebres que Ivaneti participou foi a do "Prestes Maia". O prédio, que já foi considerado a maior ocupação vertical da América Latina, chegou a abrigar 468 famílias de integrantes de movimentos de sem-teto. Entre idas e vindas, o prédio foi desocupado definitivamente em 2007, após acordo financiado pelo governo federal brasileiro e pela prefeitura. Em abril de 2009 ele foi ocupado novamente por 350 pessoas do MSTC e poucos dias depois esvaziado pacificamente.

Função social da propriedade

Apesar da oposição que sofrem, desabrigados e ativistas do movimento dos sem-tetos como Ivaneti acreditam ter apoio de parte da população. "Somos vistos como um grupo de famílias que acaba incomodando. Mas uma parte da sociedade entende o problema e acha que devemos fazer exatamente isso mesmo", ressalta a ex-moradora de rua. "Eles acham que não devemos deixar o prédio vazio para esgoto, pombos e insetos, que moram melhor do que o ser humano."

Hoje em dia, Ivaneti e mais cinco membros da sua família dividem um quarto simples no antigo Hotel Santos Dumont, ocupado por 120 famílias em março de 2007. "O proprietário não pagava há muito tempo os impostos e os herdeiros estão brigados. Eles nem entraram com reintegração de posse", lembra-se a paulistana. A proposta do MSTC é transformar o prédio em moradia. Seu novo parceiro trabalha como educador social e ela mesma continua engajada na ONG, além de ter sido eleita há dois anos conselheira municipal de habitação. "Recebi 12 mil votos", conta orgulhosa.

Como todos os ex-moradores de rua, Ivaneti gostaria também em ter sua casa própria. Enquanto não realiza o sonho, ela continua militando. Nas suas contas, mais de 450 mil imóveis estariam neste momento vazios na Grande São Paulo. "Quando vejo um prédio vazio sinto vergonha. Toda vez que olho, penso: é mais um? Principalmente, pois na maioria deles sempre tem alguém dormindo na porta. Um morador de rua."

Aos que a acusam de apropriação de bens alheios, Ivoneti tem a resposta na ponta da língua. Para ela, ocupação não é apenas dar dignidade às famílias, mas também às propriedades tomadas. "Elas se tornam habitáveis. A gente limpa e tira o esgoto. Um exemplo é o Prestes Maia. O espaço onde era a biblioteca não era bonito. Ele tinha mais de um metro e meio de esgoto. A gente limpou tudo, transformou o prédio em moradia e até criou um espaço cultural, onde as famílias tinham acesso à cultura e biblioteca."

Alexander Thoele, swissinfo.ch

Déficit habitacional

Conforme dados do Sindicato da Habitação, o déficit habitacional no Brasil é de aproximadamente 7,5 milhões de moradias, sendo 90% dele relacionados a famílias com renda de até três salários mínimos. O Nordeste representa 34,3% deste déficit.

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