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A sociedade do medo

"O medo já ganhou muito terreno para não romper diques" RDB/Hipp-Foto

Nosso mundo desenvolvido está corroído por todo tipo de medos, habilmente alimentados por políticos que querem assumir o papel de salvadores.

Este conteúdo foi publicado em 22. janeiro 2011 - 12:53
Bernard Comment, swissinfo.ch, Paris

Para o escritor suíço Bernard Comment, é necessário conjurar esses medos, inventando a realidade ao invés de suportá-la.















Nas vésperas do Natal, sob a neve que caía em Porrentruy, minha pequena cidade natal na região do Jura, encontrei uma menina de cinco ou seis anos, que larga da mão da mãe dela para acariciar com seus dedos a mandarina que um Papai Noel apressado acaba de lhe dar. Ela senta-se num murinho e exclama, entusiasta: “Ele me deu! E é minha fruta predileta!”. Toda a magia das festas reside nesta pequena cena de rua.

No entanto, uma impressão vem rapidamente contradizer a felicidade sem reserva que as crianças ainda sabem viver, com coisas simples: as festas são apenas um ritual vazio, pelo menos para quem não crê, elas têm uma sobrevivência enfática de viver junto que perdeu sua substância. É preciso oferecer, receber, fazer de conta que é um prazer, que é uma surpresa. Os hábitos restam, mas o sentido se evaporou. Uma crise de sentido soma-se à crise econômica.

  

O amanhã dá medo

O medo se instalou. Quero dizer que, há uma ou duas décadas, se desenvolveram sociedades do medo. O estrangeiro, em primeiro lugar, é o espantalho que agitamos para explicar a insegurança, o desemprego, a perda de autenticidade. A poupança dá medo, somas consideráveis podem se volatilizar em algumas horas, a mídia exagerou os riscos e as hipotecas despencam.

A escola e mais genericamente os serviços públicos dão medo, procura-se culpabilizar cada cidadão dando a entender que custam muito caro, que é preciso reduzir, apertar os cintos. A saúde dá medo, com pandemias anunciadas com frequência, com as unidades de terapia intensiva e as urgências saturadas. Os transportes causam medo, a meteorologia dá medo. Em janeiro, já imaginamos o alerta com o nível das águas, as inundações temidas, o rio Sena invadindo Paris.

Se essa sociedade do medo está instalada nos países ditos desenvolvidos, é porque os políticos jogaram esse jogo perigoso, que consiste a dar o alerta do lobo para se apresentarem como salvadores. Cria-se o medo para melhor confortar depois. Mas o medo já ganhou tanto terreno que vai transbordar os diques. Um clima se instalou, cuja evolução é tão aleatória quanto a meteorologia. Os aprendizes de bruxas continuam cheios de certezas, eles afirmam e mostram números, previsões, balanços, eles afirmam seus supostos méritos, mais não acreditamos mais. Eles se enganaram com frequência. Temos medo.

Clima de medo 

O que é triste, e mesmo aflitivo, é ver se repetir o pior, sem que a História seja capaz de servir de lição. Berlusconi não é Mussolini. Não estamos mais no óleo de rícino, mas será que melhor? Somos simplesmente mais modernos, mais técnicos ou midiáticos? As retóricas dos governos frente a crise lembram frequentemente a época do general Petain, em particular o sarkozismo e suas perigosas colorações – mesmo se não exatamente a mesma coisa.

“O senhor exagerou, aproveitou-se, os egoísmos pensaram satisfazer seu prazer, a moral se degradou, vivemos acima dos nossos meios, e agora temos de fazer sacrifícios, temos de pagar.”

Os gregos, os irlandeses, amanhã os portugueses e os espanhóis: é sempre a mesma música, administrada a pessoas que nada podem e não têm qualquer responsabilidade em tudo isso, como nada podiam as populações dos anos 1930 (com exceção do voto, é verdade, que eles utilizaram mal, não se pode esquecer).

Esse clima de medo se generalizou há duas décadas, geralmente com maiorias de direita (repercutidas pela mídia sem nenhuma visão a longo prazo), e deveríamos  nos surpreender dessa proveniência política. De fato, o capitalismo é fundamentalmente construído sobre a confiança dos indivíduos e das instituições que todos, cada qual em seu lugar, fazer circular bens materiais ou financeiros. Dito de outra maneira, o liberalismo (expressão doutrinal do capitalismo) deveria espalhar confiança e não medo como insiste em fazer há muito tempo.

A confiança é um valor coletivo

Precisamos dos estrangeiros, dos fluxos migratórios, quee sempre soubemos regular através dos séculos; precisamos de investimentos, de pesquisa, de serviços eficazes, de formação, de educação, de circulação, porque somos sociedades evoluídas, ou ditas “avançadas”, que somos levados há dois séculos pelo progresso, a modernidade, a confiança em um amanhã melhor do que hoje. É isso que gostaríamos de ouvir para romper esse círculo vicioso da confiança. A confiança no outro, a confiança em uma força comum.

Estamos cheios de negativismo, de catastrofismo. Por outro lado, sabemos a que desastres e abominações nos levara as políticas voluntaristas da felicidade para todos. A felicidade é algo individual, íntimo, e não se pode fazer dela uma causa coletiva. A confiança é um valor coletivo. Gostaria que novamente desenvolvêssemos a ambição de viver bem juntos, conjurando (principalmente pelo riso) os medos, inventando a realidade em vez de ser submisso a ela.

Aí então a menina de Porrentruy não será mais uma exceção, ou uma lembrança nostálgica, mas um modelo simpático.

Bernard Comment

Jura. Nascido em Porrentruy em 1960, Bernard Comment é tradutor, cenaristas e autor de uma dezena de livros, ensaios e romances.

 Formação. Ele é formado em Genebra por Jean Starobinski e em Paris por Roland Barthes ; foi viver na Toscana onde ensina durante quatro anos na Universidade de Pisa. Em Paris foi pesquisador na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e publica seu primeiro romance A Sombra de memória. Obteve uma bolsa de um ano na Vila Médicis, Academia de França em Roma (1993-94), estadia que lhe inspirou um panfleto contra esse tipo de pensão de Estado.

Escritura. Autor de romances e contos, ganhando vários prêmios literários, Bernard Comment também é coautor de cenários com Alain Tanner (para os filmes Fourbi, Requiem, Jonas e Lila, à demain e Paul s'en va ) e traduziu do italiano várias obras de  Antonio Tabucchi (entre elas Pereira prétend e Tristano meurt ).

Actividades.

 Nos anos 1980, Bernard Comment foi secretário da Federação Suíça de Jogadores de Futebol. Em 1999, foi nomeado diretor de ficção na rádio França Cultura. Desde 2004, dirige a coleção Ficção e Cie das edições Seuil. De 2005 a 2008

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Autores convidados

Os autores suíços que vivem no estrangeiro mantêm uma curiosidade intacta. Eles nos enviam imagens dos países longínquos.

swissinfo.ch convida autores suíços conhecidos e menos famosos a se exprimir sobre sua segunda pátria de eleição.

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