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Leonardo Boff: "Precisaríamos de duas Terras"

Leonardo Boff: visitante assíduo e reconhecido na Suíça.

(swissinfo.ch)

"Qual será o próximo passo da humanidade?", questiona o teólogo da libertação Leonardo Boff, que recebeu neste sábado (7/11) o título de doutor honoris causa na Universidade de Neuchâtel, na Suíça.

Em entrevista à swissinfo.ch, ele fala sobre a próxima Conferência Mundial do Clima, em dezembro, em Copenhague. Apesar das previsões sombrias, ele se mostra otimista quanto ao futuro do planeta.

As perspectivas para a Conferência Mundial do Clima, em dezembro próximo, em Copenhague, não são otimistas devido à falta de consenso sobre um possível acordo final.

swissinfo.ch: Qual é a sua análise da situação ambiental atual?

Leonardo Boff: Há muitos indicadores científicos que apontam para a irrupção de uma tragédia ambiental e humanitária. Nada de essencial mudou desde a elaboração da Carta da Terra, em 2003. Dissemos que no documento elaborado com personalidade de todo o mundo que estamos em um momento crítico na Terra, em que a humanidade deve escolher o seu futuro. E a escolha é esta: ou se promove uma aliança global para cuidar dos outros e da Terra, ou arriscamos a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida.

swissinfo.ch: Em que baseia essa afirmação drástica, que não aceita meio termo?

L.B.: Na confluência atual de três crises estruturais: a crise devido à falta de sustentabilidade do planeta Terra, a crise social mundial, e crise do crescente aquecimento global. Um exemplo ilustrativo: a humanidade está consumindo 30% mais do que a Terra pode repor.

swissinfo.ch: Mas a tendência consumista do mundo não é nova ...

L.B.: Não. Mas o que é novo são os níveis acelerados dessa deterioração. Segundo estudos bem credíveis, em 1961, precisávamos de metade da Terra para atender às demandas humanas. Em 1981, houve um empate, isto é, necessitávamos da Terra inteira. Em 1995, ultrapassamos 10% da capacidade de reposição, o que ainda era suportável. Em 2008, superamos em 30%. A Terra está dando sinais claros de que não aguenta mais.

swissinfo.ch: Com perspectivas de futuro ainda mais preocupantes?

L.B.: Mantendo-se um crescimento contínuo do produto interno bruto (PIB) entre 2-3% por ano, como é previsto, em 2050 precisaríamos de duas Terras para satisfazer o consumo, o que é impossível, porque temos apenas uma.

swissinfo.ch: Isso nos obriga a começar um outro modelo de civilização?

L.B.: Sim. Não podemos produzir como temos feito até agora. O modelo atual de produção, o capitalista, parte do falso pressuposto de que a Terra é um baú do qual se retira recursos indefinidamente para o lucro com menor investimento possível no menor espaço de tempo. Hoje está claro que a Terra é um planeta pequeno, velho, limitado e que não suporta uma exploração ilimitada. Temos que buscar outras formas de produção e assumir diferentes padrões de consumo. Produzir para satisfazer as necessidades humanas em harmonia com a Terra, respeitando seus limites, com um senso de igualdade e solidariedade com as gerações futuras. Esse é o novo paradigma de civilização.

swissinfo.ch: Em poucas semanas começa a Conferência do Clima em Copenhague. Há perspectivas de um acordo?

L.B.: Há uma premissa chave. Temos de fazer todo o possível para estabilizar o clima, evitando que o aquecimento seja superior a 2 ou 3 graus e que a vida possa continuar, sabendo que tal aquecimento já implicaria a devastação da biodiversidade e o holocausto de milhões de pessoas, cujos territórios serão mais habitáveis, especialmente em África e no Sudeste Asiático. Preocupa-me, nesse cenário, a irresponsabilidade de muitos governos, especialmente de países ricos, que não querem estabelecer metas consistentes de redução das emissões de gases de efeito de estufa e salvar o clima.

swissinfo.ch: Isso vem de uma falta de vontade política para chegar a acordos?

L.B.: Sobretudo de um conflito de interesses. As grandes empresas, por exemplo, as petrolíferas, não querem mudar porque eles perderiam seus grandes lucros atuais. É preciso compreender a interdependência do poder político e econômico. O grande poder é econômico. O político é uma consequência do desenvolvimento econômico. Os Estados, em muitos casos, não representam os interesses do povo, mas os grandes atores econômicos.

Caso a Conferência de Copenhague fracasse, qual seria o cenário posterior à já grave situação climática?

L.B.: Na minha opinião, se houver uma frustração política, isso pode significar um enorme desafio para a sociedade civil. Para que se mobilize, pressione e promova as mudanças que vêm sempre de baixo. Confio na razão, na prudência, na sabedoria que vem da sociedade civil, que será, também na questão do clima, o principal sujeito histórico. Nenhuma mudança real vem de cima, e sim de baixo.

E, apesar do presente difícil, estou confiante de que não se trata de uma tragédia que vai acabar mal, mas de uma crise que purifica e que nos permite dar um salto na direção de um futuro melhor.

Sergio Ferrari, swissinfo.ch
(Adaptação: Geraldo Hoffmann)

Perfil

Leonardo Boff nasceu em 14 de dezembro de 1938, em Concórdia, Santa Catarina.

De 1970 a 1991, foi professor de Teologia Sistemática e Ecumênica em Petrópolis, no Instituto Teológico Franciscano.

Em 1984, em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", foi submetido a um processo pela Sagrada Congregação para a Defesa das Fé, ex-Santo Ofício, no Vaticano. Em 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de todas as suas funções editoriais e de professor de Teologia.

O então prefeito da Sagrada Congregação para a Defesa das Fé era o cardeal alemão Joseph Ratzinger (hoje papa Bento 16), que foi orientador da tese de doutorado de Boff em Munique.

Em 1992, de novo ameaçado com uma segunda punição pelo Vaticano, Boff renunciou às suas atividades de padre e se auto-promoveu ao estado leigo.

A partir de 1993, foi professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde se aposentou.

É autor de mais de 60 livros nas áreas de Teologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia, Mística. Suas últimas obras tratam de ecologia e Ecoteologia.

Ganhou uma série de prêmios por seu trabalho, entre outros, o „Prêmio pela Liberdade na Igreja" (em Lucerna, na Suíça, em 1985) e o Prêmio Nobel Alternativo em 2001.

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