Coronavírus obriga o amor a se reinventar

A internet funciona como uma ponta entre as pessoas aquarteladas em suas casas. swissinfo.ch

Casamentos virtuais, dois apaixonados mantém o relacionamento via internet e solteiros navegam através de sites de encontros. A distância social imposta pelo Coronavírus força o amor - ou a busca de um parceiro - a encontrar novos caminhos.

Este conteúdo foi publicado em 14. maio 2020 - 12:30
Katy Romy (texto), Gabrielle Lacombe (ilustração)

Só porque o novo coronavírus nos separa fisicamente, não significa que o amor e o desejo desapareceram. Mas, em meio à crise de saúde, assumem outras formas. SWI swissinfo.ch se propôs a encontrar relacionamentos nos tempos do Covid-19.

Casamento ao vivo

"Tivemos que ser criativos", conta Samantha, uma professora residente em um vilarejo no cantão de Vaud. Na véspera do casamento, a jovem e seu noivo, Hugo, deram os últimos retoques nos preparativos.

No entanto, sua maior preocupação não está à altura dos medos habituais dos futuros cônjuges, como  revelam por telefone: "Temos medo de ter problemas com a conexão da internet.” O Coronavírus os obriga a dizer o “sim” a partir de uma videoconferência ao vivo de seu jardim em Savigny.

Samantha e Hugo Milo, distanciados dos padrinhos no casamento. ldd

Em 16 de março, o governo suíço anunciou medidas para um toque de recolher parcial para deter a propagação da pandemia. Samantha e Hugo souberam que o casamento, originalmente planejado para 27 de março, não poderia ser comemorado como pensavam.

A decepção foi enorme. "Como estou à espera de um filho no final de julho, queríamos nos casar antes do nascimento para formalizar nossa relação e proteger legalmente nossa família", disse Samantha.

Três grupos de pessoas ainda podem se casar apesar do "lockdown": pessoas no final de suas vidas, pessoas que pertencem ao grupo de risco e casais que esperam um filho antes de agosto. "Pertencemos à terceira categoria, a única exceção permitida por uma boa razão", diz Samantha. O cartório de registro civil do cantão de Vaud criou uma plataforma que permite que as pessoas se casem online.

Samantha e Hugo decidiram fazer um casamento online e inventaram um cenário digital para o "sim". A encenação adere estritamente à distância social recomendada pelo governo para combater a pandemia: "Está fora de questão colocarmos alguém em perigo por causa do nosso casamento", diz Samantha. Seus convidados receberam um novo convite de casamento - com um link para a videoconferência e uma barra de chocolate.

"Está fora de questão colocarmos alguém em perigo, por causa do nosso casamento."

Samantha

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Por razões legais, porém, o cenário se tornou mais complicado: o padrinho, os pais do jovem casal, devem participar fisicamente da cerimônia. Eles devem assinar os documentos.

"Montamos três mesas a dois metros de distância em nosso jardim, uma para nós, uma para meus pais e outra para os pais de Hugo", diz Samantha. E para manter o risco de infecção tão baixo quanto possível, as testemunhas do casamento receberam cada uma sua própria caixa de casamento com uma garrafa de champanhe, taças e um aperitivo.

Os desafios técnicos podem ser realmente assustadores: usando o programa de vídeo Zoom, as 28 telas dos convidados que iriam assistir ao casamento de casa tinham de estar conectadas. O casal criou um suporte técnico para qualquer problema que pudesse surgir: "Criamos um Grupo WhatsApp para que aqueles que tivessem problemas de conexão pudessem se ajudar mutuamente."

No dia 15 de abril, às quatro da tarde, o casal de noivos teve que se apresentar na plataforma do cartório. "Então temos dez minutos para nós, sozinhos. Espero que tenhamos tempo suficiente para ler nossos votos", disse Samantha preocupada. Depois da parte oficial não houve abraços, nem apertos de mão, nem comidas juntas. "Vamos ficar em contato com nossos convidados para comer a barra de chocolate, meu pai vai tirar fotos, e depois vamos terminar a conexão", disseram os pombinhos.

No dia seguinte ao grande dia, Samantha e Hugo contam por videoconferência: "Apesar das circunstâncias, achamos que tivemos um casamento mágico que assumiu uma forma imprevisível", eles se regozijam. Alguns convidados até se jogaram em seus vestidos e ternos, previstos para o grande dia, em frente às telas dos monitores. "A emoção também passou através das telas", diz Hugo.

Mas ainda faltava algo: os abraços e beijos para celebrar o amor. "Nós vamos compensar isso depois da epidemia. Enquanto isso, mandamos beijos para nossas famílias e amigos", concluem os recém-casados.

Laetitia, Amélie e Elie, amigos do casal: eles acompanharam a cerimônia através do monitor. ldd

O vírus que separa fisicamente os casais

"Moramos a 20 minutos de distância de carro um do outro, mas não podemos nos ver." Esta é a história de Francesca, 26 anos, e seu namorado Leo, 34 anos, desde o início do toque de recolher parcial na Suíça. Francesca vive e estuda em Genebra. Leo é engenheiro em Berna.

Quando a universidade fechou e a maioria das empresas optou pelo trabalho à distância, ambos voltaram para suas famílias no Ticino, em uma das regiões da Suíça mais afetadas pela pandemia.

"Ele mora com sua mãe, que é uma das pessoas de risco, e eu moro com meus pais, onde meu irmão também mora e trabalha no hospital de Locarno, que cuida pacientes com Covid-19", diz Francesca. Está fora de questão que o casal se encontre aumente assim o risco de infecção. "Para nós estava claro como o dia. Nem precisávamos discutir isso", diz a estudante.

Geograficamente, eles estão agora mais próximos do que o normal, mas fisicamente nunca estiveram separados por tanto tempo. "Acho muito mais difícil assim do que quando não podíamos nos ver porque vivemos tão distantes", diz ela.

"Moramos a 20 minutos de distância de carro um do outro, mas não podemos nos ver."

Francesca*

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No entanto, o casal encontrou formas de se sentir próximo, apesar da separação. Há mais de um mês eles vêm se encontrando via videoconferência. E, para manter um semblante de normalidade, eles até começaram a assistir juntos a uma série, mas à distância. "Nós compartilhamos nossas telas, depois ligamos um para o outro em vídeo, usando nossos celulares. Assim podemos nos ver, ver o filme e comentar."

Até agora, os amantes têm sido pacientes. "Mas ainda espero que possamos nos encontrar de novo antes de terminarmos os 250 episódios da série que estamos assistindo", diz Francesca.

E os solteiros?

Os tempos são particularmente difíceis para os solteiros. Ficar em casa e se encontrar não combina muito bem. Laurent*, 36 anos, trabalha na indústria de eventos em Berna e mora na França, na região da Grand Est, uma área particularmente atingida pelo Coronavírus. Como o agrupamento de pessoas estão proibidos, ele está desempregado.

"Meu objetivo não é conhecer alguém, mas conversar para matar o tédio."

Ali*

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Por estar em casa "trancado" e solteiro, ele baixou os programas de encontros Tinder e Happn. Principalmente para matar o tempo, como ele diz. Ele respeita as rígidas regulamentações que se aplicam na França. "Acabei de conhecer uma mulher interessante com quem tenho conversado desde que o toque de recolher começou. Planejamos nos encontrar para uma aventura após a pandemia. O mais importante é se manter saudável." Até agora eles estão satisfeitos com o bate-papo por vídeo.

"Meu objetivo não é encontrar alguém, mas conversar para matar o tédio", diz Ali*, outro usuário do Tinder. Várias mulheres lhe sugeriram encontros apesar da pandemia de Covid 19, diz o especialista em enfermagem, que trabalha no cantão de Friburgo.

"As pessoas não estão acostumadas a ficar em casa. Eles precisam de afeto, e estão dispostas a correr riscos para se divertirem". Mas para ele, isso não é uma opção, principalmente porque ele está em contato com pacientes infectados.

Devido à pandemia, o aplicativo Tinder recomenda aos usuários que os encontros ocorram "virtualmente". Tinder

"Eu sinto que estou recebendo muito mais mensagens do que o normal", diz Raphaèle*, uma mulher de Berna, de 32 anos, que usa o site de encontros Parship. Os usuários passam mais tempo no bate-papo online ao invés de se encontrarem uns aos outros. Raphaèle está menos inclinada a fazer isso, e prefere não usar a plataforma por enquanto.

Mais conversa, menos ação. Esta é também a tendência mostrada pelas estatísticas dos sites de encontros. Embora o Tinder não tenha números específicos para a Suíça, as conversas diárias têm aumentado 25% em todo o mundo desde o início de março. No domingo, 29 de março, quando muitos países estavam em quarentena, o site até bateu um novo recorde: Mais de três bilhões de perfis foram vistos em um dia.

O Parship faz observações semelhantes, embora o site de encontros não tenha números concretos. "Vemos uma tendência positiva na plataforma e na atividade de comunicação de seus membros." Isso tem sido medido desde que as restrições de contato ampliadas entraram em vigor na Suíça", diz Stella Zeco, porta-voz do site.

Na verdade, a principal tarefa dessas plataformas é jogar Cupido para unir almas gêmeas na vida real. Em tempos de Covid-19, eles agora pedem aos corações solitários que adiem seus encontros físicos para mais tarde, enquanto os encorajam a fazer mais trocas online.

Os internautas parecem estar se adaptando à situação. Happn utilizou a quarentena para analisar mais de perto os hábitos de seus usuários. Resultado: 54% planejam seu primeiro encontro on-line, por exemplo, via Facetime.

É verdade que o Coronavírus torna os encontros difíceis, se não mesmo impossíveis. O desejo, no entanto, ele não apagou.

*Pseudônimo

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