O novo coronavírus e Jair Bolsonaro, uma "novela" brasileira

Apesar do Brasil ter se tornado o novo hotspot da epidemia do novo coronavírus, pessoas continuam a manifestar apoio o governo do presidente Jair Bolsonaro como mostra a imagem, tirada em Brasília, em 19 de abril de 2020. Keystone / Joedson Alves

Capitão "Coronavírus" ou "Trump Tropical". Dois apelidos empregados para denominar o presidente do país, Jair Bolsonaro, e que poderiam ser o título de uma novela. Porém alguns imigrantes suíços que vivem no Brasil não sabem mais se devem rir ou chorar com a situação.

Este conteúdo foi publicado em 20. maio 2020 - 12:30

Não se pode dizer que, desde o início da crise do novo coronavírus, Jair Bolsonaro tenha sido um modelo a seguir. O presidente brasileiro foi muito cuidadoso no tratamento da pandemia, deixando para os governadores dos estados a responsabilidade de tomar medidas, que agora critica abertamente. Enquanto isso, demitiu dois ministros da Saúde. O da Justiça pôs o cargo à disposição.

Um cenário ao estilo americano

Como Donald Trump, nos Estados Unidos, de quem é um fervoroso admirador, o presidente brasileiro minimizou inicialmente a gravidade da crise que se abateu sobre o país. Chamando-a de "gripezinha" em várias ocasiões, em meados de março Bolsonaro ainda não havia ordenado nenhuma medida de longo alcance para conter a propagação do vírus.

Frente à falta de ação, os governadores dos diversos estados que compõem a estrutura administrativa do Brasil assumiram a liderança.

Marcio Folly, 62 anos, suíço-brasileiro nascido em Nova Friburgo, e professor de microbiologia veterinária na Universidade Estadual do Norte Fluminense, no Rio de Janeiro. Visita regularmente a Suíça, onde vivem os filhos. swissinfo.ch

No Rio de Janeiro "já podíamos ver os problemas chegando desde o início de março", declarou à swissinfo.ch Marcio Folly, um suíço-brasileiro que vive na região norte do estado. "O governo decidiu, portanto, fechar comércio, escolas, teatros e cinemas. E também tornou obrigatório o uso de máscaras". De acordo com suas informações, sete hospitais de campanha foram construídos, mas "faltam equipamentos (de segurança)". Como resultado, muitos profissionais da área de saúde adoeceram e morreram. É como a cobra que morde a própria cauda".

Ana e André são aposentados suíços que vivem em uma pequena cidade no estado de Minas Gerais. Também ali, o governador declarou rapidamente estado de emergência e impôs medidas semelhantes, assim como auto-confinamento e distanciamento. "Saio muito pouco", conta Ana. "Meu companheiro é que faz as compras para me proteger". André concorda. "Felizmente alguns governadores tomaram medidas sérias, mesmo tenham chegado um pouco tarde", diz, complementando. "A luta entre os governadores dos estados e o governo federal é a mesma que ocorre nos Estados Unidos".

Ana (82) e André (74) moram no sudeste de Minas Gerais desde 2012, após uma estadia de seis anos na Argentina. Antes de se aposentar, Ana era assistente social em um asilo de idosos em Chêne-Bougeries e André, engenheiro.

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Os fatos provam que os dois imigrantes têm razão. Assim como o presidente americano Donald Trump, Jair Bolsonaro desafia regularmente a política de autoconfinamento e se opõe ao congelamento das atividades econômicas não essenciais, impostas por vários governos estaduais. "Em maio decretou que cabeleireiros, salões de beleza e salas de musculações pudessem retornar às suas atividades", explica Marcio Folly. Todavia os governos estaduais responderam que não aplicariam a medida. Testemunhamos uma luta constante", declara o professor universitário.

Crise política e sanitária

A partir de 18 de maio, o Brasil registrou oficialmente 230 mil casos e superou a marca de 15 mil mortes da Itália e Espanha em casos de coronavírus. Porém o país não tem meios para testar toda a população. Apenas as pessoas hospitalizadas são testadas. Por isso, segundo um estudo publicado em 6 de maio por pesquisadores brasileiros, o número de casos de contaminação deve chegar a 1,6 milhões, ou seja, quinze vezes maior do que os números oficiais.

Diante da escala da crise, a política de Jair Bolsonaro causa mal-estar. Um clima nocivo reina no topo do governo. Depois de ter alienado a maioria dos governadores, toda a classe política critica as medidas e a atitude do presidente brasileiro, incluindo representantes da extrema direita.

Segundo André, "o governador e o prefeito do Rio também são de extrema-direita e, no início, eram a favor de Jair Bolsonaro", explica. "Hoje discordam dele completamente". Janaína Paschoal (PSL), uma deputada estadual em São Paulo que chegou a ser cotada como forte candidata ao cargo de vice-presidente do país, repudiou o presidente e, segundo o jornal francês Le Monde, teria declarado que "este senhor deve deixar a Presidência da República", denunciando um "crime contra a saúde pública".

Nesse contexto, a confiança da população desmorona. "Alguns de nossos amigos eram partidários do Jair Bolsonaro. Hoje, essas pessoas têm uma opinião mais reservada", contam Ana e André. De acordo com os dois imigrantes suíços, "apenas 35% dos brasileiros, de todas as classes, ainda apoiam o presidente".

Didier Mittaz (55 anos) e sua esposa abriram uma pousada, em 2013, em Porto de Pedras, em Alagoas. Antes o suíço trabalhava no setor de turismo na Suíça. No Brasil realizou o sonho de unir o útil ao agradável. Didier Mittaz

Didier, um suíço radicado em Alagoas, na região nordeste do país, não se simpatiza com a classe política do país: "Os políticos estão aqui para roubar do povo, não para governar. Após a derrota do Partido dos Trabalhadores (PT), que não fez absolutamente nada pelo país (o partido dos dois presidentes anteriores, Lula da Silva e Dilma Rousseff), a eleição de Jair Bolsonaro parecia dar um alento. Mas as pessoas percebem agora que não há diferença".

Economia sofre

O governo planejou injetar 147 bilhões de reais (pouco mais de 24 bilhões de francos suíços) para apoiar a economia, mas Didier "sabe que, como autônomo, não iremos receber nenhuma ajuda do governo". Em sua pousada emprega oito funcionários. "Eles recebem o auxílio emergencial de 600 reais por mês. Nó complementamos com mais 400".

"Temos sorte de viver com pouco. Não temos dívidas e podemos sobreviver de seis a oito meses sem termos hospedes". Mas aqui as pessoas não têm economias, pois vivem do dia-a-dia. Essa mentalidade causará em breve grandes problemas".

André diz estar "muito preocupado com a situação em São Paulo, onde muitas pessoas perderam seus empregos". O suíço é cético em relação à ajuda emergencial anunciada pelo governo.

Os trabalhadores domésticos, em particular, pagam o preço da dívida. Há mais de seis milhões deles no Brasil. Embora alguns tenham conseguido manter seus empregos, a maioria foi despedida da noite para o dia. Esses empregos precários são frequentemente ocupados por mães solteiras ou moradores de comunidades. Eles agora têm que lidar com a pobreza e o aumento do risco de contaminação. "Nas favelas, as pessoas vivem muito próximas umas das outras em uma grande pobreza. Além disso, o hábito de contato físico entre os brasileiros é muito arraigado, o que não ajuda", analisa Folly.

>> Veja a reportagem do canal suíço de televisão RTS sobre a situação nas comunidades no Brasil

Conteúdo externo

Sem descanso para a Floresta Amazônica

Esse professor universitário de microbiologia acrescenta: "Para a floresta tropical e os povos indígenas, a crise é uma tragédia". De acordo com o sistema de alerta por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), estima-se que o desmatamento tenha aumentado 30% em março de 2020 em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

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Desde o início da pandemia, as autoridades de proteção ambiental reduziram suas patrulhas a um mínimo. Oficialmente o governo alega que é uma forma de proteger os agentes. Já as ONGs consideram que se trata de uma manobra do governo brasileiro, cético em relação aos alertas do clima, e interessado em para facilitar a exploração da floresta tropical.

Em Manaus, capital do estado do Amazonas, o prefeito apelou em lágrimas à ativista ambiental sueca Greta Thunberg: "Precisamos de ajuda. Precisamos salvar a vida dos protetores da floresta, salvá-los do coronavírus. "Nessas áreas remotas, os serviços de saúde estão completamente sobrecarregados e a doença é uma enorme ameaça para os indígenas", explicou Marcio Folly.

>> Veja também o manifesto do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado sobre o coronavírus em indígenas.

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