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Sociedade Por que suíços preferem casar com brasileiras?

O que está por trás do interesse dos suíços em se casar com estrangeiras? As estatísticas mostram redução no número de casamentos entre suíços e aumento dos casais binacionais. Uma pesquisadora portuguesa casada com um suíço escolheu o tema como tese de doutorado.

Casal com duas filhas

Camila Brun, o marido suíço e as duas filhas:  a carioca considera, em geral, o homem brasileiro muito machista.

(cortesia)

Quando o serviço de estatísticas da Suíça publica, todos os anos, o número de casamentos entre suíços e estrangeiras, as brasileiras têm estado entre as favoritas, junto com as tailandesas, dominicanas, filipinas e outras seis nacionalidades. Isso quando não ocupam o segundo lugar na liderança na preferência, como em 2009. De acordo com estatísticas federais mais recentes datadas de 2018, 24% dos suíços são casados com estrangeiras, 21% das suíças com pessoas de outras nações e 61% dos homens de outras nacionalidades são casados com mulheres de fora.

Os números mostram que os locais em geral se casam cada vez menos. Entre 1987 e 2011, houve um decréscimo de aproximadamente 31% nas uniões. No entanto, entre os suíços do sexo masculino e estrangeiras houve um acréscimo de 137% no mesmo período. A pergunta que se faz então: por que a objeção pelas conterrâneas e a procura por esposas no exterior?

Curiosidade pelo fenômeno

Com essa pulga atrás da orelha, a portuguesa Maria Eduarda Noura Rittiner, que também é casada com um suíço e mora no Brasil com sua família, foi atrás da resposta: escreveu tese de mestrado e doutorado no assunto e focou na perspectiva do homem. Em quase 20 anos de pesquisa e mais de 50 entrevistas com casais mistos, a professora da Universidade Joaquim Nabuco (Uninabuco), em Pernambuco, resume a questão em alguns pontos principais. Segundo ela, entre os motivos figuram o fato de esses homens estarem cansados da "tentativa de igualdade ao extremo", explicada por eles como uma masculinização da mulher em todos os seus papéis, inclusive no relacionamento afetivo.

O fenômeno, segundo a pesquisadora, passa por questões mais profundas como a simples preferência física ou ideal exótico. Trata-se da redefinição de papéis de gênero na sociedade e do questionamento de relações dentro da família. De acordo com Rittiner, a mulher norte-europeia conseguiu uma taxa tão alta de emancipação que fez ruir alguns roteiros e o que sobrou foi uma lacuna a ser preenchida.

- Não é que eles sejam contra a emancipação feminina, eles cresceram no ambiente de maior liberdade. Inclusive o meu trabalho mostra que eles apoiam o crescimento profissional de suas parceiras, mas se queixam de que a competição da mulher para se igualar ao homem chegou ao ponto de fazê-las perderem a feminilidade e a doçura. Eles dizem que elas querem pagar a conta do jantar, precisam decidir tudo sozinhas, se vestem de forma mais masculina e que muitas não estão disponíveis para formar uma família. E quando, próximas aos 40 anos, decidem fazê-lo, esses pretendentes já formaram a sua com uma estrangeira, explica a doutora em Ciências Sociais.

Brasileiras menos individualistas

E nesse contexto entram as latinas e asiáticas, por trazerem exatamente a disponibilidade de ter filhos, além de características culturais que valorizam o afeto, a proximidade familiar e casamentos tradicionais. "Embora a maioria das brasileiras escolhidas para casar trabalhe e tenha formação superior, são vistas por seus parceiros como mulheres "mais famílias" do que as do mesmo continente", explica Rittiner.

Eles apreciam sobretudo as características culturais coletivistas, que prezam pelo grupo, ao contrário de países do Norte da Europa, que são mais individualistas. Deste modo, em uma sociedade como a Suíça, a satisfação dos desejos do eu reinam. Outro ponto é o fato de o Brasil pertencer ao grupo de alto contexto, outra forma de avaliar uma cultura. Nessas sociedades, existem extensas redes de comunicação e de informações entre os integrantes da família, amigos e colegas. Esse compartilhar de experiências permite maior grau de entendimento tácito.

Gráfico

Fonte: Departamento Federal de Estatísticas

(swissinfo.ch)

De acordo com a pesquisadora, as falas dos entrevistados refletem uma série de adjetivos ou qualidades em relação à família dos países em desenvolvimento e o que desejam e buscam como relacionamentos para si mesmos.

Espírito familiar é quesito para homens

Pierre, um dos entrevistados por Rittiner, externou que seus conterrâneos são, em geral, relativamente independentes e contou como ele e seus irmãos vivem suas próprias vidas, sem se ocupar das dos outros, sem entrarem na intimidade. "Ficam, inclusive, bem felizes quando percebem que cada um pode se virar sozinho, ser independente, embora mantenham contato de tempos em tempos".

Mike, que também participou da pesquisa, diz que tem noção de que o tipo de família que quer para si seria difícil com uma compatriota, já que elas tendem a priorizar o trabalho.

- Para mim, sempre foi interessante os motivos pelos quais homens oriundos de sociedades tão diferentes da brasileira se interessavam por essas mulheres. As entrevistas mostraram que o que há em comum na escolha desses europeus é o fato de os países de origem de suas esposas terem um formato de família mais unida, coesa, em que há primazia da mulher pelos filhos e marido, a despeito do trabalho", explica.

Outro ponto interessante que aparece na pesquisa de Rittiner é o fato de os europeus dizerem que gostam do jeito mais leve das latinas de ver o mundo, com seu "jeitinho" para resolver as questões e bom humor.

Se os suíços estão cansados das suas conterrâneas, as brasileiras que se casaram com os helvéticos se dizem exauridas do machismo latino e da pobreza. Elas estudam muito, dois terços das universitárias são mulheres.

- Elas querem melhorar de vida e se preparam intelectualmente para isso. Entretanto, o homem brasileiro em geral tem menos cultura que elas e muitas não querem se relacionar com alguém de nível educacional mais baixo. Em contrapartida, o casamento com um estrangeiro também representa subida na escala social", explica. "Isso sem falar no fascínio que um homem europeu causa nessas mulheres, seja pela educação ou pelo fato de serem diferentes", acrescenta.

A carioca Camila Brun confirma. Na sua opinião, o homem brasileiro é, em geral, muito machista. Já o europeu exerce melhor suas funções de marido e pai pelo fato de não ter essa mentalidade de macho latino.

Cada vez mais casamentos binacionais

Os casamentos interculturais não são mais exceção na Suíça. Segundo informações do Escritório Federal de Estatísticas, em um artigo publicado no jornal Blick de 2018Link externo, dois a cada cinco casamentos feitos pela Suíça são binacionais.

Maria Eduarda Noura Rittiner, professora da Universidade Joaquim Nabuco (Uninabuco), em Pernambuco.

(swissinfo.ch)

De acordo com o órgão, o fenômeno é resultado de mudanças políticas, econômicas e sociais, influenciadas por menores tempos de viagem, digitalização progressiva e comunicação simplificada. À medida que a globalização aumenta, o mesmo acontece com os números.

Desde o final dos anos 1980, a proporção de casamentos entre cidadãos suíços caiu de 70% para 48% em 2016. Nas grandes cidades, os casamentos binacionais são mais comuns do que nas áreas rurais, porque os estrangeiros tendem a se estabelecer em centros e aglomerações do que em uma aldeia agrícola.

Se a análise considerar os cantões, por exemplo, os números são bem significativos. Segundo estatísticas de 2016, somente 30,7% de todos os casamentos foram entre dois suíços na cidade de Basel. Em Genebra, a discrepância é ainda maior. Apenas um quarto dos casamentos é concluído entre dois locais.

Em um total de dez cantões, incluindo Zurique, Zug, Basileia e Argóvia, no ano passado, mais do que qualquer outro casamento foi binacional ou completamente estrangeiro. Em toda a Suíça, uma minoria de casamentos entre dois suíços foi concluída em 47,6%. Em quase todo quinto casamento, o homem era suíço e a mulher estrangeira, a cada seis casamentos aconteciam entre uma mulher suíça e um estrangeiro ou entre dois estrangeiros.

A suíça parece não gostar de ser mulher

"Meu caso de amor com o Brasil começou lá pelos anos 80, quando eu trabalhava como comissário de bordo pela Swissair, fazendo a linha Rio ou São Paulo-Zurique. Fui muitas vezes e sempre ficava hospedado em Copacabana, Rio de Janeiro. Trabalhei por 20 anos naquela empresa. Assim conheci minhas duas ex-mulheres, adotei meus dois filhos e tive mais um.

Entretanto, em 1995, tive câncer no intestino e decidi largar a aviação e dar um rumo diferente na minha vida. Resolvi viver no Brasil; arrendei uma pousada em Búzios e depois trabalhei com táxi no aeroporto Tom Jobim.

Acho que o último relacionamento amoroso que tive com uma conterrânea foi quando eu estava com 20 anos, hoje tenho 63. Parece que elas não gostam de ser mulher. Querem competir com os homens. Já a brasileira assume todos os papéis que as minhas conterrâneas, como profissional, mãe e dona de casa, mas não deixam a feminilidade de fora.

Elas gostam de se arrumar, de se sentir bonitas. A mulher suíça usa até sapato de homem. Aí perdem na hora de atrair o sexo oposto.

Eu não sou machista, acho que as mulheres têm um papel importante na sociedade, e devem se apropriar do direito de fazer o que querem, mas não precisa virar homem para isso.

Se a brasileira mostra emoção e fala mais alto? Tudo bem. Elas são diferentes mesmo e eu gosto disso. São diferenças culturais e eu aceito.

Como morei no Brasil e fui motorista de táxi, aprendi a me adaptar a essas maneiras de ser, que fazem parte da cultura. Conheço o Rio de Janeiro como a palma da minha mão, desfilei sete vezes na Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e até namorei uma rainha de bateria de outra escola de samba.

Para mim, o importante não é de onde a pessoa vem ou onde nasceu. O que importa é como ela trata os outros. Sou aberto a todas as nacionalidades, mas claro que pelo fato de eu falar muito bem o português acabo conhecendo brasileiras".

Urs* nasceu em Zurique e namora atualmente uma brasileira

* nome real conhecido pela redação, pois entrevistado solicitou anonimato

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