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Suíça pode apoiar candidatura não europeia ao FMI

Christine Lagarde, em 25 de maio passado, enquanto se prepara para anunciar sua candidatura à chefia do FMI.

(Keystone)

Especialistas suíços analisam herança deixada pelo ex-diretor do FMI e consideram escolha de Lagarde à direção do Fundo arriscada.

Brasil só apoiará a ministra francesa se assumir diretoria estratégica do FMI.

Segundo o ministro francês das Relações Exteriores, Alain Juppé, os líderes do G8 apoiarão unanimemente a candidatura de Christine Lagarde, na direção geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). A ministra francesa da economia começou na segunda-feira (30/5) pelo Brasil sua “romaria” em busca do apoio dos países emergentes.

Lagarde fez um discurso sob medida aos ouvidos dos Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), defendendo maior participação dessas economias no Fundo e afirmando que "o FMI não pertence a ninguém". Porém, o jornal brasileiro “O Globo” revelou que ela teria deixado o país, rumo à China, informada de que só contará com o apoio do governo brasileiro se o Brasil for contemplado com alguma diretoria estratégica do Fundo, tendo em vista que os principais cargos de direção estão hoje nas mãos de europeus e americanos.

Por seu lado, a Suíça tentou clarificar sua posição na semana passada, anunciando que não pretende apoiar automaticamente Christine Lagarde, a candidata declarada dos europeus.

O governo suíço disse que fará sua escolha após o prazo das candidaturas, em 10 de junho próximo. A escolha da Suíça deverá ser feita em função da competência do candidato, em vez de sua localização geográfica. O país poderia, assim, dar seu apoio a um país emergente, se as qualidades do candidato justificarem sua escolha.

Uma posição coerente

Professor de Economia do Institut de hautes études internationale et du développement (IHEID) de Genebra, Cedric Tille saúda este ponto de vista que tem sido debatido na Suíça: "A vantagem da Suíça é a sua honestidade. Apoiando incondicionalmente a Europa, Berna perderia uma parte de sua credibilidade. Essa posição pode reforçar sua influência com os países emergentes."

Em um comunicado, os diretores do FMI que representam os Brics pediram "um processo transparente, competitivo e baseado no mérito e não na nacionalidade”, o que "põe em causa a legitimidade do Fundo".

Poltrona ejetável

Considerando também que a opção tomada por Berna é perfeitamente justificada, Charles Wyplosz enfatiza o desconforto da posição suíça: "No FMI, a Suíça representa as repúblicas da Ásia Central, países também insatisfeitos com o protetorado europeu nas instituições de Bretton Woods".

O especialista em finanças do IHED explica ainda que "no FMI, a Suíça deve defender o grupo de países ("Helvéticão") que representa. Como concessão aos países emergentes, os europeus podem muito bem resolver atacar esse grupo liderado por um país europeu para reduzir seu peso no conselho de administração, onde são maioria, junto com os Estados Unidos. A Suíça está sentada em uma poltrona ejetável".

Para Charles Wyplosz, a pressão dos europeus em favor da ministra francesa da Economia se explica pelo papel principal desempenhado por eles nas negociações do FMI com os países europeus endividados, começando com a Grécia. Na direção de Dominique Strauss-Kahn, o FMI concordou que os europeus participassem formalmente nas negociações entre o FMI e os países europeus endividados para fixar o montante e as condições do empréstimo concedido. Isso nunca tinha sido feito antes.

"É a única crítica que tenho em relação ao ex-diretor do FMI, que aceitou os péssimos planos de resgate por motivos políticos (pressão dos europeus, ndr), em uma situação de conflito de interesses, já que ele era um provável candidato à presidência francesa", estima Charles Wiplosz.

Planos drásticos demais

“Minha opinião é que os planos de resgate da Grécia, da Irlanda e de Portugal não aplicam uma boa receita, como pode ser visto hoje na Grécia. Influenciadas pelos interesses eleitorais de Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, as condições do empréstimo são muito drásticas", diz Charles Wiplosz.

Uma visão compartilhada por Cédric Tille: "Teria sido mais rápido e mais barato se a Grécia tivesse tratado diretamente com o FMI".

Apesar dos 110 bilhões de euros alocados no ano passado pelo FMI e pela União Europeia, a Grécia ainda não atingiu seus objetivos de redução do déficit e o risco de calote de sua dívida aumentou consideravelmente. O ministro grego da Fazenda, George Papaconstantinou, expressou, no entanto, otimismo em relação ao resultado das negociações em curso entre o governo de Atenas e a "troika" formada pela UE, o FMI e o Banco Central Europeu sobre um novo plano de ajuda financeira.

Mudanças sustentáveis

O futuro dirá se as negociações ampliadas introduzidas pelo ex-diretor do FMI vão se espalhar por outras partes do mundo. Quanto às outras mudanças realizadas pelo francês no FMI, elas têm a vantagem de estarem inscritas em um movimento profundo.

Dominique Strauss-Kahn conseguiu realmente aproveitar a conjuntura do momento para reformar o FMI. Uma instituição até então vista como obsoleta por alguns países em desenvolvimento, principalmente na América Latina.

"Strauss-Kahn tomou a liderança de um Fundo Monetário parado, que parecia decadente. Mas essa marginalização se explica pela ausência de grandes crises financeiras desde a da Argentina (1998-2002). O FMI estava um pouco sem rumo e numa situação financeira difícil, já que seus recursos são provenientes em grande parte dos empréstimos aos países endividados", lembra Charles Wiplosz.

Desde a sua chegada em 2008 que Dominique Strauss-Kahn vinha implementando um plano de economia de despesas, incentivando as demissões voluntárias. O economista de Genebra ressalta principalmente as mudanças realizadas no topo da hierarquia do FMI, com a nomeação de vários diretores gerais, de alta qualidade, e menos dogmáticos em matéria de reestruturação do que no passado.

Ideologia passada

"Em nome do Consenso de Washington (uma abordagem ultraliberal adotada pelo FMI desde 1990, ndr) os países tinham que se abrir aos movimentos de capitais o mais rapidamente possível e adotar taxas de câmbio flexíveis sem demora. Hoje, os controles de capital tornaram-se novamente respeitáveis e as taxas de câmbio flexíveis não são mais uma panaceia", explica Charles Wiplosz, que felicita uma maior sensibilidade do FMI em relação aos países em desenvolvimento, sob a direção de Strauss-Kahn.

De acordo com nossos dois especialistas, o Fundo soube aproveitar as circunstâncias impostas pela crise financeira de 2008-2009 e a subsequente abertura aos países emergentes, evidenciada pela passagem do G8 para o G20.

"Dominique Strauss-Kahn foi capaz de dar visibilidade à instituição no G20, encontrando o papel que a instituição estava procurando", diz Cedric Tille.

"Determinado antes de sua chegada, ele conseguiu traduzir em ação uma redistribuição menor de votos no Conselho do FMI em favor dos países em desenvolvimento. Ele mostrou um verdadeiro talento político alcançando essa redistribuição que sempre foi uma pedra no sapato do FMI", acrescentou Charles Wiplosz.

Com a candidatura de Christine Lagarde, os europeus dão uma freada na mudança de direção em favor dos países em desenvolvimento iniciada por Dominique Staruss-Kahn. "Se a francesa for escolhida, os riscos de bloqueios dos países emergentes serão altos", avalia Cedric Tille.

A sucessão no FMI

A candidatura para o cargo de Director-Geral pode ser apresentada durante um período de postulação que termina em 10 junho de 2011.

O secretário do FMI vai manter os nomes dos candidatos em sigilo até o fim do período de candidatura.

Se os candidatos forem mais de três, o Conselho irá manter seus nomes em sigilo até que tenha estabelecido uma lista de três candidatos, sem preferência geográfica.

Embora o Conselho de Administração possa aprovar uma lista com a maioria dos votos, ele tem como meta a adoção de uma lista de consenso. Esta lista será publicada pelo FMI.

O Conselho fixou o objetivo de selecionar o Diretor-Geral por consenso, terminando o processo selectivo em 30 de junho de 2011.

Fonte: FMI

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O "Helvéticão"

A Suíça (Confederação Helvética) aderiu ao FMI em 29 maio de 1992. Na ocasião, ela tomou a direção de um novo grupo de voto, que então contava com seis outros países.

Com isso, o país recebeu um dos 24 assentos do Conselho de Administração, o órgão dirigente do FMI, obtendo assim a oportunidade de colaborar ativamente no desenvolvimento da política do FMI.

O grupo de voto liderado pela Suíça é formado pelo Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Polônia, Sérvia, Tajiquistão e Turquemenistão. Este grupo representa um peso eleitoral de 2,82% no Conselho de Administração do FMI (incluindo 1,57% para a Suíça).

Fonte: Ministério da Fazenda da Suíça

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Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch


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