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O teleférico de uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, foi projetado como um símbolo de esperança, que, agora, parece mais distante do que nunca

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O teleférico de uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, foi projetado como um símbolo de esperança, que, agora, parece mais distante do que nunca.

A forma das suas gôndolas foi elogiada no mundo todo quando eles começaram a navegar, em 2011, o céu do Complexo do Alemão, infestado pela presença de quadrilhas de traficantes.

Enquanto o Brasil se preparava para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, a rede de cabos e seis terminais do teleférico pretendia mostrar que o Alemão era mais que apenas um palco de lutas entre narcotraficantes e policiais.

Mas hoje, as instalações estão fechadas e se ouvem cada vez mais os disparos de armas de fogo.

Um vira-lata vaga em volta de um dos terminais abandonados, situado ao lado de uma delegacia de polícia cujos muros revelam uma série de impactos de bala. Uma cena comum em toda a rede desde seu fechamento, em setembro passado, semanas após o fim da Olimpíada.

O fechamento do teleférico foi atribuído a danos inesperados que requeriam grandes trabalhos de manutenção.

Mas as autoridades ainda não especificaram quando esses reparos serão realizados, informando apenas que seria "na segunda metade" do ano.

Os morados mostram ceticismo, em um momento em que o estado do Rio está próximo da falência, o crime aumenta e os salários de funcionários públicos são pagos com atraso.

"Não acredito [que será reativado], não com a crise", diz Sônia Paulo, empregada doméstica de 34 anos.

O único atrativo que resta do teleférico é a vista extraordinária que pode ser apreciada a partir dos seus seis terminais, que conectam o topo de uma montanha com a seguinte, ao longo desta comunidade.

Mas subir nos terminais para contemplar estas vistas pode ser uma má ideia, alerta o tenente Leonardo Violante, que administra o posto policial. "Os bandidos vão te ver e atirar em você", advertiu.

- Mudanças para os moradores -

Quando o teleférico foi inaugurado, houve críticas ao seu custo - 210 milhões de reais -, e muitas pessoas consideravam que era melhor destinar esse dinheiro ao sistema de esgoto, às escolas e a outros serviços básicos para a região.

Mas a rede, de 3,5 km, se tornou uma das grandes atrações turísticas do Rio.

Também foi muito usada pelos moradores da comunidade, que evitavam assim as ruas tortuosas e íngremes do Alemão. Cerca de 9.000 pessoas utilizavam o teleférico diariamente.

"Mudou muita coisa para nós", diz Bruna Teodoro, de 26 anos, que trabalhava em um mercado mas agora está desempregada, assim como 13% da população ativa do Brasil.

Seus trajetos diários para voltar para casa, que duravam cerca de meia hora, passaram a levar cinco minutos. "Sentimos muita falta", disse.

O teleférico não era apenas um transporte. Cada terminal se transformou em um ponto movimentado que concentrava serviços médicos, sociais, correios e bibliotecas.

- Balas perdidas -

O teleférico também estava bem integrado com o sistema local de polícia, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

Em vez de combater os grupos de narcotraficantes com operações esporádicas e de grande envergadura, os agentes patrulhavam a comunidade de dentro, ganhando a confiança dos moradores e deslocando os traficantes.

Juntando isso à rede de teleféricos, a favela mudaria para sempre. Ou pelo menos esse era o plano.

"O objetivo do projeto era ocupar o espaço dos traficantes", diz Violante, de 28 anos, na porta da sua UPP. "Era bem aqui em cima que os traficantes costumavam executar as pessoas", apontou.

Mas agora são os agentes das UPPs, fortemente armados, e não os bandidos, que ficaram marginalizados.

Os policiais não saem sem suas armas e não se atrevem nem a dar alguns passos sozinhos.

Mesmo assim, é muito provável que se encontrem no meio de um tiroteio. E salpicar o movimentado bairro de balas dificilmente os ajuda a fazer amigos.

"Tivemos que reduzir muito as patrulhas pelo problema das balas perdidas", diz o tenente.

"A ideia era trabalhar com a comunidade, mas para poder falar com os moradores a gente tem que se meter em tiroteios. É um pouco mais difícil do que pensávamos", reflete.

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