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Time que ganha não muda

Chocolate suizo con 100% de cacao.

A partir de agosto, novos regulamentos europeus vão autorizar a utilização de até 5% de gorduras substitutas na produção do chocolate.

Os países do Terceiro Mundo é que vão pagar a conta: o preço do cacau no mercado internacional cairá ainda mais.

A fabricação de um bom chocolate não exige muitos ingredientes: os puristas recomendam apenas cacau, manteiga de cacau, açúcar e leite, no caso chocolate ao leite. Essa é a receita básica dos chocolates suíços, famosos pela sua qualidade e sabor.

Porém, a partir de três de agosto, essa combinação quase perfeita sofrerá mudanças. A entrada em vigor do regulamento 2000/36/EG da União Européia irá autorizar a utilização de até 5% de gorduras vegetais alternativas na produção do chocolate.

Na Suíça, as leis de produtos alimentícios permitem desde 1995 a utilização de até 5% de gordura vegetal no chocolate. Porém os produtores suíços preferem os ingredientes tradicionais. “Nossos produtos contém apenas manteiga de cacau e não pretendemos mudar a nossa fórmula”, afirma Ulrich Schoch, funcionário do setor de desenvolvimento na Lindt & Sprüngli, um dos mais tradicionais fabricantes de chocolate do país.

“Na empresa, a utilização de gorduras vegetais alternativas não está nem na nossa pauta de discussão”, confirma Harry Rentsch, porta-voz do fabricante Chocolatfrey. Como empresa do grupo de supermercados Migros, a Chocolatfrey domina 37% das vendas de chocolate em barra na Suíça.

A tradição é mais forte

“Nenhum fabricante suíço de chocolates quer mudar radicalmente suas receitas”, conclui Franz Schmid, diretor da Chocosuisse, a Associação Suíça de Produtores de Chocolate. “Nosso país só introduziu essa norma dos 5% para se adaptar a regulamentação européia”.

O governo suíço se mostra pragmático ao explicar a adoção das novas regras. “Nós apenas queremos eliminar da lei qualquer forma de protecionismo”, explica Urs Klemm, vice-diretor do Departamento Federal da Saúde.

Para a empresa Barry Callebaut, um dos principais produtores mundiais da delícia negra, a barra de chocolate continuará sendo fiel a fórmula “100% manteiga de cacau”. “As gorduras substitutas são utilizadas na nossa empresa apenas em alguns produtos industriais ou à pedido dos nossos clientes”, explica Gaby Tschofen, assessora de imprensa.

A multinacional Nestlé apóia o regulamento europeu dos 5% de utilização de gordura vegetal. Porém os diretores, na sede da empresa em Vevey, Suíça, não vêem nenhuma necessidade em modificar as receitas de fabricação do chocolate Nestlé.

A opinião muda completamente nos países onde o consumidor já está habituado a consumir chocolate feito com gorduras vegetais como a Grã-Bretanha, Irlanda e a Dinamarca.

Na Grã-Bretanha, por exemplo, uma barra de chocolate Nestlé pode conter esse tipo de gordura, como confirma Marcel Rubin, porta-voz da companhia. Na Alemanha, a mesma barra utiliza, porém, 100% manteiga de cacau.

Alternativas mais baratas

As negociações para determinar um regulamento comum sobre o chocolate, para todos os países da União Européia, começaram em 1996. Logo depois, como constatou na época jornais franceses e belgas, iniciou-se uma verdadeira “guerra do chocolate”.

Para alguns países, onde o chocolate é produzido de forma tradicional à 100% manteiga de cacau, a briga é provocada sobretudo por grandes interesses econômicos.

Ingredientes alternativos como a gordura de coco ou de palmeira, propostas pela burocracia européia, custam um décimo do preço cobrado pela manteiga de cacau. Esse é uma economia que pode ser muito interessante para os fabricantes.

Porém alguns fabricantes relativizam essa vantagem. “O cacau não representa mais do que 15% dos custos totais de produção”, revela Gaby Tschofen, do produtor Barry Callebaut. “Não é possível exagerar a economia que pode ser feita”.

“O argumento dos custos não é suficiente para explicar uma modificação nas receitas do produto”, completa Marcel Rubin, o porta-voz da Nestlé.

“O preço das gorduras alternativas sofre constantemente grandes flutuações no mercado”, lembra Ulrich Schoch, da Lindt & Sprüngli. “Os preços são mais voláteis do que o da manteiga de cacau”.

O preço do cacau é determinado e fixado nas principais bolsas internacionais de commodities agrícolas como a de Nova Iorque e Londres. Atualmente, o preço da tonelada de cacau está em US$ 1.500. Se a produção de cacau é ruim, o preço se eleva.

Países exportadores pagam a conta

O país africano Costa do Marfim é o maior produtor de cacau do mundo, com mais de 44% da colheita mundial. Segundo a Organização Internacional do Cacau, Gana, Nigéria e o Camarões são também importantes exportadores.

A mesma organização estima que as gorduras de substituição poderão diminuir um quinto das exportações de cacau dos países exportadores.

“As rendas de milhões de pequenos agricultores na África dependem da produção do cacau”, afirma a organização não-governamental alemã “BUKO Agrar Koordination”, que protesta desde 1998 contra a regra de utilização dos 5% de gordura vegetal no chocolate.

“Uma diminuição mínima nas vendas do cacau significará para essas famílias uma degradação dramática das suas condições de vida, já miseráveis”.

Por enquanto, o tradicional chocolate suíço continuará sendo fabricado apenas com manteiga de cacau, para a alegria dos consumidores no mundo inteiro.

swissinfo, Philippe Kropf
tradução e adaptação de Alexander Thoele


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