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Tradições Vida rústica em um chalé suíço

Nenhuma loja. Nenhuma agência de correio. Nenhum restaurante. Nenhum ponto de ônibus. É possível até que não se veja uma criatura viva exceto pelas vacas e ovelhas nas montanhas em um raio de muitos quilômetros. Mas a vista pitoresca aqui é o que você pode ver nas brochuras do Turismo Suíço ou nos vídeos promocionais – vastas pastagens pontilhadas com chalés.



Trabalho duro no campo: Robert Müller com um cabo de aço para rebocar objetos pesados.

Trabalho duro no campo: Robert Müller com um cabo de aço para rebocar objetos pesados.

(swissinfo.ch)

Quem vive nesses chalés que embelezam a paisagem? Como é a sua vida? Com a mesma curiosidade que você tem, swissionf.ch entrevistou o fazendeiro Robert Müller, que vive nas remotas montanhas dos Alpes de Emmental.

O último quilômetro

Robert vive em Lauperwill, um lugar cercado por Berna, Lucerna e Friburgo. No caminho para sua casa, eu fiquei maravilhada com os cenários absolutamente deslumbrantes. Na estrada de montanha os sentimentos são tomados pela vista. Eu tirei algumas fotografias ao longo da viagem.

Eu vi o chalé de Robert, como ele havia descrito ao telefone, ao observar e usar a navegação do Google Maps. Quando apareceu que, após virar à esquerda, a destinação estaria a um quilômetro de distância, eu estava totalmente estupefata. Com mais de 20 anos de experiência, o motorista seguia compenetrado pela estrada estreita e íngreme.

Robert me cumprimentou na porta usando um par de sandálias. Eu não pude acreditar que ele já tinha 67 anos. O interior do chalé não é nada parecido com uma casa de fazenda, com uma renovação moderna e uma cozinha bem equipada.

Ainda um tanto assustada com o trajeto, eu perguntei sobre a condição da estrada. Robert me respondeu que se tratava de um lugar remoto, mas, se neva, os carros limpa- neve das cidades e villages cuidam das autoestradas e espalham sal para evitar as derrapagens. Mas ele mesmo tem que cuidar do caminho que leva a sua própria casa.

Cortando árvores nas montanhas

Robert e eu esperamos para cortar árvores nas montanhas hoje, então eu previamente fiz algumas pesquisas sobre a exploração madeireira. Mas, quando Robert me mostrou as duas árvores que ele havia cortado hoje, meu preconceito com a atividade madeireira começou a ser derrubado. Cortar árvores nas montanhas e dirigir um trator não são coisas relevantes na minha mente.

O modo de Robert dirigir o trator me lembrou os pilotos de corrida da Ferrari. Ele parece um piloto profissional quando dirige a enorme máquina nos estreitos caminhos à frente da garagem.

Eu estava bastante impactada quando nós chegamos ao local. As duas árvores crescem em um barranco a meio caminho da montanha. Eu mal podia imaginar como nós poderíamos chegar a essas árvores, para não dizer como cortá-las. Mas ele terminou o trabalho em duas horas apenas com suas mãos. (Veja a galeria: cortando árvores nas montanhas suíças, e você saberá como uma pessoa pode gerenciar o trabalho de uma equipe usando um trator e aproveitando o poder da natureza).

Logo era hora do almoço. Robert cozinhou massa para mim. Verdade seja dita, foi a melhor que eu comi na Suíça.

Nós fizemos uma breve entrevista durante a pausa do almoço.

swissinfo.ch: Por que você vive aqui? De que você vive? O que as pessoas na montanha fazem para se sustentar?

Robert Müller: Eu nasci aqui e mais tarde trabalhei como carpinteiro. Eu herdei do meu pai a casa, a pastagem e a floresta em 2004. Em 1969, eu me casei, me mudei para Berna e vivi lá até 1971. Meus dois filhos trabalham e moram em outras cidades. Já faz vinte anos que eu me divorciei.

Eu consigo viver das minhas pensões. Quando eu era jovem, o segundo pilar não havia sido introduzido no sistema de pensão da Suíça, então eu tenho somente as contribuições AHV. O montante de dinheiro que recebo não pode suportar uma vida urbana. Apesar de eu ter me aposentado, minha condição de saúde é muito boa. Eu pego alguns trabalhos em meio expediente e vendo madeira. O ganho extra assegura que eu possa desfrutar de uma maior liberdade financeira e levar uma vida mais confortável.

As pessoas que vivem nas montanhas costumavam trabalhar na agricultura e na criação (gado, ovelhas e até cervos). As gerações mais jovens não querem seguir a carreira de seus familiares e trabalham nas cidades próximas.

swissinfo.ch: Você se sente solitário, vivendo neste lugar inabitado?

Robert: Não. Ocasionalmente eu tenho uns sentimentos inexplicáveis, mas não se trata de solidão. São apenas sentimentos estranhos, durante os dias de chuva, por exemplo.

swissinfo.ch: Como você consegue isso?

Robert: Estando contente e vivendo plenamente a vida. Tendo uma atitude positiva e otimista em relação à vida. Essa é uma questão de paz interior. Muitas pessoas conseguem viver nas montanhas por gerações. Elas não deixam a montanha porque estão contentes e otimistas frente à vida.

swissinfo.ch: Você não se preocupa se precisar de uma emergência?

Robert: De vez em quando. Sim. Dê uma olhada, esta cicatriz na minha cabeça foi feita quando eu estava cortando madeira e fui atingido por um galho. Aquilo me deixou em estado de choque por alguns minutos, ou dezenas de minutos. Eu corri direto para o banheiro depois que acordei. Eu dirigi para o hospital próximo após tratar brevemente meu ferimento.

Mas, não é tão ruim. Você viu o chalé do outro lado da colina? Uma policial vive lá. Ela trabalha no departamento de polícia de Berna. Cerca de vinte ovelhas na montanha são criadas por ela. Se não há luz na minha casa por dois dias, ela me telefona e pergunta o que está acontecendo.

swissinfo.ch: Você tem pensado em encontrar uma esposa?

Robert: É claro que eu tenho, mas o acaso faz a sua parte (ele gargalha). Eu venho pensando sobre isso há mais de 20 anos, desde o divórcio. Mas, por enquanto eu não encontrei a pessoa adequada e tenho vivido sozinho desde então. Eu estou bem assim.

O reino de Robert

Robert arrastou as árvores cortadas para um local onde poderia limpá-las no dia seguinte, e me mostrou seu “território” no entorno – uma área de campo e floresta que ocupa cerca de 30 mil metros quadrados. Ele me conta histórias sobre os diferentes tipos de árvore, o solo e as nascentes. Um fazendeiro comum como ele adquiriu modos de sobrevivência que vão além da minha imaginação.

De repente me ocorreu: como ele tem acesso à água e à eletricidade? Eu não vi nenhum poste ou linha de transmissão durante meu trajeto. Também não havia rede de esgoto. Como vêm a água da torneira e a eletricidade? Como o esgoto é coletado?

Robert apontou um pedaço de grama extraordinariamente verde em uma encosta distante. Aquela era sua fonte de água. Sob a grama há um poço cavado por seus ancestrais. Ele diz que a água do poço flui dentro de canos para um reservatório no porão. Ela é levada à cozinha e ao banheiro de Robert por uma bomba hidráulica de alta pressão. O esgoto é coletado por uma rede subterrânea que se estende por vários quilômetros. A eletricidade também chega na casa de Robert por um sistema de cabos subterrâneos.

É por isso que podemos desfrutar de tantas paisagens bonitas na Suíça. As linhas de alta voltagem são mantidas fora destas áreas de preservação do meio ambiente.

Eu não pude deixar de imaginar que para viver bem aqui é preciso conhecer astronomia, geografia, água e eletricidade, mecânica, física, química, manutenção de estradas, manejo florestal e muitas outras áreas.

Planos para o futuro

Robert tem alguns planos para seu futuro. Alguns deles já foram realizados.

Ele planeja renovar o caminho que liga sua casa à garagem do trator. A estrada de terra fica enlameada e insegura quando chove ou neva. Ele pretende pavimentar a estrada suja com tijolos e cimento. O galpão também precisa de porta e janela. A estrada que liga sua casa à autoestrada precisa de renovação. Ele também planeja o layout do acesso sem barreira ao chalé, para o caso de poder continuar a se mover livremente em uma cadeira de rodas quando envelhecer.

Robert tem outro plano ambicioso - comprar os bosques localizados perto de sua floresta. Eles ocupam mais de sete mil metros quadrados. Seria mais conveniente para fazer uma trilha para o trator ir para as florestas daquele lado. Se o negócio for fechado este ano, as seis árvores que ele vai cortar em um futuro próximo podem ser transportadas para o vale por um teleférico.

Por que um homem aposentado continua tão ambicioso? E ele está perfeitamente ciente de que nenhum de se seus filhos seguirão seus passos. Robert respondeu calmamente, “caso eu viva por um dia, estarei um passo mais perto do meu objetivo”.

No fim do dia, Robert sorriu como uma criança inocente e disse “eu sou um amante da natureza. Às vezes, eu me ocuparia do meu próprio negócio em meu próprio reino, não tendo nada, sentindo como se eu fosse parte da natureza. Raramente as pessoas vêm aqui, então não seria um problema para ninguém”.

Segredo da vida

“Estar contente e viver a vida ao máximo. Ter uma atitude positiva e otimista frente à vida. Esta é uma questão de paz interior”. Como um homem de 67 anos, sua saúde deve-se ao seu estado mental e ambiente de vida. O povo chinês sempre aspirou a longevidade. A vida de Robert não é uma receita perfeita para a longevidade?

Você inveja Robert? Você está interessado em passar férias no seu chalé? Por favor, faça seu comentário abaixo e compartilhe suas impressões conosco.

swissinfo.ch

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Adaptação: Maurício Thuswohl

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