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Tristeza e cólera de dois libaneses na Suíça

Os estrangeiros foram os primeiros a serem evacuados do Líbano. Keystone

Face às bombas israelenses que chovem atualmente sobre o seu país, dois libaneses da Suíça exprimem seu sentimento de injustiça.

Este conteúdo foi publicado em 28. julho 2006 - 11:28

Bilal El-Kassab canaliza sua cólera recolhendo dinheiro para ajudar seus compatriotas. Quanto a Abdallah El-Chami, repatriado com seus dois filhos, ele pensa sem parar em todas as pessoas que continuam a viver no Líbano.

Milhares de estrangeiros já foram evacuados do Líbano desde o início da ofensiva israelense em 12 de julho. Dentre os 850 suíços repatriados: Abdallah El-Chami e seus dois filhos, Marwan e Samir, oito anos, domiciliados em Marin, no cantão de Neuchâtel.

Como a cada ano, eles partiram para passar suas férias de verão com a família que vive num povoado distante uma dezena de quilômetros de Nabatiyeh, no sul do Líbano.

"Nós chegamos em nove de julho, acredito eu. Era o dia da final na Copa do Mundo. Três dias depois, a guerra começou", conta Abdallah El-Chami.

No início da ofensiva, esse pai de família acreditava que os ataques não passariam de uma resposta ao seqüestro de dois soldados israelenses cometido pelas milícias do Hezbollah. "Eu disse aos meus filhos que eram petardos!". Depois os aviões começaram a bombardear as estradas e, logo depois, os prédios. No povoado da família de El-Chami, quatro casas foram destruídas.

Abdallah El-Chami compreendeu então que a ofensiva era mais importante do que ele imaginava. Seus filhos não conseguiam entender o que estava acontecendo. "Eles começaram a ter medo no momento em que viram mulheres e outras crianças chorando. Com eles compreenderam a situação. Eu disse então para eles: é a guerra. O coração do Samir batia forte como nunca".

Imagens insuportáveis

Ao mesmo tempo, na Suíça, Bilal El-Kassab descobre as primeiras imagens dos ataques israelenses na sua televisão. "No início, eu acreditava que era um pesadelo e que depois eu iria acordar", lembra-se esse libanês de Berna.

"É incrível. Alguns dias antes eu havia tentado comprar uma passagem aérea para ir ao Líbano. Todos os meus amigos me diziam: 'vem, abriram uma nova discoteca e parece que ela é muito boa'. E depois, de uma só vez, o aeroporto foi fechado, pois a pista de aterrissagem estava cheia de crateras..."

Bilal El-Kassab foi invadido pela cólera e um sentimento de injustiça. "Nós acabamos de reconstruir o país, de dar um pouco de normalidade à vida, pensar que o terror havia acabado, que a guerra havia se tornado uma coisa do passado, que nós iríamos receber muitos turistas e a economia iria se recuperar...E então, com apenas dois movimentos, retornarmos aos piores momentos da guerra".

Pegar a estrada e partir

No sul do Líbano, Abdallah El-Chami não pensava em outra coisa: partir, levar seus filhos para a Suíça. Ele tentou abandonar o povoado, mas as estradas estavam todas bloqueadas, as pontes destruídas e as bombas continuavam a cair. Por isso ele foi obrigado a renunciar, pelo menos temporariamente.

No dia seguinte os ataques foram intensificados. O pai de família tomou então a decisão de chamar a embaixada suíça em Beirute. "Eles foram muito gentis, mas nos explicaram que estávamos muito isolados e que eles não poderiam vir nos buscar".

Os funcionários da embaixada lhes aconselharam a ir para Nabatiyeh. A família caiu então na estrada graças à ajuda de um habitante do povoado que tinha um táxi. "Porém as bombas continuaram caindo na nossa frente. Nós encontramos alguns caminhos estreitos nas montanhas". Três dias depois, Abdallah, Samir e Marwan conseguiram finalmente chegar a Beirute.

Retorno à Suíça

Na capital libanesa, a embaixada suíça se ocupou do repatriamento da família em carro a partir de Damas, na Síria, onde um vôo os levaria de volta à Suíça. No dia seguinte, eles foram recebidos pela família na estação de trens de Neuchâtel.

"Aqui nós podemos nos sentir seguros. O primeiro dia foi um pouco difícil para Samir e Marwan. Porém agora a situação já está normalizada. Eles nadam no lago e brincam com os amigos. O pesadelo terminou para eles. A vida voltou a sua normalidade".

Quanto a ele, mesmo com o alívio de ver as crianças em segurança, não é mais possível desgrudar o rosto da televisão e pensar constantemente nas pessoas que permaneceram no Líbano, "a todos eles que estão sob bombardeiro, às crianças que não têm culpa nesse conflito".

Guerra rápida e intensa

"A guerra, nós já vivemos uma, mas não era a mesma coisa", constata Abdallah El-Chami. Dessa vez, em quatro ou cinco dias, os israelenses lançaram mais bombas do que os americanos no Iraque. Ela é muito mais agressiva.

A instantaneidade e a intensidade da ofensiva israelense também atingiram Bilal El-Kassab: "Os estragos causados ocorreram num espaço mínimo de tempo", observa ele. Para canalizar sua cólera e frustração, o libanês tenta se fazer útil.

"No meu trabalho, eu organizei uma coleta de fundas para enviar à ONG Médicos Sem Fronteiras no Líbano. Também estamos procurando medicamentos. Porém, enquanto o país continuar sob embargo marítimo e aéreo, não é possível alcançar os necessitados".

swissinfo, Alexandra Richard

Breves

Israel lançou sua ofensiva contra o Líbano em 12 de julho, após o seqüestro de dois soldados pelo movimento islamita Hezbollah.

No total, 423 pessoas, dentre elas 352 civis e 29 militares e policiais libaneses, foram mortos desde o início dos combates. Segundo um cálculo feito pela agência de notícias francesa AFP, pelo menos, 823 civis e 81 soldados e policiais foram feridos. Cerca de 800 mil libaneses tiveram de abandonar suas casas.

Na Suíça, a ministra das Relações Exteriores Micheline Calmy-Rey condenou publicamente a reação israelense como "desproporcional", julgando ao mesmo tempo as agressões das milícias do Hezbollah como "condenáveis".

A Suíça também pediu as duas partes envolvidas no conflito a respeitar as disposições do direito internacional humanitário.

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Fatos

Os cidadãos suíços no Líbano que desejam abandonar o país podem contatar a Embaixada da Suíça em Beirute: 01 324 129
As pessoas que têm parentes ou amigos vivendo na região podem também contatar o Ministério das Relações Exteriores em Berna, que disponibilizou 24 horas um serviço telefônico de urgência: ++41 31 323 30 99
As autoridades helvéticas solicitam a todos os interessados de não ligar diretamente para a embaixada em Beirute a partir da Suíça: as linhas são reservadas para as pessoas que estão no Líbano e necessitam de ajuda.

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