Um olhar fotográfico sobre o Cervino

Uma das imagens da montanha que simboliza o país. Beat H. Perren

Um casal publica um livro fotográfico sobre o Cervino, a montanha ao sul do país no cantão do Valais que simboliza a Suíça.

Este conteúdo foi publicado em 25. dezembro 2010 - 11:26
Guilherme Aquino, Milão, swissinfo.ch

Em entrevista à swissinfo, Beat Perren lembra sua beleza, mas também o seu lado mortífero, sobretudo para muitos alpinistas.





















Ela está lá, quase inerte. Move-se apenas durante alguns desmoronamentos que modificam detalhes, mas não comprometem o imponente perfil. A montanha do mundo, como o Cervino (Matterhorn, em alemão) é conhecido, suíça pela geografia e de origem africana pela geologia, ganha um livro fotográfico à altura dos seus 4.478 metros e que desvenda as quatro vias de acesso ao topo.

Elas formam o fio condutor desta publicação realizada com uma visão muito acurada e pura deste símbolo do alpinismo. Os autores são o casal Luisa e Beat H. Perren, amantes do Cervino em todo o seu esplendor. Eles conseguiram capturar o Cervino e deixá-lo livre para a imaginação do leitor que não sofre de vertigem, pois as imagens reproduzem fielmente os abismos, os penhascos debruçados sobre o vazio. “Eu conheço a montanha um pouco como a minha casa”, diz Perren à swissinfo.

Os dois editores retratam a montanha de dentro para fora e vice-versa. Centenas de metros de negativos deram como resultado imagens únicas capazes de revelar o Cervino como uma radiografia completa da sua imponência. Elas servem para documentar, passo a passo, as trilhas, as escaladas, as passagens mais fáceis, os saltos mais difíceis e, principalmente, a magia das paisagens efêmeras e permanentes, ao mesmo tempo.

Tempestades escuras, mantos de neve, nuvens aprisionadas entre um cume e outro, geleiras sinuosas, e diferentes extratos de rochas servem de moldura para um Cervino visto, principalmente, a partir de uma prospectiva aérea. “Ao longo de 25 anos estive na unidade de socorro aéreo de Zermatt que revolucionou o socorro aos escaladores e esquiadores acidentados. Lembro-me ainda do tempo em que os guias alpinos usavam mulas e levavam um ou dois dias para chegar às vítimas”, conta Beat Perren, fundador da Air Zermatt à swissinfo.

Nas fotografias estão ainda imagens do crepúsculo e do alvorecer no topo da montanha realizadas por quem passou a noite no platô pequeno, no topo do Cervino. A montanha chega aos leitores inteira em algumas fotos de incrível beleza e, em outras, esfacelada como se tivesse sido submetida a uma autópsia, tal é a quantidade de imagens que revelam as passagens e os acessos mimetizados nas paredes quase sempre fotografadas em diferentes momentos de um mesmo dia.

O livro é uma espécie de apresentação fotográfica do Cervino e da interação do homem com a montanha. E mais do que isto, ele é um guia que ajuda ao alpinista a escolher o melhor caminho ou aquele mais adaptado às suas condições e exigências técnicas, físicas e psicológicas. As vias são desenhadas em linhas amarelas ao longo das arestas mais salientes da montanha e mostram o traçado elegante, audaz e arriscado percorrido pelos alpinistas. Nas páginas seguintes, o leitor pode examinar cada fase da escalada e de diferentes pontos de vista. “Este é um trabalho de longuíssima data, o conceito é do meu marido. Ele as separou ao longo do tempo. Eu sou uma apaixonada de montanha e o ajudei neste trabalho com muito prazer. É necessário amar muito a montanha antes de fotografa-la”, conta Luisa Perren, à swissinfo.

Passado e presente

Do conforto de um hotel na cidade mais próxima do Cervino é possível planejar a escalada da melhor maneira possível, folheando o livro e descobrindo, por exemplo, as consequências do desmoronamento de 2003, na via italiana da crista do Leão. Telescópios e binóculos nem sempre são suficientes para estudar o percurso fotografado por quem conhece o percurso com a palma da mão, como o editor Beat Perren. “Eu subi o Cervino pela primeira vez aos treze anos de idade com o meu pai”, lembra. 

O vilarejo de Zermatt, aos pés do Cervino, cresceu junto com a fama e a atração exercidas pela montanha no imaginário coletivo de quem vivia à sombra ou longe do gigante de pedra e sonhava em “tocar” o céu e olhar para baixo, entre as nuvens, para admirar as montanhas ao redor e a humanidade e a natureza vistas do alto. Dali partem excursões rumo ao colosso de pedra, na realidade, da localidade Hornlihütte onde duas fotos, da velha e da nova ponte, revelam como o Cervino domina a paisagem com grande majestade.

O casal Perren não deixou de ilustrar com raras fotos em preto e branco e desenhos feitos por artistas da época os eventos que acompanharam o início das grandes escaladas. Estão lá, entre uma página e outra, Zermatt, ainda um vilarejo de pastores, o primeiro abrigo de pedras construído em 1868, na crista do Hörnli sobre uma pequena plataforma rochosa e o refúgio aos pés do Cervino, erguido em 1880, a 3.260 metros de altura. Os grupos de “assalto” à montanha com os equipamentos rudimentares se comparados aos atuais também estão presentes.  O pioneirismo é celebrado em toda a sua importância de inspiração para explorar novos limites.

Algumas imagens do passado e do presente revelam as condições difíceis dos pernoites nos refúgios e abrigos a mais de quatro mil metros de altura, à beira dos precipícios e desfiladeiros. As fotografias não contemplam apenas as trilhas e os acessos, mas também contam a história das primeiras incursões e as espartanas e precárias construções, como a cabana do empresário belga Ernest Solvay, de 1915, erguida em substituição da precedente destruída num desmoronamento.

Escaladas

O teto deste mundo de terra, neve e gelo seria tocado pela primeira vez m 14 julho de 1865, na rota aberta pelo naturalista e artista inglês Edward Whymper (1840-1911), atraído, antes de tudo, pela beleza pictórica da montanha e, depois, pelo desafio de escalada até o cume ao qual tentou cinco vezes antes do sucesso. Na volta, porém, quatro companheiros morreriam quando um deles escorregou e arrastou outros três por causa de uma corda defeituosa. Ela rompeu-se provocando a queda fatal, de mais de mil metros de altura, dos integrantes da expedição. Depois deste caminho, outras três vias seriam abertas ao longo dos anos, uma mais arriscada do que a outra.

Elas são variantes que tentam tomar posse da montanha como se não fosse ela a aprisionar a alma do alpinista, seduzindo-o com o assovio dos ventos, com a passagem das nuvens, com os costões e os paredões verticais, com o céu tão límpido e claro que ele parece estar ali, ao alcance das mãos. E é a nitidez da captura destas sensações que transparece no livro dedicado ao Cervino. Não por acaso, o cientista irlandês John Tydall (1820-1893), usou os seus dotes de alpinista para escalar o Cervino e estudar as razões pelas quais a cor da atmosfera é azul e descobrir o efeito serra.

As fotografias com maior efeito sobre o leitor são as aéreas e que revelam toda a grandeza do Cervino. Nelas o homem é um ator coadjuvante diante do protagonismo absoluto desta pirâmide natural de rocha e não poucas vezes, mais parece uma formiguinha diante da imensidão do Cervino. O desafio de subir por cristas íngremes e estreitas, atravessar as paredes pendurados por cordas fixas, viciam os alpinistas.

A escalada do Cervino, vista através do objetivo da câmera fotográfica de Luisa e Beat Perren, revela algo de sublime, de profundo amor e respeito pela montanha. Ao longo das décadas ela cobrou o tributo de preciosas vidas de aventureiros que, por um motivo ou outro, acabaram ficando para sempre nas encostas do Cervino. O livro faz uma homenagem ao guia italiano Jean Antonie Carrol (1829-1890) ao imortalizar a cruz na rocha aonde o grande alpinista morreu depois de salvar os clientes de uma tempestade no caminho de descida.

As inúmeras escaladas durante as quatro estações do ano rendem o Cervino um dos primeiros objetivos dos alpinistas e amantes da montanha. Facilmente reconhecida no horizonte alpino, única na sua forma piramidal, ela é um marco, um farol que ilumina o desejo do ser humano de ir sempre mais alto. A montanha é fotogênica, e de todos os ângulos aparece em grande forma, como uma bela mulher, dizem os admiradores do Cervino. “A melhor estação para fotografar o Cervino é o outono, pela luz e jogo de sombras”, explica Beat Perren à swissinfo, sem demérito algum aos outros períodos do ano.

O livro

"Cervino, Climbing teh Classic Routes" tem 256 paginas e foi editado pela Edition Matterhorn Zermatt.

A obra custa 65 euros (98 francos suicos) e pode ser comprada através do site da farmácia de Beat Perren.

Beat Perren foi um dos fundadores da Air Zermatt, em 1968, Foi ele que conseguiu mobilizar a sociedade e constituir a Air Zermatt para ajudar a resgatar os turistas acidentados

End of insertion

Curiosidades

Três dias depois de Edward Whymper, em 17 de julho de 1865, Jean-Joseph Carrel e Jean Baptiste Bich, subiriam  pelo lado italiano, ou Crista Italiana ou a Crista do Leão, com 27 passagens, mas chegariam ao topo pela crista de Zmutt.

A aresta de Zmutt seria percorrida pela primeira vez, em 3 de setembro de 1879 por Albert-Frederick Mummery, com os guias Alexander Burgener, Augustin Gentinetta e Johann Petrus, com 7 passagens.

Já a aresta de Furggen seria aberta apenas em 22 de setembro de 1941, por Luigi Carrel, Alfredo Perino e Giacomo Chiara.

O pioneiro caminho da  Crista de Hörlin, Crista Suíça, possui 29 passagens desde Einstieg até Oberes Dach e dalia ao cume-,  e que são reveladas através de fotografias do livro, uma mais detalhada do que outra.

Ulirich Inderbinen, histórico guia de Zermatt, aos 90 anos de idade escalou a montanha.  

A forma de pirâmide da montanha Cervino é devida à erosão provocada por quatro ciclos glaciares.

Existem seis abrigos na montanha que podem ser usados como pontos de apoio pelos alpinistas.

End of insertion

Este artigo foi automaticamente importado do nosso antigo site para o novo. Se há problemas com sua visualização, pedimos desculpas pelo inconveniente. Por favor, relate o problema ao seguinte endereço: community-feedback@swissinfo.ch

Partilhar este artigo