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Um perfil de Frei Betto

Frei Betto - à direita- conversa com participantes do seminário em Berna (foto: Alexander Thoele)

(Keystone)

Frei Betto, uma das mais proeminentes personalidades católicas do Brasil, tem um perfil de militância política desde a juventude, como se pode ver nos traços biográficos dele.

Em Berna veio pregar o resgate da dignidade humana através da inclusão social.

Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido por Frei Betto, é padre dominicano engajado a fundo na luta pela inclusão social de todos os brasileiros num país marcado por 500 anos de exclusão, como ele costuma lembrar.

Autor de uns 50 livros, tanto de caráter social, como espiritual - e escreveu mesmo vários romances - Frei Betto é um dos expoentes da Teologia da Libertação, de que um dos fundadores é seu amigo franciscano, Leonardo Boff.

Aparentemente convencido de que não se pode pregar o evangelho a gente que passa fome, ele se envolveu cada vez mais na política, na tentativa de mudar as estruturas do País, sempre na perspectiva de acabar com a exclusão.

A “máquina” é contra o povo

Como assessor especial do presidente Lula, encontrou vasto campo de ação no programa Fome Zero que coordena. “Um programa previamente pensado e não de caráter assistencialista”, vem martelando sempre que pode. E o fez novamente em Berna, dia 2 de março, convidado por meios católicos para debate sobre a segurança alimentar e condições de vida mais dignas para os desassistidos.

Suas explicações nada têm da linguagem empolada da grande maioria dos políticos. Suas avaliações do sistema político e econômico do Brasil são ouvidas com interesse, pelos partidários e adversários.

Em conversa informal em centro brasileiro da capital suíça destacou, por exemplo, em relação à sua colaboração com Lula: “Estamos aprendendo a ser governo. A máquina não foi feita para servir ao povo”.

Quase meio século de militância

Destacou a dificuldade de ser ágil com um congresso e um judiciário conservadores e em que o poder está mais com o FMI, os investidores, o sistema financeiro. “Conseguimos parcelas do poder”, afirmou.

Envolvido há 45 anos na militância política, que lhe custou 4 anos de prisão no auge da ditadura militar, implantada em 1964, Frei Betto vem mantendo uma coerência de discurso.

Essa militância começou cedo, em Belo Horizonte, onde nasceu em 1944. Suas primeiras experiências de grupo foi no movimento escoteiro e na JEC, Juventude Estudantil Católica.

(A JEC uma das derivações da JOC que a Igreja criou para “segurar” os operários depois da Segunda Guerra Mundial).

Na capital mineira, Betto era um rapaz como os outros: namorador, festeiro e não escapou às traquinices da juventude. Mas o apelo ao sacerdócio começou logo. Era no convento dos dominicanos de Belo Horizonte que a JEC se reunia e dessa ordem religiosa sofria bastante influência.

Primeira experiência de cárcere

Mas seu pai, um tanto anti-eclesiástico, não queria saber de “homem de saia”. Quando Betto partiu para o Rio de Janeiro, onde fora nomeado um dos dirigentes da JEC, o pai cortou a mesada do filho. Mas Betto foi em frente. Em 1962 é dirigente da entidade e depois líder nacional da Ação Católica.

As dificuldades começaram já em 1964. Confundido com Betinho – o irmão de Henfil – Betto foi preso e torturado. (Ambos eram de Belo Horizonte e ambos pertenciam à JEC).

Em entrevista, anos atrás, Frei Betto fez piada do episódio: “Betinho me agradeceu a vida inteira por eu ter apanhado no lugar dele”. (Betinho era hemofílico e podia ter morrido!).

Em 1965, Betto entra para a ordem dos dominicanos, “porque a vocação estava muito forte”.

Em 1966 já estava em São Paulo para estudar filosofia – base dos estudos teológicos – e para trabalhar. Trabalhar como jornalista na prestigiosa e finada revista “Realidade” e depois na “Folha da Tarde” que antes do AI-5 (que reforçou a ditadura no Brasil) era considerada muito progressista.

Prisão pra valer

Os acontecimentos se aceleram com o encontro com Carlos Marighela no ano seguinte. Marighela, o inimigo público n° 1 dos militares, freqüentava o convento dos dominicanos. Betto abre um setor da “Folha da Tarde” a líderes da oposição e consegue muitos furos.

Se ele estava com um pé na subversão. Agora está com os dois. Em dezembro de 68 é decretado o AI-5, de triste memória. Começa a repressão violenta e a debandada geral.

Betto procura ajudar os companheiros perseguidos. Depois que Marighela é morto em novembro de 69, numa emboscada, ele foge para Porto Alegre. O dominicano acaba traído e na prisão, onde vai ficar por 4 anos, dois com presos políticos e dois com presos comuns.

Montando as CEBs

Uma vez fora do cárcere, em 1974, preferiu ficar no Brasil, com a convicção de que só poderia ajudar a mudar o País estando nele. É quando vai morar cinco anos numa favela em Vitória, no Espírito Santo, “ajudando a fundar as comunidades eclesiais de base” (CEBs).

Essas comunidades são hoje importante veículo na aplicação do atual programa Fome Zero, que hoje ele coordena no governo Lula.

Para sobreviver, ele começou a escrever. Suas “Cartas de Prisão”, publicadas inicialmente na Itália, saíram depois no Brasil, com muito sucesso. Ele começa a viajar pelo Brasil, trabalhando com as CEBs e escrever.

E continua sempre seu trabalho político, com uma justificativa: “Sou um ser religioso, por isso sou político”.

Em 1979, volta a São Paulo para acompanhar o movimento operário, torna-se assessor pastoral no ABC paulista, participa do trabalho de educação popular em São Paulo. E começa suas andanças pelo mundo.

Peregrino da inclusão social

Interessado pela experiência nicaragüense, dá assessoria à Nicarágua sandinista. Numa das viagens conhece Fidel Castro com quem debate a questão Igreja-Estado em Cuba. Passa onze anos fazendo um trabalho relacionado com o tema e escreve “Fidel e a Religião”, sucesso de livraria importante.

Foi então convidado a fazer trabalho semelhante em outros países socialistas. Hoje, se continua solidário com Cuba, estima que não se deve reproduzir modelos que caíram. Mas afirma não ver saída para a humanidade a não ser na “distribuição de renda e partilha de bens”.

Hoje Frei Betto é muito solicitado e por onde passa impressiona pelas suas convicções na defesa dos oprimidos. O trabalho de resgate da dignidade humana é uma tarefa árdua. Agora que tem meios de agir diretamente, participando do governo, toma consciência das dificuldades de pôr em prática o que prega.

Quanto ao Brasil, constata que se conseguiu uma reforma da previdência, que a reforma tributária está à metade. Mas faltam as reformas agrária, trabalhista e política...

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

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