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Um suíço em meio à crise em Moçambique

Soldados moçambicanos patrulhando nas ruas de Palma, em 12 de abril. A cidade foi tomada em 27 de março por jihadistas que aterrorizam a região desde 2017. Keystone / Joao Relvas

Um grupo jiadista espalha terror no norte de Moçambique e mergulha o país em uma profunda crise humanitária. O diplomata suíço Mirko Manzoni, enviado especial da ONU, adverte contra a intervenção militar internacional. 

Este conteúdo foi publicado em 02. junho 2021 - 11:54

Uma guerra provocada por um grupo que alega estar ligado ao Estado Islâmico e que provocou uma crise humanitária sem precedentes. A região é uma rota marítima estratégica e tem imensas reservas de gás. Um coquetel explosivo que hoje ameaça Moçambique, um país da África Austral pouco maior do que a França (19 vezes a Suíça) com um litoral de mais de dois mil quilômetros de extensão no Oceano Índico, povoado por quase 28 milhões de pessoas, 46% das quais vivem abaixo da linha de pobrezaLink externo.

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O conflito, que teve início em 2017 na província (estado) de Cabo Delgado, na fronteira com a Tanzânia, não teve o interesse da imprensa internacional no seu início. Hoje preocupa as grandes potências como os Estados Unidos, a União Europeia e, em particular, a França. Em 24 de março, os jiadista realizaram um ataque surpresa à cidade de Palma, causando a fuga de muitos habitantes e funcionários da empresa petrolífera Total, que está investe na região em um projeto de exploração de gás. Este canal marítimo localizado entre Moçambique e a ilha de Madagascar é também uma das passagens obrigatórias para o tráfego comercial internacional.

Mirko Manzoni, ex-embaixador suíço em Maputo, continua residindo em Maputo. Hoje é enviado especial da ONU para MoçambiqueLink externo. Originário do cantão de língua italiana, Ticino, sua missão implementar os acordos de paz entre o governo e o grupo rebelde Renamo, acordo negociado pelo diplomata quando ainda era embaixador da Suíça e que terminou uma guerra civil que assolou o país por mais de 20 anos desde a independência de Portugal.

swissinfo.ch: Qual é o impacto do conflito em Cabo Delgado no processo de paz entre o governo e a Renamo?

Mirko Manzoni: O governo e o Exército moçambicano ainda lutam no centro do país. A fim de completar a implementação do acordo de paz, os rebeldes remanescentes da Renamo devem ser desarmados e desmobilizados. O Exército não pode, portanto, mobilizar todas suas forças para extinguir o conflito que ocorre ao norte do país.

Portanto, é ainda mais urgente completar o processo de desarmamento, a desmobilização e a reintegração dos ex-combatentes para que o governo possa então redirecionar completamente suas forças para o norte do país. O Exército moçambicano não está em condições de manter duas frentes de combate.

Da esquerda à direita: Mirko Manzoni, Filipe Jacinto Nyusi (presidente de Moçambique), Osuffo Momade (líder da oposição) e Ignazio Cassis (ministro suíço das Relações Exteriores), na assinatura do acordo de paz entre o partido governista Frelimo e o partido de oposição Renamo, em , em 6 de agosto de 2019. Keystone

swissinfo.ch: Qual é a situação do país desde o ataque de grupos jiadista à Palma, no final de março?

M.M.: Esta guerra lembra o início do conflito no Mali, onde trabalhei entre 2012 e 2014. Não se trata de um conflito convencional. Esses grupos, que afirmam estar ligados ao Estado Islâmico, também usam métodos terroristas e realizam ataques muito bem organizados. Por exemplo, em um dia podem lançar uma ofensiva contra uma cidade, mas geralmente estão sempre fazendo ataques rápidos a aldeias e às forças militares.

É uma situação muito instável. A população tem medo e termina por se deslocar. Quase a metade dos habitantes da província de Capo Delgado, aproximadamente 850 mil pessoas, fugiram das zonas de combate. Como resultado temos hoje uma crise humanitária de grandes proporções.

swissinfo.ch: Por que só agora a comunidade internacional passou a se interessar pelo conflito? A questão energética tem algum papel nisso? Ou a importância da rota marítima para o tráfego internacional?

M.M.: Sou um veterano da Cruz Vermelha Internacional e, sem ser ingênuo, espero sempre que o interesse dos países seja pela trágica situação da população civil, que fogem do terror e dos combates. Mas é claro que, à medida que o conflito aumenta, também crescem as consequências geopolíticas e regionais. A perda do controle dessa área pode desestabilizar os países vizinhos. Portanto considero logico que a comunidade internacional passe a ver com mais interesse o conflito em Capo Delgado. Eu só espero que a prioridade seja enfrentar a crise humanitária, antes de qualquer intervenção armada, como foi sugerido há pouco.

Refugiados chegando em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, em julho de 2020. Keystone / Ricardo Franco

swissinfo.ch: Até que ponto a ameaça de grupos radicais islâmicos pode ser levada à sério?

M.M.: Esse conflito se desenvolveu ao longo de vários anos, também na Tanzânia vizinha. Mas a dimensão religiosa não deve ser superestimada. Desde o começo, os muçulmanos moçambicanos, numerosos nesta região, reagiram dizendo que o conflito não era religioso. Aqui também, a religião está sendo usada como um pretexto. Trata-se, sim, de terrorismo, criminalidade e tráfico de todos os tipos que se desenvolveram por causa da falta de controle governamental.

swissinfo.ch: OI presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, busca apoio militar externa. A questão foi discutida durante uma visita oficial realizada à França e nas conversas com o presidente Macron. Algum progresso foi feito?

M.M.; Moçambique precisa de parceiros confiáveis para resolver seus problemas de segurança. Acredito também que o país não queira ser pressionado, mas sim manter o controle de seu próprio destino. O governo não precisa de tropas externas, mas sim de equipamentos militares modernos e treinamento especializado para combater o grupo terrorista e restaurar a paz. Esta é a mensagem transmitida por Nyusi. Porém ele não se recusa a aceitar ajuda. Penso que repetiu esta posição também no encontro na França.

swissinfo.ch: O governo moçambicano é criticado por ter negligenciado o conflito iniciado em 2017 e pelo fraco desenvolvimento do país. O apoio não acarreta riscos?

M.M.: O extremismo se desenvolve devido à falta de gestão e problemas de boa governança por parte das autoridades. As províncias costumam ser esquecidas pelo governo central em Maputo. O governo reconheceu isto. Já faz mais de um ano desde a criação de uma agência de desenvolvimento que recebeu apoio do Banco Mundial. Seu objetivo principal é desenvolver esta região com uma estratégia específica. Mas a pobreza e corrupção não explicam tudo. Pouco se sabe sobre esses grupos islâmicos e se estão envolvidos com o crime organizado...

Uma escola em Pemba recebeu 500 crianças que fugiram dos combates ocorridos no norte do país em abril de 2021. Keystone / Joao Relvas

swissinfo.ch: Até que ponto a ameaça de grupos radicais islâmicos pode ser levada à sério?

M.M.: Esse conflito se desenvolveu ao longo de vários anos, também na Tanzânia vizinha. Mas a dimensão religiosa não deve ser superestimada. Desde o começo, os muçulmanos moçambicanos, numerosos nesta região, reagiram dizendo que o conflito não era religioso. Aqui também, a religião está sendo usada como um pretexto. Trata-se, sim, de terrorismo, criminalidade e tráfico de todos os tipos que se desenvolveram por causa da falta de controle governamental.

swissinfo.ch: O presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, busca apoio militar externa. A questão foi discutida durante uma visita oficial realizada à França e nas conversas com o presidente Macron. Algum progresso foi feito?

M.M.; Moçambique precisa de parceiros confiáveis para resolver seus problemas de segurança. Acredito também que o país não queira ser pressionado, mas sim manter o controle de seu próprio destino. O governo não precisa de tropas externas, mas sim de equipamentos militares modernos e treinamento especializado para combater o grupo terrorista e restaurar a paz. Esta é a mensagem transmitida por Nyusi. Porém ele não se recusa a aceitar ajuda. Penso que repetiu esta posição também no encontro na França.

swissinfo.ch: O governo moçambicano é criticado por ter negligenciado o conflito iniciado em 2017 e pelo fraco desenvolvimento do país. O apoio não acarreta riscos?

M.M.: O extremismo se desenvolve devido à falta de gestão e problemas de boa governança por parte das autoridades. As províncias costumam ser esquecidas pelo governo central em Maputo. O governo reconheceu isto. Já faz mais de um ano desde a criação de uma agência de desenvolvimento que recebeu apoio do Banco Mundial. Seu objetivo principal é desenvolver esta região com uma estratégia específica. Mas a pobreza e corrupção não explicam tudo. Pouco se sabe sobre esses grupos islâmicos e se estão envolvidos com o crime organizado...

Efeitos dos conflitos em Moçambique

Na província de Cabo Delgado, no extremo norte de Moçambique, o grupo islâmico Chabab (juventude) tem atacado a população, cidades e o Exército moçambicano desde 2017. Em julho de 2019 declarou que estaria se aliando a Estado Islâmico. Em março de 2021, os jiadista tomaram a cidade costeira de Palma, antes de serem expulsos pelo Exército.

Este surto de violência atinge um país marcado por uma guerra civil que se desencadeou logo após a independência de Moçambique em 1975. Em meio à Guerra Fria, a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) estabeleceu uma "democracia do povo" alinhada a União Soviética e a China. Em reação, os regimes do apartheid da África do Sul e da Rodésia apoiaram os grupos de guerrilha da Resistência Nacional de Moçambique (Renamo). A guerra foi particularmente violenta e resultou em quase um milhão de mortes. Terminou em 1992 com um primeiro acordo de paz entre os dois beligerantes.

Desde então, a Agência Suíça de Cooperação (SDC) atua na reconstrução e construção da pazLink externo em Moçambique. Em particular, as autoridades helvéticas acompanharam as negociações para firma um segundo acordo de paz entre a Frelimo e a Renamo, assinado em 2019.

O diplomata suíço Mirko Manzoni foi nomeado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, em julho de 2019 enviado especial em Moçambique com a missão de ajudar na elaboração do acordo de paz.

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Adaptação: Alexander Thoele

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