Navegação

Menu Skip link

Funcionalidade principal

Um toque brasileiro na agricultura suíça

"Se voltar para o Brasil, pretendo ser agricultor. Trabalhar o solo, tendo máquinas, é uma coisa boa mesmo" (foto: swissinfo)

Todos os anos, em abril, 60 jovens brasileiros são contratados por agropecuaristas suíços para um estágio de 18 meses.

Um deles é Luciano Horbach, gaúcho de Quinze de Novembro, há um ano na Suíça. Está gostando e fala da experiência, que recomenda.

Luciano tem 20 anos. É natural de uma cidade de 4 mil habitantes em pleno centro do Rio Grande do Sul. Por uma dessas voltas que se dá na vida veio parar na Suíça há um ano exatamente.

A decisão parece ter mudado seu futuro, despertando uma vocação que abandonara 4 anos antes: “Se voltar para o Brasil, pretendo ser agricultor. Trabalhar o solo, tendo máquinas, é uma coisa boa mesmo”, entusiasma-se o gaúcho.

Ainda menino, Luciano começa a dar o duro na roça. Aos 10 anos, ele vai trabalhar numa fazenda de 2 mil hectares onde fica até os 16 anos. É quando se muda para cidade e resolve ser marceneiro.

Surge então a idéia de imitar conterrâneos e tentar uma experiência na agropecuária suíça. Vai ter com o Sindicato Rural da cidade vizinha de Ibirubá – intermediário – e consegue uma das 5 vagas, disputadas por 30 candidatos.

“Sabia que a patroa era bonita”

Só lhe resta fazer as malas, pois Agroimpuls – órgão da União Suíça dos Camponeses – ocupa-se da viagem para a Suíça e da papelada, ou seja, contrato, seguros, passaporte e carteira de residência na país.

Nessa altura, Luciano já havia conversado com conterrâneos que acabavam de voltar de experiência semelhante na Suíça, podendo especular sobre tudo. “Fiquei então sabendo, por exemplo, com quem ia trabalhar e como era o chefe”, comenta o bem-humorado gaúcho. E acrescenta, com uma risada marota: “Até já sabia que a patroa era bonita”.

Luciano Horbach veio parar na cidadezinha de Muntelier, no estado de Friburgo. É pau para toda obra na fazenda de Markus Sommer. (Fazenda de 34 hectares – tamanho médio para os padrões suíços – onde se plantam cenoura, batatinha, milho, trigo, cevada e vagem. No setor da pecuária tem apenas 15 novilhas para cria).

“Aqui o trabalho é intensivo o ano inteiro”, constata Luciano. “Planta-se, se capina, se aduba... o serviço não pára, principalmente no verão”.

Folga quinzenal

Bom de serviço, Luciano não reclama, mesmo quando, morto de cansado, vai dormir com as galinhas. Ele sabe que no setor da agropecuária o trabalho é constante em qualquer lugar. Aliás, no contrato dos brasileiros está, preto no branco, que os fins de semana de folga são de 15 em 15 dias.

(Note-se de passagem que no fim de semana de serviço, trabalha-se apenas duas horas de manhã e duas no fim da tarde. É um ritmo que Luciano e outros estagiários acham normal).

Resta que um ano depois de experiência suíça, ele está bem a par de como funciona o esquema de estágio na Suíça. Assim a viagem e os documentos são pagos, mas o montante correspondente é retirado dos três primeiros salários que se recebe.

Requisitos

Ainda no Brasil teve que preencher os requisitos essenciais para trabalhar na Suíça. O primeiro deles é saber alemão: “Sem o alemão é muito difícil”, constata Luciano.

A propósito, Monika Schatzmann, coordenadora geral de Agroimpuls, lembra que sua organização, que contrata 2 mil estagiários por ano em vários países, limita-se no Brasil a trazer à Suíça filhos ou filhas de imigrantes alemães do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

As mulheres contratadas são de duas a quatro, e trabalham em pomares, hortaliças, estábulos ou jardins, informa Monika. O que exige menos força física.

As outras exigências em especial para os homens, segundo lembra Luciano, são “experiência na agricultura, pecuária e maquinário agrícola”, nisso incluindo uma carteira de motorista. A idade admitida é de 20 a 30 anos, podendo haver exceções para quem esteja acima da faixa dos 30.

Entrosamento

Na Suíça, os estagiários têm casa, comida e roupa lavada, fornecidas pelo agricultor que os contrata. Isso representa um apoio importante para quem chega a um país de cultura e hábitos muito diferentes, principalmente se for bom o entendimento recíproco, estagiário-patrão.

O fato de falar o alemão é meio caminho andado para a adaptação, mesmo se sabendo que os patrões e o povo da região falam o dialeto suíço-alemão, pouco compreensível inicialmente. Com esforço mútuo a comunicação se faz, como constata Luciano.

Quanto ao frio do inverno que sempre apavora um pouco os brasileiros, revela-se problema muito mais simples. Quem chega não sabe o que espera, admite o gaúcho. Mas referindo-se ao inverno que enfrentou – e que foi para ninguém botar defeito, com muito frio e muita neve – Luciano diz, desabusado: “O inverno? Achava que fosse mais frio!!!”.

Para ele, isso, então, não é algo que dificulta o entrosamento na Suíça. Já a questão do lazer é um pouco mais complicada. E a da paquera, nem se fale: “As garotas bonitas daqui nem olham para brasileiro!”. (Veja texto em “sobre o mesmo assunto”).

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Breves

Desde 1967, um grupo de brasileiros vem trabalhar na agropecuária suíça. A primeira turma era de 22. Hoje são 60 que vêm todos os anos em fins de abril por um estágio de um ano e meio.

Os interessados, ou as interessadas, de 20 a 30 anos, precisam ter experiência no setor e falar alemão.

Na Suíça, Agroimpuls, organização dependente da União Suíça dos Camponeses, coordena tudo, ocupando-se, inclusive do pagamento da viagem e dos documentos necessários.

No Brasil, há intermediários no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

É uma experiência que exige muita abnegação no trabalho, mas a experiência é considerada enriquecedora, porque os brasileiros vivem uma outra realidade e aprendem novas técnicas, o que se deve e não se deve fazer na agricultura.

Aqui termina o infobox


Links

×