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Uma visita ao fundo da Terra

Toni Macedo e seu filho, Antônio, no canteiro de obras do túnel.

(swissinfo.ch)

No canteiro subterrâneo de obras em Faido, vilarejo do cantão do Tessin ao sul da Suíça, o túnel San Gottardo é palco de uma "batalha" de operários, técnicos e engenheiros.

swissinfo.ch esteve por lá e até encontrou trabalhadores angolanos e portugueses.

Dentro da terra muda o conceito de dia e de noite. A luz fria, artificial, é sempre a mesma. A temperatura, idem. Não tem vento e nem uma planta. O organismo humano, sem saída, se adapta ao meio. E o relógio biológico entra em sintonia com as exigências da vida abaixo da superfície. Todos os dias, no canteiro subterrâneo de obras em Faido, o túnel San Gottardo conquista alguns metros à montanha. Um exército de operários, técnicos e engenheiros opera 24 horas por dia. Eles formam uma família, e tem até mesmo pai e filhos dividindo as mesmas dificuldades e desafios.

A troca de turnos é um espetáculo à parte. Quem parte, cumprimenta quem chega. As informações e as observações sobre a jornada são divididas em palavras, documentos. Mas na maioria das vezes, basta um olhar. O uniforme empoeirado e o capacete incrustado de lama pode já falar por si sobre como foram as horas precedentes e como deverão ser aquelas futuras. As equipes passam o bastão, como num revezamento.

A construção da estação multifuncional - uma das duas previstas ao longo dos 57 km do túnel - exige determinação, concentração, preparo físico e psicológico. E, acima de tudo, e dos 300 metros de rocha sobre as cabeças de todos, vale a camaradagem, a começar pelo aprendizado do idioma do companheiro ao lado.

Um poliglota

Um dos poliglotas é o senhor Macedo, mais da metade da vida revestindo túneis e minas ao redor do mundo. "Aqui tem que aprender tudo. O que se passa aqui com as pessoas é que uns aprendem a língua dos outros. Quase, quase, se fala um pouco de francês, italiano, alemão, português, croata", conta este operário responsável pelo acabamento das paredes e dos tetos da seção de Faido.

O fato de trabalhar 300 metros abaixo da superfície não representa um problema. Ele conta que antes de assumir um posto, o candidato passa por um estagio de três meses. E não falta oferta de mão de obra. "Sim, sabemos que falta trabalho na Europa, e as pessoas procuram muito a Suíça, pessoas dos países do leste, primeiro,
Aqui embaixo não é um trabalho comum. Tem que ter uma boa especialização e agüentar o trabalho sob a terra. Se ele servir, fica, se não servir, vai embora", diz o senhor Macedo

O ambiente inóspito convida à prudência. Nas entranhas da montanha, os homens trabalham com o máximo cuidado. "Não toleramos quem corre risco", diz ele. Movimentos ríspidos e a falta de equipamentos de segurança são inaceitáveis. Os espaços são exíguos e, por todos os lados, existem escadas, desvios, plataformas, passarelas. Nenhum milímetro quadrado parece ser desperdiçado.

Temperaturas constantes

Controles eletrônicos monitoram a localização em tempo real de cada trabalhador. E eles estão por todos os lados, assim como os containers de apoios, com os banheiros químicos, refeitórios, oficinas e pronto socorro de emergência.

Escavadeiras e guindastes parecem monstros mecânicos perdidos no centro da Terra. Tudo se move em câmera lenta, ao som das sirenes de aviso e alerta, quer da passagem de um comboio sobre os trilhos, ou da marcha-a-ré de um trator. Embaixo da terra os únicos meios de comunicação com o mundo exterior são o rádio, os canais de drenagem da água que mina das rochas e os dutos de ventilação.

Tubos gigantescos, presos ao teto, promovem a circulação do ar. A eliminação do monóxido de carbono coincide ainda com a refrigeração do ambiente. A temperatura é quase sempre em torno dos 28 graus centígrados. Enormes aspiradores de pó estão espalhados pelo túnel para sugar os detritos dos trabalhos.

Mesmo assim as partículas em suspensão resistem e para evitar a contaminação, cada operário recebe em dotação um respirador artificial, uma espécie de bomba de oxigênio. A qualidade do ar é monitorada a cada instante e, em caso de emergência, ninguém vai sofrer asfixia. "Aqui tem uma coisa boa: não cai neve e nem chuva", brinca ele.

O humor ajuda a enfrentar um trabalho fora do comum, como o de proteger o túnel das reações da montanha. A equipe do angolano avança cerca de 24 metros por dia. Em algumas zonas a armação de ferro tem que ser reforçada com anéis de aço para suportar e aliviar a compressão provocada pelo movimento da rocha. "Existem trechos nos quais o túnel diminui em até 50 centímetros de diâmetro, isso não pode acontecer", explica ele.

Tal pai, tal filho

Neste setor participam os dois filhos do angolano. Eles ainda eram adolescentes quando a obra começou, em 1998. Hoje, trabalham ombro a ombro com o pai. Os portugueses Antonio e Paulo formam a segunda geração de operários do túnel San Gottardo. O primeiro é uma espécie de maestro dos operários e o segundo um dos solistas na marcação das estacas.

Paulo rege a atuação de cada um dos homens que cuidam da armação de ferro. "Não é fácil controlar o que todos estão fazendo e como estão fazendo e dentro daquilo que é possível ser feito", conta Antonio Macedo, 25 anos, enquanto supervisiona a instalação da malha de ferro com toda a estrutura sendo fixada a mão, ponto por ponto.

O trabalho em família continua com o segundo. Ao mesmo tempo em que Antônio "costura" a armação do túnel para depois receber o concreto, Paulo esta mais a frente marcando os pontos de apoio na parede. Concentrado, ele interrompe o trabalho apenas para falar rapidamente com a swissinfo. "Aqui embaixo não temos o ar puro como lá de cima e por isso quando encerramos o expediente o valorizamos ainda mais", conta.

No fim do dia ou da noite, todos voltam para a superfície onde a vida escorre em harmonia com a natureza. A obra do túnel recicla todo o material extraído das entranhas da montanha, além de devolver tratada a água minada e usada no processo industrial. Ali ao lado do canteiro de obras, em Faido, quatro cavalos trotam ao pasto. 300 metros abaixo das patas dos animais um novo turno de trabalho recomeça, numa rotina prevista apenas para terminar em 2017.

Guilherme Aquino, swissinfo.ch

O projeto

Em 1992, os eleitores suíços aprovaram, com 63,6% de votos, a construção de novas e velozes redes de transporte alpino (as chamadas 'Novas Transversais Ferroviárias Alpinas'), com dois novos túneis, em São Gottardo e Lötschberg, juntamente com as respectivas vias de acesso.

Entre os principais objetivos da obra, destacam-se o transbordo das mercadorias da rodovia para a ferrovia e a redução do tempo de viagem para passageiros.

O túnel ferroviário de Lötschberg, com 34 km, entre os cantões de Berna e Valais (Wallis, em alemão), foi inaugurado em 15 de junho de 2007. O funcionamento do túnel do San Gottardo – que será o mais longo do mundo (57 km) – está previsto para 2017. A ferrovia plana através dos Alpes será completada com o túnel na base do Monte Cèneri (15.4 km), a ser concluído em 2019.

Estas obras estão orçadas – levando em conta o aumento de preços, imposto sobre valor agregado e os juros sobre os créditos de construção – em 24 bilhões de francos. As obras são financiadas através de impostos sobre o tráfego pesado (65%), combustíveis (25%) e o imposto sobre valor agregado, IVA (10%).

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