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“É dia de lembrar de onde viemos”


Portugueses comemoram festa nacional em Genebra


Por Nelson Pereira, Genebra


Os portugueses da região francófona da Suíça comemoraram este fim-de-semana a festa nacional em Genebra. Cerca de três centenas de pessoas passaram por ali nestes dois dias de festa ao ar livre, que afinal teve mais sol do que as previsões faziam recear.

Membros de grupos folclóricos portugueses na festa em Genebra. (swissinfo.ch)

Membros de grupos folclóricos portugueses na festa em Genebra.

(swissinfo.ch)

Sardinha assada, broa de milho, música popular, ranchos folclóricos, um ministro e uma cantora que dividiu as opiniões com um estilo que alguns consideram demasiado erótico. "É dia de lembrarmos de onde viemos”, disse à swissinfo.ch um dos participantes, que veio à festa acompanhado pela filha e um neto. "Para eles também é importante conhecer os costumes da nossa geração, porque eles já cresceram aqui”, acrescentou Manuel Silva, apontando para a descendência. 

Presença de ministro

Organizado pelas estruturas associativas da diáspora portuguesa genebrina com o apoio do Consulado-geral de Portugal em Genebra, o evento contou com a presença do ministro português do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, José António Vieira da Silva, que veio à cidade de Calvino para participar na 105.ª Conferência Internacional da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Em declarações à swissinfo.ch, Vieira da Silva salientou o “impacto positivo” da emigração portuguesa na economia de Portugal: “um duplo impacto positivo que tem a ver com as históricas remessas dos emigrantes, mas também uma crescente ligação entre as empresas que as comunidades portuguesas estão a criar, por exemplo aqui na Suíça, e algumas actividades económicas em Portugal”.

O representante do governo português ressalvou que, “embora mais tarde do que aconteceu com outros países, a diáspora portuguesa começou a tecer uma rede de ligações positivas entre a economia portuguesa e as economias dos países onde os nossos emigrantes estão presentes”. 

Aspecto positivo da migração

A propósito do fenómeno recente de uma nova vaga de emigração causada pela crise económica, o ministro lamentou as consequências negativas para Portugal, “tanto a nível demográfico, com muitas famílias jovens que saíram do país e têm os seus filhos noutros países, como a nível de qualificações profissionais, pois de um momento para o outro deixámos de ser um país que estava a atrair pessoas de outros países com altas qualificações, na área da investigação, da medicina, das tecnologias, para sermos um país que está a exportar essas qualificações”.

Vieira da Silva apontou neste movimento migratório uma componente positiva, “quando as pessoas vão reforçar as suas qualificações”, mas reconheceu que “se não regressam a Portugal perdem-se talentos necessários à modernização da nossa economia”, e que é também tarefa do governo criar condições para que as pessoas possam ter em Portugal uma vida profissional e familiar bem conseguida, pois “esta vaga de jovens que estão a fazer pós-graduações e investigação no estrangeiro enfraquece a massa crítica e os talentos que são necessários para que o país evolua”.

Dia importante

As comemorações do Dia de Portugal, chamado também "Dia das Comunidades Portuguesas", têm uma importância especial para as comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo. É o momento do ano quando o governo de Portugal se volta para os cerca de cinco milhões de portugueses e descendentes de emigrantes portugueses que vivem fora do país, por vezes o único momento quando os emigrantes e os seus problemas são lembrados nos discursos das autoridades oficiais.

É sempre um pretexto para a diáspora reviver e reforçar a ligação às origens, a costumes que permanecem importantes, à cultura e à língua. E igualmente ocasião para mergulhar nesta experiência comunitária os descendentes que nasceram nos países de acolhimento.

Polêmica na festa

Nas comemorações em Genebra viam-se famílias inteiras, nalguns casos três gerações, num convívio que teve muitos momentos de alegria, ao som dos vários grupos folclóricos que actuaram e à volta de mesas onde se comia principalmente sardinha assada acompanhada da tradicional broa de milho.

Houve também lugar para a polémica: alguns consideraram desadequado e desprestigiante para as comemorações o estilo da cantora Cristina Ardisson, uma das artistas do programa das festividades, pela carga erótica das canções que interpreta e da coreografia que apresenta em palco.

Na opinião dos críticos da cantora, a componente cultural das comemorações do Dia de Portugal deveriam ser mais cuidada. “Portugal tem artistas de maior qualidade e que as pessoas apreciam, foi uma escolha muito pobre”, disse Luísa Costa. Ao lado, António Pedro encolhia os ombros: “A gente já está habituada, na televisão portuguesa é isto de manhã à noite”.             

Diáspora portuguesa de Genebra

Os portugueses representam a primeira comunidade estrangeira de Genebra, seguidos pelos franceses, italianos e espanhóis. Em 2015 instalaram-se em Genebra 1.605 imigrantes portugueses.

Segundo o Departamento de Segurança e Economia de Genebra, no final do ano passado Genebra contabilizava 37.074 residentes de origem portuguesa, correspondendo a 18% da população estrangeira de Genebra e 8% da toda a população do cantão. Em 2015, 1.306 portugueses obtiveram a nacionalidade suíça, em Genebra.

A língua portuguesa é a segunda mais falada pelos alunos do ensino primário, em Genebra (no ano letivo 2014/2015 o francês contabilizou 18.757 alunos, o português 3.783 e o espanhol 2.030).

No ano lectivo 2015/2016, as aulas de língua portuguesa no quadro do programa Ensino Português no Estrangeiro (EPE) em Genebra são frequentadas por 1.175 alunos do ensino primário e 621 alunos do ensino secundário obrigatório, e as aulas de português do Brasil na Escola de línguas da Associação Raízes registam um total de 74 alunos inscritos.

Estima-se em cinco milhões o número de portugueses e descendentes de emigrantes portugueses que vivem fora do país. O governo português mantém uma rede consular com 127 postos, distribuída por sete dezenas de países e 230 consulados honorários ativos.

As acções na área da educação são coordenadas pelo Instituto Camões, com o ensino da língua portuguesa a realizar-se através de uma rede oficial e uma rede com apoios do Estado, implantadas em 17 países, com 815 professores e cerca de 68 mil alunos.

Portugueses que vivem no exterior devem manter suas tradições? Portugal perde com a emigração dos seus cidadãos? Dê a sua opinião.

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