"Ilha do preço alto" Franco forte corrói confiança dos consumidores

A Suíça é o país mais caro da Europa, de acordo com uma recente comparação de preços - e do mundo, se falarmos só de Big Macs. swissinfo.ch foi ver em Genebra como os consumidores - locais e estrangeiros – estão fazendo com o franco forte e os preços altíssimos.

Os Big Macs da Suíça são os mais caros do mundo

Os Big Macs da Suíça são os mais caros do mundo

(swissinfo.ch)

Quando encontro com Matt e sua família na varanda do McCafé, na Rue du Mont-Blanc, no centro de Genebra, eles ainda estão digerindo a refeição - e os preços: um Big Mac, uma Coca-Cola grande e uma porção de batatas fritas custa 13 francos (US$ 13,30).

"Acabamos de atravessar a fronteira da França para uma viagem de um dia. Eu não vinha a Genebra há 25 anos. Eu sabia que Genebra era um dos lugares mais caros do mundo, mas isso realmente me surpreendeu. É demais!", diz o turista inglês.

A Suíça está no topo do mais recente “índice Big Mac”, criado pela revista “The Economist” e publicado em 18 de julho. O lanche mundialmente conhecido mede o poder de compra ou o valor de uma moeda. No caso, o sanduíche sugere que o franco continua maciçamente supervalorizado e os hambúrgueres suíços são, de longe, os mais caros.

O pequeno país alpino já tinha a reputação de ser uma ilha dos preços altos no meio da Europa, mas desde 15 de janeiro, quando o banco central suíço (SNB) acabou repentinamente com a taxa fixa de câmbio de 1,20 francos por euro, a moeda suíça só vem se valorizando.

Isso exagerou as diferenças de preços já consideráveis entre a Suíça e o resto da Europa (ver gráfico mais abaixo para comparações de preços), colocando uma enorme pressão sobre as empresas suíças, especialmente os varejistas.

Com mais francos em seus bolsos, os consumidores conscientes dos preços na Suíça passaram a fazer compras nos países vizinhos, onde as mercadorias da zona do euro são em torno 30% mais baratas em muitos casos.

Economias de fronteira

No centro comercial Praz du Léman, em Annemasse, na vizinha França, a um pulo da fronteira de Genebra, filas de carros - um em cada quatro com chapas suíças – esperam arrumar uma vaga de estacionamento.

Tim veio de Genebra ao hipermercado Casino para comprar peixe, carne, fraldas e outros itens para sua jovem família. Ele diz que não tem escrúpulos em fazer compras regularmente na França, onde ele economiza cerca de 40% em sua cesta mensal em comparação com a Suíça.

"Mesmo que os preços de alguns itens tenham abaixado um pouco na Suíça, a maioria ainda está muito mais barato na França", explicou. "Quando você compra as mesmas fraldas na Suíça, que são o dobro do preço, você se sente como se estivesse sendo roubado, porque é do mesmo fabricante."

Os varejistas suíços dizem que as compras no outro lado da fronteira lhes custaram em torno de 13 bilhões de francos em receitas perdidas, em 2014, e este número deverá aumentar em 2015. Os engarrafamentos no fim de semana não param desde janeiro.

Baixa de preços

A empresa de consultoria BAKBasel prevê que o faturamento do varejo deva cair 2,1% este ano na Suíça, em comparação com 2014 - a queda mais acentuada nas vendas no varejo em 35 anos. Os grandes varejistas nacionais têm tentado lutar através de ofertas especiais. Mas os custos fixos mais altos com salários e alugueis reduzem a margem do repasse da paridade cambial, sem perda de lucros.

As duas maiores redes de distribuição do país, Migros e Coop, dizem ter negociado duramente com os fornecedores da zona do euro desde janeiro para reduzir os preços de milhares de itens em suas prateleiras. Segundo o porta-voz do Coop, Ramon Gander, mais de 14.000 produtos baixaram de preço, por um total de 170 milhões de francos.

Há evidências de que os preços ao consumidor vêm ligeiramente caindo. Em 5 de agosto, a Secretaria Federal de Estatística mostrou que os preços caíram 1,3% a partir de julho de 2014, uma redução ano-a-ano lenta para nove meses seguidos, destacando uma pressão deflacionária. A BAKBasel prevê uma baixa de preços nos próximos meses e o SNB espera que os preços caiam este ano e em 2016.

Então, o que os consumidores fazem com tudo isso? Será que eles têm notado que os preços abaixaram na Suíça?

"Absolutamente não", exclama Barbara, uma senhora questionada em frente a um supermercado Migros do bairro Paquis, em Genebra. "No início, algumas coisas abaixaram, mas isso acabou."

Seus comentários ecoam com os de muitos outros compradores interrogados em Genebra, que sentiram que os preços haviam mudado muito pouco desde janeiro.

Ganhando salários mais elevados, os suíços, sem dúvida, têm menos preocupações com os preços do que muitos outros europeus e o franco sobrevalorizado tornou-os potencialmente mais ricos para fazer compras ou viagens na Europa.

"Eu não mudei meus hábitos de consumo, mas ficou mais fácil sair de férias", conta Sylvan, um arquiteto. "300 francos valem agora praticamente 300 euros. Ficou muito mais fácil gastar sem olhar o preço."

Confiança do consumidor

Mas de acordo com uma recente pesquisa sobre a situação econômica a longo prazo, realizada em agosto pela Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (Seco), o desemprego e o alto custo de vida parecem estar corroendo a confiança do consumidor.

Quem tem que sobreviver com baixos rendimentos - como pensionistas, estudantes e imigrantes - e talvez não pode ir às compras na França, têm pouca margem de manobra.

"Eu não tenho carro", disse um cliente idoso em frente do supermercado Migros, em Genebra. "Eu sou uma das vítimas dos preços altos."

Para a classe média, alimentação, seguro de saúde, aluguel e transporte representam uma parte considerável do orçamento mensal. Depois de descontar as deduções obrigatórias e o alto custo de vida, não sobra muito à esquerda no final do mês.

A maioria dos suíços parece ter se resignado com o fim da taxa fixa do câmbio franco-euro. Em uma recente pesquisa realizada pelos jornais Sonntags Zeitung e Tages Anzeiger, três quartos dos pesquisados eram contra a reintrodução da taxa para trazer o franco de volta a 1,20 por euro.

Vários compradores em Genebra disseram não se importar de pagar um pouco mais pela qualidade suíça para apoiar a economia.

"Eu sou cuidadoso e compro produtos locais para ajudar a economia regional, por isso evito tanto quanto possível ir às compras na França", disse Hélène, uma jovem residente do Paquis.

Mas muitos ainda criticaram os preços excessivamente altos.

"Já viajei para muitos países e na Suíça eles prezam muito a qualidade. Algumas coisas são de muito melhor qualidade, mas elas precisam mesmo custar tão caro? Eu não acho que seja assim. Quando você viaja para outras partes do mundo, a qualidade é tão boa quanto a da Suíça e os preços são mais baratos. É um mito que eles mantêm para promover e aumentar os preços, mas eu acho que muitos preços altos não são justificados", disse Tim.

Salários altos

De acordo com dados publicados em janeiro de 2015 pela Secretaria Estadual de Estatísticas de Genebra, o salário bruto médio mensal do setor privado no cantão de Genebra, em 2012, era de 7.042 francos. Isso se compara ao salário médio suíço de 6.118. Em dez anos, o salário médio aumentou 13% na Suíça e 16% no cantão de Genebra.

No setor público, os salários brutos mensais médios em 2012 eram ainda maiores: 8.666 no cantão de Genebra, 7.490 no vizinho cantão de Vaud, e 7.750 na média suíça.

Na França, o salário mensal líquido médio em 2012 era de 1.730 euros.


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch

×