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"O país não vai abandonar a energia atômica"


Por Alexander Künzle


Hans-Rudolf Lutz foi o primeiro diretor de Mühleberg, a segunda mais antiga usina nuclear da Suíça, construída em 1972. (RDB)

Hans-Rudolf Lutz foi o primeiro diretor de Mühleberg, a segunda mais antiga usina nuclear da Suíça, construída em 1972.

(RDB)

Para o físico nuclear suíço Hans-Rudolf Lutz o futuro da energia nuclear está garantido.

O fato dos japoneses terem subestimado o risco de tsunami surpreendeu o ex-diretor da segunda usina atômica da Suíça. Para ele, houve falha dos responsáveis pela segurança em Fukushima. Entrevista.

A catástrofe na usina nuclear de Fukushima manchou com sua poeira radioativa o mito da perfeição japonesa de qualidade e segurança.

Hans Rudolf Lutz, PhD em Física, deputado federal do “Partido do Povo Suíço” (SVP, na sigla em alemão) e primeiro diretor da usina atômica de Mühleberg, no norte do estado de Berna, defende a tecnologia nuclear e se diz surpreso com a imprudência das autoridades nucleares japonesas. "Tsunami” sendo uma palavra japonesa, o físico suíço não entende como justamente o Japão pôde ter subestimado tanto o risco.

swissinfo.ch: A catástrofe japonesa não deixou claro que a tecnologia nuclear não é infalível?

Hans Rudolf Lutz: É claro que ela não é infalível. Como já foi demonstrado nos acidentes trágicos de Three Mile Island e Chernobyl. Mas Chernobyl não tem nada em comum com Fukushima.

swissinfo.ch: Isso não impede que todos pensem que o Japão seja um país de perfeccionistas. Engenheiros, criadores, fabricantes deveriam ser obrigados a cumprir os mais elevados padrões de qualidade e os mais altos requisitos de segurança...

HRL: Pessoalmente, eu colocaria um ponto de interrogação aí. Fui ao Japão e fiquei admirado com a extrema pontualidade dos trens. Mas basta apenas uma inconveniência, que pode ser a neve, para que o trem de alta velocidade fique bloqueado duas horas sobre os trilhos.

E por quê? Simplesmente porque mesmo a melhor das tecnologias não está imune às influências da natureza.

swissinfo.ch: É exatamente por isso que, depois de Fukushima, mesmo os defensores da questão nuclear são a favor de abandonar esta energia...

 

HRL: A maioria são políticos. Das pessoas que realmente trabalham com a energia nuclear, eu não ouvi nada parecido. Especialmente a nível internacional. No Japão, China, Índia, Rússia, Finlândia, França e Estados Unidos, o abandono da energia nuclear não está na agenda. Fala-se disso na Alemanha e agora também na Suíça.

swissinfo.ch: O Senhor quer dizer com isso que estão misturando emoções irrealistas de curto prazo aos cenários realistas de abandono da energia nuclear a longo prazo?

HRL: É possível. Mas estou convencido de que o país não vai abandonar a energia atômica.

swissinfo.ch: Nem mesmo a médio prazo?

HRL: Não. Só na China, existem atualmente 25 reatores em construção. E os reatores existentes podem operar por 60 anos. Eu só acho que em cinco ou seis anos praticamente ninguém vai estar falando em abandonar a energia nuclear.

E construiremos novas usinas, pois em muitos aspectos, a energia nuclear é a melhor forma de produzir eletricidade e calor.

swissinfo.ch: Então, os acontecimentos em Fukushima não vão mudar sua opinião sobre a energia nuclear?

HRL: A minha opinião é sempre positiva. Como no Japão. Hoje, ainda existem lá 48 reatores em funcionamento. E ninguém pensa em pará-los.

swissinfo.ch: Talvez o Japão não tenha outra escolha... será que podemos imaginar que em 20 anos esse país alcançará progressos significativos em termos de tecnologia energética?

HRL: Neste caso, há apenas uma opção: a energia de fusão. Se ela fizer um progresso significativo e se conseguir se tornar economicamente viável, aí então poderá substituir a fissão nuclear. Mas hoje ainda estamos muito longe disso.

Alternativas, o Japão já tem o suficiente hoje. Gás natural, petróleo e até carvão da China. O país depende da energia nuclear para gerar só um terço de sua eletricidade.

swissinfo.ch: Depois de Chernobyl, disseram que um desastre como aquele seria impossível de acontecer no mundo ocidental. Mas Fukushima funcionava com tecnologia ocidental...

HRL: Isso significa que catástrofes iguais a de Chernobyl não poderiam acontecer aqui. Em Chernobyl, era um tipo completamente diferente de reator. E houve uma explosão, quase uma espécie de bomba atômica com um grande incêndio. No Japão, por outro lado, trata-se de um acidente como o de Three Mile Island (nos Estados Unidos): fusão do combustível devido à insuficiência de resfriamento. Por causa da fumaça negra que subia, acharam que se tratava também de um incêndio em Fukushima, mas eram apenas cabos.

E até agora, os níveis de radiação permanecem bem baixos, mesmo no Japão.

swissinfo.ch: Mas detectaram radioatividade na água potável de Tóquio...

HRL: A dose permitida no Japão é muito menor do que a permitida na Europa. E além disso, desde quinta-feira passada, essas doses caíram novamente. Ouvi dizer que os valores admitidos no Japão eram dez vezes inferiores que na Alemanha.

Isso já me havia surpreendido antes. Na Suíça, a dose máxima tolerada é cerca de quatro vezes maior do que no Japão. Isso significa que, em tal caso, não haveria nenhum alerta na Alemanha ou na Suíça. Aqui eu acho que é mais uma histeria.

swissinfo.ch: Ainda existem alguns riscos também na Suíça: ataque terrorista, terremoto, lixo atômico...

HRL: Lixo atômico, não vamos nem começar a falar sobre isso! Aqui, os riscos são mil vezes menores do que no próprio reator. Em um reator, a radioatividade é muito maior, a uma temperatura de 2000 graus. Enquanto que o lixo é compactado em um depósito em temperatura ambiente a 500 metros de profundidade, não pode acontecer praticamente nada.

Até agora nunca aconteceu um acidente com resíduos nucleares vitrificados. Só uma erupção vulcânica em baixo do depósito poderia causar uma irradiação!

O perigo sísmico também foi levado em conta. Em Mühleberg, cuja concepção é mais ou menos a mesmo que a de Fukushima, tem um sistema de resfriamento de emergência em caso de terremoto ou enchente. E nós sabemos que, no caso japonês, foi a falha desses sistemas a principal responsável pelo acidente.

swissinfo.ch: Como assim?

 

HRL: O que eu não consigo entender no caso de Fukushima é como os japoneses puderam subestimar o risco de uma onda provocada por um terremoto. A palavra tsunami é, no entanto, japonesa.

E, de fato, os japoneses não construíram seus sistemas de segurança para que possam resistir a um tsunami. Os tanques de diesel foram visivelmente instalados no exterior, e foram levados pelas águas. Enquanto que em Mühleberg, todos eles estão instalados em bunkers.

Concluo com isso que as autoridades japonesas responsáveis pela segurança falharam.

Na Suíça, a Inspetoria Federal de Segurança Nuclear controla as instalações antes da construção e durante o funcionamento, especialmente quando ocorre um evento. Após o acidente de Three Mile Island, todas as usinas suíças foram rearmadas. Mas no Japão, as previsões sobre a altura de uma possível onda tsunami foram claramente irrealistas.

A energia nuclear no mundo

457 reatores estão espalhados em 211 usinas nucleares, que juntas oferecem cerca de 14% da eletricidade mundial. A distribuição é muito desigual. Energia de países ricos e emergentes, a energia nuclear está concentrada quase exclusivamente no hemisfério norte.

 

Pódium

1. EUA - 104 reatores

2. França - 58 reatores

3. Japão - 55 reatores

 

Na Europa, 16 países operam 195 reatores. Atrás da França, o ranking das nações europeias em número de reatores é o seguinte:

Rússia 32

Grã-Bretanha 19

Alemanha 17

Ucrânia 15

Suécia 10

Espanha 8

Bélgica 7

República Checa 6

Suíça 5

Finlândia 4

Hungria 4

Eslováquia 4

Bulgária 2

Romênia 2

Eslovênia 1

Holanda 1

Produção de eletricidade na Suíça

56% da eletricidade produzida na Suíça vem de usinas hidrelétricas

39% de usinas nucleares

O resto de diferentes fontes: petróleo, gás, madeira, biomassa, energia solar ou eólica.

Desde1960, a produção doméstica de eletricidade quase triplicou, ultrapassando hoje 60 bilhões de kWh por ano.


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch



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