Your browser is out of date. It has known security flaws and may not display all features of this websites. Learn how to update your browser[Fechar]

A enfermeira suíça a serviço dos índios Ianomâmis


Por Sergio Ferrari


Integrantes da comunidade Yanomami da região fronteiriça entre Brasil e Venezuela. ()

Integrantes da comunidade Yanomami da região fronteiriça entre Brasil e Venezuela.

Sylvie Petter, uma enfermeira suíça especializada em medicina tropical, inicia uma nova etapa profissional na Amazônia brasileira como voluntária da E-Changer, ONG suíça dedicada ao apoio de projetos de desenvolvimento no Terceiro Mundo.

O programa de medicina popular-participativa com a população indígena de Ianomâmis tem como centro de ação a cidade de Manaus. Iniciado no final de outubro, ele terá uma duração de três anos.

Os Ianomâmis habitam a região fronteiriça entre Brasil e Venezuela. Quatorze mil dos seus membros estão em território venezuelano, 12 mil no Brasil, dos quais cinco mil na zona intermediária do Rio Negro.

A instituição local responsável pelo projeto é a Secoya, uma ONG brasileira com uma sólida inserção entre os povos indígenas que vivem ao norte do país.

Formação multiplicadora

A enfermeira Sylvie Petter atuará na formação, concentrando sua atenção na revalorização do saber local e dos produtos naturais. Ela exemplifica: "Irei organizar workshops com os líderes das comunidades de Ianomâmi e o pessoal da Secoya sobre temas delicados como a malária, tuberculose, a higiene ambiental e a prevenção em geral", explica Petter à swissinfo.ch poucas horas antes da longa viagem.

"Meu raio de ação é a área que compreende vinte povoados dispersos, alguns deles distantes alguns dias de viagem em barco. Minha atenção especial serão as mulheres, com as quais irei abordar temas da saúde materna, reprodutiva e infantil", ressalta.

A voluntária insiste na visão multiplicadora da sua tarefa: "Formar líderes indígenas para que eles possam assegurar, em seguida, a reprodução desses conhecimentos."

Ela comenta a decisão de abandonar o trabalho "tradicional" como enfermeira no sistema de saúde suíço para assumir um desafio formador na selva amazônica. "Penso que existam muitas diferenças, mas são elas que explicam minha grande expectativa de viver essa experiência, que aguardo com ansiedade, mas também tranquilidade."

Petter conheceu a região amazônica durante uma longa viagem que empreendeu através da América Latina há alguns anos. Depois ela trabalhou durante todo o ano de 2009 com crianças de rua em um projeto social no Equador.

Novos desafios profissionais

"Acho que vou deixar de lado certos parâmetros de eficiência que imperam na medicina suíça e responder às prioridades do cotidiano. Muitas crianças continuam morrendo por malária ou enfermidades que seriam curáveis com uma boa prevenção", reflete.

Da prática a visão do mundo da saúde, Sylvie Petter antecipa um dos grandes desafios da sua futura inserção na Amazônia brasileira: "Ali existe outra compreensão espiritual e outra visão da enfermidade".

E nesse sentido a suíça tentou se preparar. "Tive a ocasião de me interiorizar na medicina natural e de explorar campos como o da subjetividade, da energia. Inclusive também tomei contato com curandeiros na Suíça, que me abriram outra perspectiva e outra visão da saúde com o objetivo de me sentir mais próxima do que irei encontrar por lá."

A enfermeira também se mostra crítica em relação ao sistema hospitalar do seu próprio país. "É que lá não se leva muito em conta a pessoa. Se fala do corpo, da enfermidade, do tratamento, mas sem consultar demasiadamente e saber o que ele desejaria."

Em sua opinião, muitas vezes os pacientes são vítimas do "peso burocrático do hospital, onde estão quase perdidos, como um número. Penso que na Amazônia haja espaço para outras percepções e propostas de saúde."

Ponte entre duas culturas

Ao descrever seu próprio estado de espírito antes da viagem, Sylvie Petter se mostra segura. "Sinto-me calma. Este projeto representa algo que aspiro há muito tempo e que esperei com bastante paciência. Por isso digo a mim mesmo que não irá falhar e que, com certeza tudo vai correr bem."

Ele tem a garantia adicional da sólida bagagem profissional, incluindo também especialização em medicina tropical na Bélgica e também cursos na E-changer.

"O que aprendi com ela me ajudou muito. Isso me abriu outra visão da América Latina e dos países do sul. No Equador pude comprová-lo. Muitos me disseram que era raro receber uma voluntária com tanta sensibilidade sociopolítica e com um conhecimento da filosofia da educação popular. Meus colegas locais insistiam que isso era uma vantagem significativa para o trabalho", diz.

As últimas semanas antes de partir foram ocupadas pela organização de diversas atividades públicas como entrevistas com a mídia local e contatos com instituições diversas. "Tudo é muito interessante e importante. Conto com um grupo de apoio chamado 'Ondas', onde participam umas setenta pessoas de diferentes regiões linguísticas que me acompanharão à distância nesse meu novo desafio."

"Constato que há muito mais gente interessada em seguir minha experiência do que pensava. Com uma surpresa adicional: um interesse muito profundo por pessoas da minha região com quem não tinha contato há muito anos", conclui.

Os Ianomâmis

São índios que habitam o Brasil e a Venezuela. No Brasil somam 15 mil pessoas distribuídas em 255 aldeias relacionadas entre si em maior ou menor grau.

A noroeste de Roraima estão situadas 197 aldeias que somam 9.506 pessoas e a norte do Amazonas estão situadas 58 aldeias que somam 6.510 pessoas (Fundação Nacional de Saúde, setembro de 2006).

Na Venezuela somam cerca de 12.000 pessoas residentes no sul dos Estados Bolívar e Amazonas.

No Brasil as aldeias ianomâmis ocupam a grande região montanhosa da fronteira com a Venezuela, numa área contínua de 9.419.108 hectares. Uma grande invasão garimpeira do território ianomâmi se deu no período de 1987 a 1992 em que estima-se a ocorrência de 1.500 mortes entre aquela população indígena.

A Terra indígena ianomâmi foi homologada pelo presidente Fernando Collor em 25 de maio de 1992.

A palavra ianomâmi significa ser humano, enquanto que napë é a designação geral para o estrangeiro, o não ianomâmi. (Texto: Wikipédia em português)

swissinfo.ch



Links

×