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Caio, atacante do Grasshoppers


Artilheiro no campeonato suíço só não vence a timidez


Por Alexander Thoele, Zurique


Caio durante uma partida do GC. ()

Caio durante uma partida do GC.

A história de Caio Cesar Alves dos Santos mostra que futebol é um esporte que permite dar a volta por cima. Ao ser “resgatado” do ostracismo para o futebol suíço, o jogador brasileiro de 27 anos é hoje um dos artilheiros do campeonato helvético e ídolo da torcida.

O dia está bonito nessa manhã de quinta-feira. O sol a pino, o céu azul e as árvores brotando anunciam o inicio da primavera. No gramado do centro de treinamento do Grasshopper Club em Niederhasli, um pequeno vilarejo ao norte de Zurique, os jogadores, no treino com bola, gritam nos mais diferentes idiomas. Uma fotógrafa registra todos os movimentos enquanto outra repórter de tevê ensaia algumas palavras na frente da câmera.

O tradicional clube de futebol está atualmente em segundo lugar na primeira divisão do campeonato suíço, chamado aqui de Superliga - mas é o primeiro em termos de títulos alcançados em campeonatos nacionais. Domingo é dia de uma importante partida em Berna contra o time local, o BSC Young Boys. Não dá para relaxar. O treinador alemão Michael Skibbe manda a sua equipe treinar chutes a gol, mas não parece estar convencido do que vê. “Mira a bola e chute com mais força”, grita ao jogador brasileiro Caio Cesar Alves dos Santos.

“Caio”, como é chamado pela torcida, prefere ficar calado e evita fazer gracejos durante o treino, ao contrário de alguns dos seus colegas de time. Aos vinte e sete anos, o brasileiro de Valparaiso, um vilarejo ao noroeste do estado de São Paulo, justifica alguns minutos mais tarde durante a entrevista que é uma pessoa tímida e reservada. Também o idioma não lhe facilita a vida, apesar de jogar há vários anos em países de lingua alemã. “Nunca fui dos alunos mais esforçados”, confessa, meio sem graça.  

Ele conta que desde menino sonhava com o futebol. Seu primeiro brinquedo foi, obviamente, uma bola. Aos quinze anos saiu da casa dos pais ao receber, em 2002, o convite para jogar profissionalmente no Grêmio Barueri. Depois começou a evoluir e passou por outros clubes de renome: Grêmio (2003-2004), Internacional (2006) e finalmente o Palmeiras (2007-2008). Então, com apenas vinte e um anos, conseguiu realizar o sonho de muitos jovens brasileiros de ir jogar no exterior. Foi quando o Palmeiras o vendeu por 4,5 milhões de euros ao Eintracht Frankfurt, então a mais cara transferência na história do tradicional clube alemão.

Problemas de adaptação

Viver na Europa foi um choque para alguém como ele, criado no interior brasileiro. O primeiro foi o clima. “Vi pela primeira vez a neve durante um jogo em Berlim. Até deixei de prestar atenção para ver aquela coisa branca caindo no campo”, lembra-se. Porém o frio incomodou até seus pais, que o visitaram apenas uma vez durante todo esse período no exterior. “Eles chegaram pouco antes do Natal e ficaram chocados. Não vieram nunca mais.”

A grande esperança do clube alemão terminou não se concretizando. Durante os quatro anos que passou na Alemanha, o brasileiro teve poucos momentos de brilho e longos períodos no banco. “Foi um tempo muito duro para mim”, lembra-se, citando também o seu problema com a mentalidade germânica. “As pessoas por lá são muito distantes”, conta Caio, que considera hoje os suíços mais simpáticos. Os jornais locais contavam até que ele preferia fazer compras em um posto de gasolina, pois a vendedora pelo menos lhe tratava bem.

Mas um dos seus problemas mais sérios foi preparo físico. Por três vezes não passou no teste do ácido láctico e precisou se esforçar mais nos treinos. Ao jornal “Schweiz am Sonntag” declarou que o problema não era a preguiça. “Esse teste não era nada para mim. Isso não é o mais importante no futebol. Eu posso correr bastante e dá gosto então jogar”. Foi nessa época que conheceu o treinador Michael Skibbe. Ele sempre apostou no seu talento, apesar de criticar muitas vezes as derrapagens do brasileiro no peso e nos treinos.

Caio voltou à forma e deveria ser vendido no inverno de 2011 por cinco milhões de euros FC Dínamo Moscou. Porém os médicos do clube diagnosticaram uma lesão na cartilagem do joelho. A transferência fracassou, para a surpresa do jogador, que declarou na época não saber dos problemas de saúde. Michael Skibbe foi demitido e Caio ficou ainda até o final de 2012, quando terminou seu contrato.

Decepção no Brasil

O retorno não foi fácil. “Tinha tanta vontade de retornar, mas logo descobri que as minhas chances no Brasil não seriam melhores”. Primeiro jogou no Esporte Clube Bahia e depois no Atlético Clube Goianiense. Lesionado, praticamente não jogou durante todos esses meses. Em sua cabeça, apenas um pensamento. “Queria voltar à Europa, sim e dar uma reviravolta na minha carreira”, diz.

A sua sorte melhorou quando Skibbe foi convidado para treinar o Grasshopper Club, em junho de 2013. O treinador alemão achava que o clube precisava de reforço, mas o caixa estava baixo. A compra de novos jogadores não poderia custar muito. Assim se lembrou de Caio. Ao final, o passe do brasileiro foi comprado por 250 mil francos, um valor bastante reduzido frente ao histórico do brasileiro.

Acompanhado por sua mulher e os dois filhos, hoje com três e nove anos, Caio chegou em Zurique e assinou um contrato até 2016. Até hoje ele agradece a oportunidade. “É muito difícil para um jogador brasileiro conseguir voltar a jogar na Europa”, ressalta.

Questionado sobre o problema joelho, o jogador perde a timidez e aponta para o seu instrumento de trabalho. “Os médicos do clube me examinaram e não descobriram nada. Jogo os noventa minutos com toda a força, mas sei que tenho de me cuidar”, conta. Provavelmente por essa razão, ele nunca experimentou esquiar ou fazer caminhadas mais ousadas nas montanhas suíças, praticas esportivas tão populares. “Sou meio medroso. Não tenho muita coragem de descer no esqui”. Nas horas livres Caio prefere jogar futebol com os dois filhos ou fazer passeios à Eurodisney em Paris ou Veneza, na Itália.

Futebol competitivo

Ele está longe de achar que jogar na Suíça seria fácil. “Não conhecia muito o futebol suíço, mas quando cheguei tive a surpresa de ver que o nível é tão alto, que está bem parecido com o alemão ou o brasileiro. Os estádios são bons e as equipes também. É um campeonato muito bom de jogar”, avalia Caio.

Por estar fora de forma ao chegar à Suíça, no verão de 2013, o brasileiro precisou lutar bastante para conquistar a confiança do treinador. Foi quando em 25 de agosto recebeu a sua primeira chance. Depois de ficar no banco por 83 minutos durante uma partida em Berna, Caio substituiu um colega e conseguiu marcar um gol faltando apenas quatro minutos para terminar o jogo. O Grasshopper ganhou de 2 a 1 e, no final do ano, conquistou a Copa Suíça de Clubes, o segundo torneio mais importante do país.

Hoje Caio é praticamente titular em todas as partidas. A sua boa situação permite até mesmo sonhos mais longínquos. “No momento quero terminar meu contrato de três anos. Geralmente eu sempre os cumpro. Se aparecer alguma coisa em uma equipe melhor na Europa, sem desmerecer o campeonato suíço, mas gostaria de participar do campeonato francês, italiano ou espanhol, não seria nada mal”, declara com modéstia.  

Devido ao calendário apertado, o brasileiro irá perder a grande festa na terra de origem. “Eu queria estar junto, ver a Copa. Mas tenho de treinar e então não vai dar para ir ao Brasil”, afirma, fazendo ao mesmo tempo um alerta à equipe verde-amarela. “A Suíça tem uma boa seleção. Eles até ganharam contra o Brasil em um jogo amistoso há pouco tempo.”

Caio considera que os protestos anunciados por vários grupos de manifestantes têm fundamentos. “No Brasil eles gastaram muito dinheiro nos estádios e lá falta muita coisa como hospital, escola e outras. Acho que os brasileiros podem protestar sim, mas sem quebrar nada. Para melhorar o Brasil é preciso protestar.”

Ao jogar no domingo, dois dias depois da entrevista, Caio repetiu sua boa atuação. Apesar da chuva de granizo e neve, ele marcou dois gols contra o BSC Young Boys no estádio Stade de Suisse, no mesmo lugar onde a Alemanha ganhou a Copa Mundial em 1954, e saiu ovacionado do campo. Hoje, o brasileiro é um dos artilheiros do campeonato suíço com 10 gols. Nada mal para alguém que já estava condenado no futebol.

Biografia

"Caio" César Alves dos Antos

Nascimento: 29.05.1986

Nacionalidade: brasileiro

Posição: meio de campo ou atacante

Tamanho: 186 cm.

Peso: 85 quilos

Número de camisa: 21

Contrato até 30.06.2016

Casado, dois filhos

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