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Olimpíadas no Brasil


"O vírus zika também pode ser encontrado no esperma"


Por Sebastian Rieder


A polêmica em torno do vírus zika no Rio de Janeiro também tem vantagens, afirma Kerstin Warnke, médica-chefe da delegação olímpica da Suíça. Ela explica por que especialmente os jogadores de golfe correm o maior risco ao praticar o esporte.

Um homem caminhando com seu cão examina uma escultura representando o mosquito Aedes aegypti criada pelo artista André Farkas, São Paulo, em 27 de maio de 2016. (Keystone)

Um homem caminhando com seu cão examina uma escultura representando o mosquito Aedes aegypti criada pelo artista André Farkas, São Paulo, em 27 de maio de 2016.

(Keystone)

Faltam poucos dias para o início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Quanto o vírus zika ocupa do seu tempo?

Kerstin Warnke: Praticamente não podemos falar dessa maneira, mas graças ao vírus zika o Brasil precisou realmente fazer algo contra os mosquitos. Eles não apenas transmitem o vírus zika, também os da febre amarela, dengue e chikungunya. Esses são provavelmente mais perigosos para os atletas do que a zika, mas graças a ela se combate agora os mosquitos. Eu me sinto melhor do que há dois anos, quando já víamos a ameaça, mas nada era feito.

Até que ponto os atletas podem se sentir seguros?

K.W.: Nós estamos com a zika no radar desde 2014 e já tomamos precauções. Nós sensibilizamos os atletas para que eles estejam preparados. Assim o choque não é tão grande como se o tema tivesse surgido repentinamente.

Quantas chamadas de atletas preocupados você já recebeu nesse ano?

K.W.: Não muitas, pois já informamos anteriormente. Nós fizemos uma brochura que é atualizada regularmente. Talvez eu tenha recebido seis chamadas de mulheres esse ano em relação à zika. Era principalmente para se informar sobre o planejamento familiar, pois o vírus ataca diretamente o feto e provoca com forte probabilidade uma deformação do cérebro, afetando gravemente as suas funções.

Assumindo que uma atleta queira participar da Rio-2016 apesar de estar em uma fase inicial da gravidez...

K.W.: Essa pessoa tem de ser consequente e cancelar a sua participação. Mundialmente recomenda-se que as grávidas não devam viajar ao Rio. Há um risco para o feto nesse caso. Se apesar disso uma atleta for, então precisa utilizar dia e noite o repelente de mosquitos, um mosquiteiro sobre a cama e roupas tratadas com inseticida. Mas se mesmo assim surgirem os sintomas, então é preciso imediatamente fazer um teste.

E o que acontece se uma mulher quiser engravidar depois das Olimpíadas, mas se contaminou com o zika?

K.W.: Então ela deve evitar a gravidez por seis meses e, durante esse período fazer regulamente testes para ver como os anticorpos se comportam. Enquanto os resultados do laboratório estiverem em ordem e os seis meses passaram, então o planejamento familiar volta a ser possível.

Como o vírus zika se comporta nos homens e no esperma?

K.W.: O vírus pode ser encontrado no esperma, mas não ser mais detectável no sangue. O problema é que ainda não sabemos com exatidão quanto tempo ele sobrevive no esperma. O maior período já provado é de aproximadamente três meses. A questão também é se ele se propaga e se o homem pode realmente transmiti-lo. São muitos fatores desconhecidos. Por isso é necessário esperar seis meses até querer ter um filho. Além disso, os testes utilizados atualmente para detectar o vírus no esperma ainda não foram validados.

Isso soa alarmante...

K.W.: Esperamos que até o final dos jogos esses testes melhorem. Nos Estados Unidos os pesquisadores trabalham bastante nisso, especialmente pelo fato do país estar diretamente afetado devido à proximidade com a América Central.

Quando teremos uma vacina?

K.W.: Não teremos ela em um futuro próximo. Por isso é necessário que o homem infectado sempre utilize a camisinha. Todas as pessoas infectadas devem fazer atenção para que não sejam picados mais uma vez. Assim evitam que outros mosquitos absorvam o vírus e o disseminem.

O medo já provocou diversos cancelamentos. Muitas estrelas do golfe, dos dois sexos, desistiram de participar dos Jogos Olímpicos...

K.W.: Os jogadores de golfe sofrem mais riscos, pois se movimentam em espaços ao ar livre e sempre próximo à água parada. Ela é um terreno fértil para os mosquitos. Além disso, os Jogos Olímpicos não estão integrados de forma ideal no calendário de competições. Os grandes campeonatos (majors) continuam a ocorrer normalmente. O calendário da Rio-2016 é desfavorável e por isso posso imaginar um cancelamento devido ao risco extra e a espera para ver como os Jogos Olímpicos se desenvolvem. Para os jogadores de tênis a situação foi semelhante desde que o seu esporte voltou a ser olímpico. Penso que no futuro os jogos de verão serão também para os jogadores de golfe atraentes.

Qual é o risco de se infectar com o vírus da zika?

K.W.: O risco é reduzido. Agosto é um mês de inverno no Rio. E isso significa temperaturas mais baixas e pouca chuva, o que é decisivo. Em clima húmido e quente os mosquitos se multiplicam e assim aumenta naturalmente o risco. Existe uma estatística que diz que para um milhão de turistas no Rio, apenas uma pessoa se contamina com o vírus.

Você compreende as preocupações dos jogadores de golfe?

K.W.: Eu compreendo muito bem. Os campos sempre devem estar bem-cuidados. Eles são permanentemente húmidos. Na Suíça a situação não é diferente, pois temos no momento bastante moscas-varejeiras nos campos de golfe. Naturalmente muito inseticida é borrifado no Rio e assim a situação é relativamente segura. Mas eu entendo qualquer um que tenha medo de se infectar.

Um problema é que a pessoa não percebe que se contaminou, pois a zika se manifesta apenas com uma leve gripe...

"Resfriado" seria a palavra correta. Em uma gripe temos sempre a influenza (n.r.: doença infecciosa aguda de origem viral que acomete o trato respiratório) na cabeça. No caso da zika trata-se apenas de sintomas de resfriado. Talvez a pessoa nem tenha febre, mas sim uma temperatura um pouco elevada. Todavia, os atletas podem nos procurar a qualquer momento se estão inseguros. Nós temos por lá uma policlínica e podemos fazer um teste rápido.

É um teste de sangue?

K.W.: Sim. É possível identificar diretamente o vírus no sangue nos primeiros sete dias. Depois o organismo começa a formar anticorpos, identificáveis por até seis semanas. Então temos as provas de seroneutralização (n.r.: prova ELISA) que nos ajudam a descartar reações falso-positivas. O problema é que o vírus zika vem da família Flaviviridae, o mesmo da dengue e da febre amarela. Às vezes você não pode mapear exatamente de qual vírus os sintomas se originam.

O que significa reações cruzadas?

K.W.: O flavivirus pode causar a febre amarela, dengue ou zika. Pode ser que o primeiro teste reaja positivamente à zika, embora a pessoa tenha dengue. A prova de seroneutralização exclui as outras doenças.

Como o turista deve agir quando não tem nenhum acesso direta a cuidados médicos?

K.W.: Se alguém teve um resfriado no Rio de Janeiro e pretende ter filhos, então deve consultar o médico de família. Se não teve um resfriado e também não foi picada, então a pessoa não precisa fazer nada.

Mas por que? A segurança não vem em primeiro lugar?

K.W.: Atualmente não existe nenhum teste que dê cem por cento de segurança. Se a pessoa quiser estar segura, então deve esperar seis meses e utilizar a camisinha durante esse período. Existem na Suíça muitos laboratórios privados que oferecem testes. Porém é preciso ir para Hamburgo para fazer a prova de seroneutralização.

*O artigo foi publicado originalmente no jornal Tagesanzeiger em 05.07.2016 e cedido à tradução para swissinfo.ch

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Adaptação: Alexander Thoele

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