Guarda Suíça Por trás dos muros do Vaticano

Mostra fotográfica nos “Musei Vaticani” expõe a vida da Guarda Suíça por trás do uniforme e das bandeiras. A corporação pensa no futuro e se antecipa a uma possível queda de vocação para o serviço. As fotos são de Fabio Mantegna.

(Fabio Mantegna)

 O Papa Francisco sempre desejou uma igreja católica com os portões abertos, sem uma viva alma barricada ali dentro. A guarda suíça, responsável pela sua segurança, também decidiu abrir as portas. Ao menos, para uma inédita exposição fotográfica, dentro dos “Musei Vaticani”. “The Life of a Swiss Guard. A private view" é uma mostra que revela os bastidores do corpo da guarda papal.

As imagens do fotógrafo italiano Fabio Mantega são uma espécie de negativo das figuras impávidas, quase colossais e imóveis e que dão a ideia da grandeza de prestar serviço ao Sumo Pontífice. Elas trazem os momentos particulares vividos pelos guardas, longe dos olhos dos turistas, por trás dos muros do Vaticano e dentro das paredes da vida privada de cada um deles. “Elas contam uma história nobre e antiga mas também de juventude de um grupo de rapazes a serviço do papa”, conta o diretor dos Musei Vaticani, Antonio Paolucci aos jornalistas presentes.

As fotografias retratam a rotina desses jovens. “Não queremos ser super-heróis, nem ser chamados de anjos da custódia do papa, queremos prestar nosso serviço em silêncio, com dedicação e humildade”, disse o comandante da Guarda Suíça, Christoph Graf, durante a apresentação da mostra.

E ele vai mais além. A exposição faz parte de um dos novos projetos para manter o passo com o tempo. E, quem sabe, atrair mais candidatos em servir ao papa. “Nunca podemos parar. Temos que ir adiante. No momento, ainda encontramos interessados. Mas a situação da Igreja Católica é um pouco difícil na Suíça. E ainda não sei por quanto tempo iremos encontrar interessados. Esta mostra pode despertar o interesse nos jovens, talvez um futuro guarda. Servir aqui é um grande prestígio que nem todos os suíços sabem”, diz o comandante para swissinfo.ch, atento à vocação do amanhã.

Durante dois anos, estendido por mais um, os guardas suíços cruzam os seus destinos com aquele do líder da Igreja Católica. Uma situação incomum, pois o efeito colateral é a exposição às consequências de seus atos e palavras. “Este não é um serviço militar normal. É um serviço ao papa, para a Igreja e tem que ter amor por ambos”, afirma o comandante Christoph Graf, à margem da mostra, para swissinfo.ch.

O trabalho exige ainda mais quando tem a ver com uma personalidade como a do Papa Francisco, avesso aos rígidos protocolos. “Servi-lo é sempre interessante. Nem sempre ele segue o protocolo. Verdade que para a segurança, às vezes isso é uma dificuldade a mais. Mas estamos acostumados e isso é belo. Ele tem necessidade da sua liberdade, creio que goste muito dela, e nós queremos garantir a liberdade dele. Ao mesmo tempo, somos os responsáveis pela sua segurança e temos que ter atenção por todos os lados”, disse o comandante Christoph Graf, sem demonstrar maiores tensões.

Uma missão delicada e complexa, principalmente em tempos de ameaças de terrorismo. “Eu falo como representante do Corpo, claro que não estamos de olhos fechados diante dessas ameaças. Essas situações que vemos nos fazem muito mal. O papa condena a violência, não porque alguém pertence a outra religião. O papa é um construtor de pontes, ele quer ir em direção das outras religiões. Vemos que é possível a convivência pacífica - uma religião ao lado da outras - e nós acreditamos nisso”, completa para swissinfo.ch o sargento e porta-voz da Guarda Suíça, Urs Breitenmoser.

Camaradagem

A uma continência da guarda suíça, o Papa Francisco responde com um aceno ou aperto de mão. A relação menos militar e a possibilidade de falar diretamente com ele criou um forte elo de confiança entre o herdeiro do trono de Pedro e seu exército. As imagens da mostra eternizam momentos de grande humanidade e, principalmente de camaradagem entre os soldados do papa.

Muitas das fotos são flagrantes dos períodos de lazer, de folga e também de treinamentos, além de cerimônias como a do juramento. Nela, o fotógrafo Fabio Mantegna capturou, por exemplo, o filho de Christoph Graf colocando o capacete na cabeça. “Eu fotografei o filho que usava o capacete do pai, sorrindo e admirando-o de maneira felicíssima.  Imagino que, para uma criança, ver o próprio pai vestido de comandante, tenha uma dimensão grande. Ela é uma das minhas preferidas” conta para swissinfo.ch.

O resultado final surpreendeu até mesmo os próprios integrantes da Guarda Suíça. Eles quase nunca vêm o resultado das fotografias “roubadas” pelos turistas. “Este é um trabalho sobre a nossa rotina. Quando vimos as fotografias, exclamamos: “ mamma mia…”, que belo ver que fazemos todos os tipos de trabalho, quanto é rico e variado, cheio de belos momentos”, afirma Urs Breitenmoser, na Guarda Suíça há quase 20 anos.

As aulas de defesa pessoal fazem parte da rotina. A foto de uma chave de braço impressiona pela veracidade. “É uma atividade física, como bloquear um agressor em caso de necessidade, defender a nós mesmos para garantir a nossa segurança e da sua Eminência”, explica o porta-voz.

E quem pensa que a alabarda serve apenas de enfeite, se engana. A arte de manusear e dominar esta arma medieval é exercitada à exaustão, como prova uma das imagens em vista, um convite ao visitante relembrar os cinco séculos de história deste Corpo.

Os painéis fotográficos são exibidos com legendas escritas pelos guardas suíços. A sentinela com uma alabarda e em posição de sentido descreve a imagem: “ela parece ser uma extensão do meu corpo”, diz a legenda.  Uma outra afirma que “o uniforme é uma chama que deve ser acesa a cada dia”.

Outras imagens revelam as lições de italiano, o sorriso no refeitório diante das freiras francesas, responsáveis pelo rancho, a conversa fiada dos cadetes nas horas livres, pelos jardins do Vaticano.

Os guardas suíços, em fim de serviço, foram os primeiros visitantes da mostra. O colorido de seus uniformes combina com as estruturas de suporte das fotografias.

Alguns aparecem diversas vezes. Este é o caso de Benjamin Croiser, 23 anos, e Gimel, Vaud. “Essas fotos possuem um ponto de vista interessante pois mostram o trabalho em um mundo de arte, história e silêncio”, conta ele para swissinfo.ch, “modelo” de três fotografias da mostra. “Antes de vir para cá, eu tinha a ideia do guarda como uma pessoa com ar severo, como vemos nos ingressos”, revela ele.

O silêncio, o vazio e a solidão também são personagens abstratos dos enquadramentos de Fabio Mantegna. Corredores infinitos, escadarias sem fim, vigiados por sentinelas imóveis. “Não parece, mas ficar seis horas em pé, mesmo que um não se seja uma atividade de vigilância, cansa muito. Trabalhamos seis dias fixos, os turnos vão de segunda feira a sábado. E depois de seis dias, seguem três de reserva e repouso. Se nestes três dias o papa não tem nenhum programa, o guarda pode sair e visitar a Itália ou voltar em casa, na Suíça. Hoje, está melhor do que no meu tempo”, comenta Urs Breitenmoser.

Real e virtual

A passagem da solidão completa ao banho de multidão na Praça São Pedro, às vezes é questão de poucos minutos. O guarda suíço tem que aprender a lidar com o público. Para isso tem aulas de psicologia. “ Isso requer a máxima flexibilidade mental e devemos nos preparar, cuidar do físico, dormir bem”, afirma o sargento, Urs Breitenmoser. Em uma das imagens, ele aparece diante do papamóvel na praça de São Pedro.

O isolamento é uma ameaça insidiosa na Guarda Suíça. Por esse e outros motivos, os integrantes da corporação não podem usar telefones celulares e internet, nem mesmo nas pausas, dentro do Vaticano. “Agora, o jovem, no tempo livre, tem a tendência de se isolar, a própria sociedade ficou assim. As redes sociais, estes jogos virtuais que se conectam com todo o mundo, tudo isso tira um pouco da vida real de todos os dias; ir ao serviço somente podendo ler e escrever, ativa no guarda a vontade de se confrontar com um livro, com a história, a cultura, e depois visitar Roma que oferece tanto”, explica Urs Breitenmoser, afirmando ainda que o convívio coletivo e real dos guardas entre si é fundamental.

O guarda suíço Benjamin Croiser faz coro ao seu superior. “Aqui dentro descubro que somos jovens, com interesses normais de gente da nossa idade. Sobre as restrições tecnológicas, eu concordo. Perde-se muito tempo com essas coisas e o mundo real, ao teu alcance, parece que não existe, passamos ao lado de coisas da vida que devemos aproveitar naquele instante. A proibição nos ajuda a refletir e a valorizar outras coisas, como a arte ao nosso redor e, principalmente nos dá a chance de refletir sobre nós mesmos”, diz o jovem guarda suíço.

O imaginário coletivo tem uma ideia equivocada da Guarda Suíça graças à mídia. Sem polêmica, o comandante Graf explica: “Queremos mostrar como o guarda vive no seu cotidiano. Quase sempre na mídia o guarda aparece em uniforme de gala, com ou sem a couraça, com o capacete preto ou branco, com a pluma vermelha, elementos usados em momentos particulares, dando a impressão que é a normalidade. Mas não é assim. Temos dias marcados pela corriqueira administração e serviços internos. O sol, a chuva, o frio, a umidade, também influenciam na rotina e, com tudo isso, nos pedem simpatia e sorrisos. Turistas tiram fotos e brincam com o guarda. Quem se esconde atrás do uniforme?,  pergunta o comandante Graf durante o discurso de abertura.

A resposta ele sabe: jovens suíços, católicos que fazem ronda e orações, ginástica e estudos de italiano, com idade entre 20 e 23 anos, em média. “Quase a cada ano temos um guarda suíço que decide entrar num seminário para seguir uma ordem religiosa”, afirma o comandante Graf, pronto a projetar a Guarda Suíça no futuro com um único objetivo: proteger a vida do papa, se preciso ao custo de própria vida.

A exposição

A mostra conta com 86 imagens das 150 registradas num catálogo. Elas são coloridas e em preto e branco.

As legendas foram escritas pelos próprios guardas.

Hoje, o corpo conta com 110 homens, sendo 15 suboficiais e oficiais - com famílias - que contabilizam 19 crianças.

Entre 30 a 35 guardas encerram o serviço ao fim do segundo ano.

Eles voltam para a Suíça, voltam aos estudos ou entram para outras forças militares, ou ainda retomam as antigas profissões.

Poucos aproveitam a possibilidade de ficar mais um ano (o terceiro) e, menos ainda, seguir a carreira.

Isso por um lado é bom pois ajuda a manter a guarda suíça sempre jovem e o país natal recebe de volta um pessoal altamente qualificado.

Por outro lado, obriga a instituição a ter que formar novos guardas, 365 dias por ano.

Quando eles aprendem o serviço e sabem como funciona, vão embora.

swissinfo. ch

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