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Jogos Paralímpicos 2016


"Uma paixão é algo que começa e não termina mais"




Celine van Till é um dos vinte e um atletas suíços que participam dos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro. Atleta do hipismo, a jovem de vinte cincos sofreu na juventude um acidente grave que quase lhe custou a vida. Apesar da deficiência, escreveu um livro, foi eleita miss, terminou a universidade e agora sonha com o ouro no hipismo.

 (celinevantill.ch)
(celinevantill.ch)

A sua vida mudou completamente aos 17 anos. O cavalo "Zizz" se assustou, deu uma empinada e caiu com os seus 600 quilos em cima da menina tímida. O pai filmou a cena. Transportada de helicóptero para a emergência de um hospital alemão, os médicos diagnosticaram traumatismo craniano. Ao acordar do coma, Celine Van Till não falava ou conseguia se mexer.

A recuperação foi lenta. Porém a suíça, hoje aos 25 anos, viveu uma experiência que compartilha no livro "Passo a passo: a história de um acidente e de uma ressurreição", onde conta como foi renascer e voltar a fazer o que mais gosta, andar de cavalos. Pouco antes de viajar ao Rio de Janeiro, deu uma entrevista por telefone à swissinfo.ch

swissinfo.ch: Quando começou a sua paixão por cavalos? 

Celine van Till: Foi quando tinha seis anos e a minha mãe me levou para um centro hípico. Eu era uma menina muito tímida. Ela achava que andar de cavalos ia me ajudar.

swissinfo.ch: Você então começou a treinar até chegar à equipe nacional de hipismo da Suíça aos quinze anos?

C.v.T.: Sim, foi bem rápido.

swissinfo.ch: Como foi o acidente ocorrido quando você ainda era adolescente?

C.v.T.: Foi quando tinha acabado de completar dezessete anos. Eu estava em Frankfurt (Alemanha), onde fazia um curso de equitação com uma cavaleira profissional. Tudo ia bem até que Zizz, meu cavalo, deu uma empinada e caiu em cima de mim. Eu desmaiei e fui levada de helicóptero até o hospital mais próximo. Meu estado era tão ruim que os médicos decidiram que eu deveria ser operada o mais rápido possível. Depois eu fiquei em coma aproximadamente por um mês.

swissinfo.ch: Quando você se recuperou?

C.v.T.: Eu não acordei de uma só vez, mas sim foi um processo que durou dois meses em um estádio de semi-coma. Ou, como os médicos dizem: um estádio de confusão mental.

swissinfo.ch: Ao se recuperar, qual era o seu estado clínico? Você se lembrava do que havia ocorrido ou tinha problemas?

C.v.T.: Eu podia fazer mais coisas do que no estado de semi-coma, mas quase não podia falar ou me movimentar. Eu podia escutar, entender as coisas e reconhecer as pessoas. Depois do acidente os médicos diagnosticaram tetraplegia parcial, o que significava que eu teria de reaprender a movimentar todo o meu corpo.

swissinfo.ch: Como foi a recuperação até chegar ao seu estado atual?

C.v.T.: É difícil dizer. Primeiro fiquei quatro meses na cadeira de rodas. Depois andava com ajudar de um andador e então passei para as muletas. Meio ano após o acidente, eu já conseguia caminhar sem ajuda nenhuma. Mas não era muito fácil. Eu caí muitas vezes no meio da rua.

swissinfo.ch: O que levou você a voltar aos cavalos? Um acidente parecido como esse teria afastado muitas pessoas de um hobby semelhante...

C.v.T.: Foi a paixão. Para mim uma paixão é algo que começa e não termina mais.

swissinfo.ch: Seus pais tiveram um papel nisso?

C.v.T.: Meus pais tiveram um papel muito importante na minha recuperação. Eles me levaram de volta para os cavalos. Principalmente a minha mãe me acompanhou em todos esses momentos.

swissinfo.ch: Não foi estranho voltar a cavalgar no mesmo cavalo com o qual você teve o acidente, o "Zizz"?

C.v.T.: Eu voltei a cavalgar com um outro cavalo. O Zizz estava em tratamento na Holanda, pois também se feriu na queda. Oito meses depois do acidente montei nele de novo. Para mim não foi nenhum problema, pelo contrário: foi muito importante! Eu tinha os vídeos do acidente e sabia que não era a minha culpa, nem do cavalo. E uma coisa que eu aprendi aos seis anos, quando cavalguei pela primeira vez: você sempre deve voltar a montar no cavalo do qual caiu uma vez.

swissinfo.ch: Paralelamente ao esporte, como você construiu a sua vida após o acidente?

C.v.T.: Foi tudo bastante rápido, apesar das grandes dificuldades. Depois da escola, estudei e conclui, em maio de 2015, um bacharelado em marketing e administração de empresas. Em 2012 fui escolhida "Miss Handicap".

swissinfo.ch: Por que você concorreu em um concurso de beleza?

C.v.T.: Não se trata de um concurso de beleza, mas sim um prêmio às pessoas que mais se esforçam pela inclusão e igualdade de direitos de deficientes. Ao ganhá-lo recebi algumas tarefas. Dentre elas, tematizar nas mídias sobre a nossa situação, falar em grandes eventos e também me apresentar nas escolas, onde sensibilizamos as crianças para a situação dos deficientes. A gente conversou muito e eu até brincava com elas.

swissinfo.ch: Li que você também escreveu um livro. Qual é o tema?

C.v.T.: Sim, eu escrevi um livro. Ele foi publicado no final de 2011, pouco antes do concurso da Miss Handicap. Agora elejá foi reeditado e continua disponível nas livrarias. Trata-se da minha biografia, com as experiências que tive até então. É um livro para motivar as pessoas e mostrar que tudo é possível.

Biografia

Celine van Till nasceu em 20 de junho de 1991, em Chêne-Bougeries, uma comuna próxima a Genebra. Ela tem a dupla-nacionalidade suíça e holandesa, por parte dos pais.

Por incentivo da mãe, começou a cavalgar aos sete anos. Aos quinze já fazia parte da seleção suíça de hipismo.

Quando tinha 17 anos, sofreu um acidente que a deixou de coma por vários meses. Graças à fisioterapia recuperou parte dos movimentos e capacidades. Logo depois voltou a praticar a equitação.

Em 2011 publicou um livro autobiográfico intitulado "Passo a passo: a história de um acidente e de uma ressurreição". O livro está em sua segunda edição.

Em 2012 foi eleita Miss Handicap, um título dado a pessoas que se dedicam a melhorar a inclusão de deficientes na sociedade.

Em 2015 concluiu o curso de bacharelado em marketing e administração de empresa. Depois estagiou no Comitê Olímpico Internacional (COI), em Lausanne.

Nos Jogos Paralímpicos Rio-2016 ela irá participar nas provas de hipismo na classe III. Os atletas estão divididos em cinco categorias. Quanto menor o número da classe, maior a deficiência.

Ela também é embaixadora da Handicap Internacional.  

swissinfo.ch: Quais são seus planos profissionais fora dos hipódromos?

C.v.T.: Logo depois de me formar, comecei um estágio no Comitê Olímpico Internacional. Foi em junho de 2015. Para alguém como eu, interessado nos esportes, foi como a realização de um sonho. Eu gostei muito de estar lá, mesmo se não foi sempre muito fácil. Durante esses meses tive de aprender a lidar com a minha deficiência no trabalho. No final, deu tudo certo e o meu chefe ficou muito satisfeito comigo.

swissinfo.ch: A que ponto a sua deficiência afeta você no trabalho?

C.v.T.: É necessário sempre adaptar meu tempo à energia disponível, ou seja, se estou cansada demais para me concentrar ou não. A questão é que eu quero estar absolutamente produtiva no trabalho e dar o melhor possível de mim.

swissinfo.ch: Quais são seus objetivos nos Jogos Paralímpicos 2016?

C.v.T.: Meu objetivo já era poder participar dos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro. Primeiramente quero aproveitar dessa experiência como um trampolim para os Jogos Paraolímpicos de Tóquio, em 2020. Em termos de resultado, o melhor para mim seria de poder participar da prova de freestyle, no último dia.

swissinfo.ch: Você não tem esperanças de conquistar uma medalha de ouro para a Suíça?

C.v.T.: Eu nunca participei dos Jogos Paralímpicos. Essa é a primeira vez. Cada atleta sonha em conquistar uma medalha de ouro para o seu país, porém não tenho muitas esperanças. Há bastante boas cavaleiras na competição. Mas eu confio no meu cavalo. Nós dois juntos podemos alcançar muita coisa. Você nunca sabe (risos). O importante é que vou dar tudo de mim.

swissinfo.ch: Em que consiste a sua principal disciplina, o "para-equestrian dressage" (para-adestramento)?

C.v.T.: É a mesma coisa que adestramento olímpico, mas com deficiências. As provas são adaptadas às deficiências dos atletas.

swissinfo.ch: Quantas vezes você treina por dia?

C.v.T.: Antes das provas os treinamentos eram mais leves, pois temos de levar em consideração o longo voo, no caso da Rio-2016. Mas normalmente eu treino menos cinco vezes por semana com os meus dois cavalos. Eu também faço musculação e exercícios de coordenação.

swissinfo.ch: Antes dos JO, a imprensa internacional publicou muitas manchetes negativas: problemas de organização, Zika, criminalidade e outros. O que você sentia antes de viajar ao Rio?

C.v.T.: As mídias contaram muita coisa. Mas o que escutei dos colegas do Comitê Olímpico Internacional, e dos outros atletas que já estiveram na Rio-2016, é que eles gostaram muito e acharam que foi uma ótima experiência. Naturalmente havia coisas negativas, mas no geral, quase só escutei coisas positivas.

swissinfo.ch: Como você vive a inclusão na Suíça, um país que também assinou a convenção da ONU?

C.v.T.: Como embaixadora de pessoas com deficiência, e também como embaixadora da ONG Handicap International, a inclusão é extremamente importante para mim. Eu mesmo, como deficiente, sinto que existem muitos progressos, mas que ainda há muito o que se fazer. Nós lutamos para que mais avanços ocorram.

swissinfo.ch: O Brasil é um país complicado para pessoas com deficiências. Você espera ter dificuldades por lá?

C.v.T.: Penso que não será tão difícil. No Jogos Paralímpicos tudo deve estar bem organizado para nos ajudar. 

Equipe suíça

Nos Jogos Paralímpicos Rio-2016, os primeiros da América do Sul, irão participar 21 atletas suíços. Eles irão representar o país em sete modalidades esportivas: tiro ao arco, atletismo, paraciclismo, hipismo, tiro, natação e tênis de mesa.

Nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, a Suíça ganhou 13 medalhas em atletismo e paraciclismo.

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