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1° de setembro de 2017 Identidade e os conflitos internos na migração

A aconselhadora psicológica Graziela Birrer explica como sua tese e trabalho podem ajudar migrantes

Foto de Graziela Birrer

Graziela Birrer ao ser entrevistada pela swissinfo.ch

(swissinfo.ch)

A paulistana Graziela Birrer ajuda imigrantes na Suíça a superar crises existenciais. Formada em aconselhamento psicológico pelo Instituto de Psicoterapia Centrada no Corpo (IKPLink externo) de Zurique, ela considera que seus estudos a levaram a uma reinvenção profissional, necessária após emigrar e se deparar com tantas diferenças. Graduada em comunicação social, propaganda e marketing, a alteração de rumo propiciou à Graziela o resgate de uma paixão antiga: trabalhar com o ser humano. A profissional lança mão das técnicas psicológicas do Instituto com o aprendizado adquirido com a tese de conclusão de curso sobre identidade do imigrante, e sua vivência de 12 anos como estrangeira na Suíça.

* Artigo do blog "Suíça de portas abertas"Link externo da jornalista Liliana Tinoco Baeckert.

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swissinfo.ch: Quem são os seus clientes?

Graziela Birrer: Por causa do idioma, atendo, na maioria dos casos, brasileiros e portugueses, uma vez que é muito melhor se expressar no seu idioma, principalmente quando se trata de temas tão profundos. Mas trabalho também em alemão e inglês. Trabalho muito com questões migratórias na Suíça, mas não exclusivamente. São problemas relacionados à crise no trabalho, de identidade e relacionamento. Recebo alguns casais também, que vêm por problemas na união. Alguns, posteriormente, se tornam clientes individuais.

swissinfo.ch: Como você integra o método de trabalho psicológico do IKP às necessidades dos imigrantes?

G.B.: A minha tese de conclusão do curso foi baseada na identidade do estrangeiro. A linha seguida pelo IKP é a da psicologia humanista, com forte influência da Terapia de Gestalt (talvez seja melhor usar “Gestalt-terapia”. Eu quis unir essa orientação ao tema migração, que também tem a ver comigo. O método IKP se baseia na busca do equilíbrio de seis dimensões: a corporal, psicológica, social, temporal, espacial e espiritual. Acredita-se que a saúde e o bem-estar dependem do balanço desses seis valores.

O processo parte do princípio de que todos temos o potencial de cura dentro de nós mesmos. Obviamente não estou dizendo para ninguém não ir ao médico ou deixar de tomar remédio. O que eu afirmo é que até mesmo o medicamento pode ser visto como um recurso, assim como qualquer procedimento benéfico que possa ser usado para alivio de qualquer incômodo. Mas isso significa que o indivíduo, mesmo utilizando diferentes ferramentas, é o ativo da própria cura.

Explicado isso, é importante mencionar que a migração afeta cada uma dessas dimensões. Dessa forma, consigo atrelar a minha tese ao meu dia a dia no consultório.

swissinfo.ch: Poderia explicar como a migração interfere nas seis dimensões?

G.B.: Quando a pessoa sai do seu país, uma série de mudanças acontece na vida dela, interferindo principalmente na identidade, que está em contínuo processo de mutação. Ela é baseada nas nossas características, experiências e meio ambiente. Dessa forma, de acordo com as fases da vida, vai sofrer alteração. Obviamente que sair do país e mudar-se para outro vai modificar profundamente uma estrutura, já que significa uma ruptura com vários aspectos de uma vida pregressa.

A própria imagem do corpo é uma das que sofre modificação. O físico será mais visto ou mais escondido, caso a migração se dê para um país mais frio ou quente. Os padrões de beleza daquela sociedade com relação ao corpo, a alimentação; até o fato de se começar a comer por ansiedade pelo fato de estar na fase de adaptação influencia essa dimensão. Além disso, o corpo manifesta de diferentes formas problemas psicológicos e estresse, por exemplo.

A dimensão psicológica está relacionada à nossa visão do mundo e sobre nós mesmos; como eu me vejo, me valorizo e me sinto. Muitas vezes, a percepção que se tem de si mesmo é baseada na opinião do outro. Na vida do imigrante, isso é muito comum. Como quem deixa o país de origem perde suas referências. Essa dimensão também está muito ligada ao que ficou para trás ao ir embora; como era a relação com a família e como a pessoa reage ao novo ambiente e seus sentimentos, por exemplo.

A social, entretanto, é uma parte bem ampla dessa análise. Está relacionada à forte percepção de distância e proximidade entre as pessoas, com o espaço físico entre elas. Nesse sentido, é importante mencionar que ir embora do seu país de origem não significa somente mudar de lugar, mas alterar o centro de vida e a referência social, que deverá ser reconstruída em outro país.

swissinfo.ch: Curiosamente, muitos recursos externos encontram-se na parte social. O médico, a família, o amigo, a comunicação, o idioma. E não são exatamente esses que perdemos quando saímos do nosso país?

A dimensão tempo, na migração, tem relação com o ritmo de vida e com a velocidade. Outro fator que influencia muito essa conexão é em qual momento a pessoa vai focar. Alguns ficam muito presos ao passado, principalmente os que mais sofrem de saudade. Essa prática se faz muito evidente em êxodos. O importante é focar na integração do presente, mas existe uma dificuldade muito grande em viver o aqui e o agora.

A explicação sobre a categoria espaço precisa incluir alguns conceitos: além da mudança de país, falamos aqui de ambiente novo e de diferenças no espaço pessoal com relação a outras pessoas. Em países como a Suíça, fala-se mais distante do outro, dois corpos não se aproximam tanto em conversas. Como o privado é muito valorizado pela sociedade suíça, o estrangeiro precisará redefinir qual o espaço que ele necessita, por exemplo. Entender, se casada com um estrangeiro, os limites de invasão de privacidade tolerado pelo parceiro também se fazem importantes. Entender onde a pessoa se sente “em casa”.

Para finalizar, a espiritualidade é entendida nesse processo como um recurso importante para driblar dificuldades. Não estamos falando de religião, mas tampouco negamos que possa ser utilizada como ferramenta para driblar as dificuldades do dia a dia. A espiritualidade tem um significado diferente para cada pessoa, mas pode ser entendida como conexão consigo e com uma “força maior”, podendo ser trabalhada de diversas formas, como através do contato com a natureza, ioga, meditação, a frequência a um culto. Cada pessoa pode encontrar seu caminho para desenvolver essa dimensão.

swissinfo.ch: Poderia explicar como se dá o tratamento na prática?

G.B.: Como parte da metodologia do IKP, além de diálogo posso lançar mão de outras intervenções, utilizando por exemplo objetos que ajudem o cliente a expressar um sentimento. Então, uso bonequinhos ou figuras de madeira, trabalho com desenhos, almofadas. Esses artefatos são importantes para materializar alguns sentimentos muito profundos. Para quem sofre de medo, por exemplo, podemos usar a figura de uma cadeira, trabalhando a transferência do sentimento para um objetivo inanimado, externo a quem sente. Isso ajuda muito as pessoas entenderem melhor o que se passa com elas quanto nutrem aquele pensamento.

A saudade, muito recorrente em quem vai embora, também é um tema interessante a ser investigado. Alguns não conseguem se livrar do sentimento. Nesse momento, posso auxiliar o cliente a intervir na dinâmica da despedida, no deixar para trás o que ficou e focar no presente.  Não é cortar laços, mas sentir falta sem deixar de se concentrar no agora, preencher de sentido a nova caminhada e parar de atrapalhar os novos rumos. Procuro também localizar a saudade dentro do corpo do cliente e trabalhar com essa sensação, através, por exemplo, de exercícios de respiração. O corpo tem um papel de destaque no método que utilizo.

swissinfo.ch: O que a Senhora diria ao estrangeiro que vive na Suíça e que sente que algo não vai bem?

G.B.: Cada um vivencia a experiência migratória de um jeito. É tudo muito complexo. Como cada um irá experimentar essa novidade tem relação com a idade de quem emigrou, da história pregressa e de outros inúmeros fatores. Quem vai embora muito jovem, por exemplo, pode ter menos problemas, já que o jovem tende a se adaptar mais facilmente. Se já trabalhava em um cargo mais alto, a probabilidade é que a pessoa tenha expectativas de empregos melhores na Suíça, o que pode não acontecer. Dessa maneira, é importante ficar atento às expectativas, que podem atrapalhar a adaptação em terra estrangeira. Em muitos casos, é necessário haver uma mudança de rota profissional. Mas para isso, é preciso aceitar a nova fase da vida, lançar um olhar mais doce sobre a situação e sobre você, para evitar a rejeição da realidade. E o mais importante de tudo: trabalhar no seu fortalecimento e na ativação de seus recursos internos e externos.

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