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Professores de kung fu


"As artes marciais nos uniram"


Por Dahai Shao


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Saltar de um teto ao outro ou cortar tijolos com as mãos só existem no cinema. O "kung fu" como se fala no Ocidente (wh-shu na China) é muito mais do que isso, como descobri ao visitar uma escola de artes marciais em Berna.

Quando suíços pensam na China, eles fazem automaticamente a associação com o chop suey e o kung fu. "A cozinha chinesa e o kung fu são as duas artes do nosso país que eles conhecem melhor. Estrelas como Bruce Lee, Jackie Chan ou Jet Li são bastante populares por aqui", explica logo na entrada Wu Yongmei.

E foi graças ao kung fu que ela encontrou o homem da sua vida. Há quinze anos Yongmei fundou sua escola em Berna e depois casou Fan Qian. Os dois chegaram ao nível sete, o mais alto grau encontrado na Suíça. O casal já formou um grande número de campeões suíços de artes marciais, algo que os torna muito orgulhosos. Porém muito mais do que medalhas, a sua grande satisfação é de ter conseguido fazer da paixão a profissão e ver o entusiasmo dos alunos.

Os pais enviam suas crianças a um curso de artes marciais para lhes fortificar e aprender autocontrole e disciplina. Mas essa prática é igualmente um esporte completo, que alia força, flexibilidade, resistência e coordenação dos movimentos.

Também há casos dos que gostariam de aprender a quebrar tijolos com as mãos. "Isso é possível, mas as pessoas que o tentam correm o risco de ter lesões consideráveis em idades mais avançadas", considera Fan Qiang. "Quando vemos isso nos filmes de ação, trata-se de um truque. Não encorajamos esse tipo de treinamento. Se alguém vem para isso, tentamos fazê-lo mudar de ideia."

Desaparecimento trágico

Pouco tempo depois da realização desta entrevista e, afina, quando o texto já estava pronto, Fan Qiang perdeu tragicamente sua vida em um acidente automobilístico. Apesar disso, sua viúva desejou que o texto fosse publicado como previsto por swissinfo.ch como uma homenagem ao marido falecido e sua paixão pelas artes marciais. Nós decidimos respeitar os desejos e transmitimos aqui nossos pêsames.

Mestre

"Reconhecer um mestre é reconhecer um pai para toda a sua vida", ensina o pensamento tradicional chinês. No passado, o estabelecimento da relação mestre-discípulo era uma coisa muito séria. Os mestres selecionavam as suas disciplinas sobre critérios de virtude e moral. Mas hoje em dia, evidentemente, o ensino funciona de outra forma. Todo mundo pode se inscrever em um curso.

Isso significa que as artes marciais perderam sua autenticidade? "Durante o treinamento somos como uma grande família. Os alunos chamam uns aos outros de 'irmão' e 'irmã', como na China. Mas não podemos exigir que eles permaneçam eternamente fiéis a nós ou pedir-lhes que nos sirvam chá ou façam a cama de casa", conta Yongmei.

Ela e seu marido, no entanto, mantiveram algumas tradições como a saudações feitas pelos alunos com a mão esquerda cobrindo o punho direito e as duas mãos mantidas no nível do peito. "Eles dizem 'bom dia, professor'. Eles não nos chamam de 'mestres'. Se um aluno me chamasse de 'mestre', eu sentiria mais responsabilidade em relação a ele e lhe daria ainda mais do que um professor seria capaz de fazê-lo", conta Yongmei.

Na sua escola, alguns alunos fiéis há anos se sentem como na própria família. E o casal aceita também candidatos que não têm recursos para pagar os cursos. "Eles vêm uma vez para nos ver. Se são realmente apaixonados por artes marciais, então não me sentiria bem de recusá-los", lembra Yongmei.

"Então damos um jeito. O aluno paga o que pode ou nos ajuda com pequenos trabalhos de limpeza. Alguns podem pagar mais tarde, quando tiverem dinheiro."

Amor à primeira vista

Fan Qiang chegou à Suíça há oito anos, convidado para atuar como treinador. Ao escutar que um mestre de nível sete estava de passagem, Wu Yongmei pediu-lhe para visitar sua escola e conhecê-lo.

Fang Qiang se lembra de que, ao empurrar a porta, compreendeu que é possível se apaixonar em apenas três segundos. Foi um verdadeiro amor à primeira vista. Com o passar do tempo, ele aprendeu a conhecer Yongmei, que admira e decidiu trabalhar para a sua escola. Do seu lado, Yongmei, também se impressionou com Fan Qiang. Ao observá-lo, ela descobre suas competências como treinador, tanto no lado técnico como teórico. E de profissional, a convivência entre os dois se tornou privada.

Hoje em dia os dois são parceiros na vida e no trabalho. Eles passam, de fato, todo o tempo juntos. Quando lhes questiono sobre as atividades fora da escola, Yongmei brinca: os dois brigam. Já Fan Qiang afirma que gosta de dormir e comer. Mais seriamente, ela pratica ginástica para melhorar sua condição física e seu ritmo cardíaco, enquanto ele prefere se ater às artes marciais.

Disciplina

Mas o tempo voa e já está na hora do curso. Ao vestir suas roupas de kung fu, nossos se transformam de um casal descontraído em professores majestosos e de ar severo.

"Bom dia a todos!". Bom dia, professor!". O efeito é impressionante: uma dezena de alunos suíços saúda com uma só voz e em chinês autêntico! Isso me lembra do tempo de escola na China. Os dois professores aparentemente importaram os métodos pedagógicos tradicionais. Também a disciplina faz parte dos fundamentos das artes marciais.

Mas existe disciplina e disciplina. Na China é normal de gritar com os alunos, que geralmente se mostram bastante respeitosos. "Na Suíça não é a mesma coisa. No início ficava um pouco perturbado. Aqui, os alunos gozam de uma grande liberdade e os professores não podem lhes impor seu ponto de vista", revela Fan Qiang. Para ele, se não há muita disciplina na escola helvética, a escola chinesa já é severa demais. "Com o tempo encontramos um caminho que integra os pontos fortes dos métodos pedagógicos dos dois países."

Assim Yongmei e Fan Qiang aumentam por vezes o tom de voz, mas não da mesma maneira como na China. O tom severo e as mãos cruzadas atrás das costas, Fan Qiang se apoia na linguagem corporal para transmitir o respeito pelas artes marciais.

A coisa mais bonita

E se eles não tivessem vindo à Suíça? O que teria sido deles na China? Para Yongmei teriam sido os negócios. "Tenho a sorte de ter aprendido as artes marciais desde pequena. Hoje sou a melhor na Suíça para alguém que veio do país natal das artes marciais. Se exercesse outra profissão, não seria necessariamente a melhor. Então, como diz o provérbio: a flor desabrocha no interior do jardim, enquanto seu perfume vai para fora.".

Já Fan Qiang chegou a atuar na realização de oito filmes chineses de ação, dos quais um foi o famoso "Legend of the Condor Heroes" e "Hero". Se tivesse permanecido no país natal, seria provavelmente treinador e conselheiro de cinema. 

Por outro lado, os dois são unânimes quando questionados sobre a experiência mais bonita em comum vivida na Suíça. "O fato de ter se encontrado aqui", respondem ao mesmo tempo.


Adaptação: Alexander Thoele, swissinfo.ch

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