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Serviços privados de espionagem atuam na Suíça


Por Simon Bradley



O grupo nuclear francês Areva sofre alegações de promover espionagem industrial. (AFP)

O grupo nuclear francês Areva sofre alegações de promover espionagem industrial.

(AFP)

Revelações sobre supostos casos de espionagem envolvendo agentes suíços coloca os interesses de "inteligência econômica" do gigante nuclear francês Areva e da multinacional Nestlé no centro das atenções.

O pequeno e discreto mundo da inteligência competitiva e empresas de segurança está concentrado em Genebra.

Ao invés da França vizinha, muitos consideram que a Suíça aproveita-se de uma margem de manobra graças à sua estrutura jurídica e uma abordagem menos formal do tema.

A Alp Services, a empresa de espionagem baseada em Genebra, e seu diretor Mario Brero estavam no centro de um escândalo no mundo empresarial envolvendo a "Anne atômica" - Anne Lauvergeon, ex-chefe da Areva - seu marido Olivier Fric e executivos da empresa.

Lauvergeon, a chefe deposta da estatal francesa fabricante de reatores nucleares, lançou um processo na justiça em Paris no mês passado contra a empresa suíça acusando-a de espionagem.

O caso Areva trouxe à tona o pouco conhecido setor na Suíça, que deixa seus rastros através de países anglófonos, França e Alemanha no uso de agências de detetives para ajudar a melhorar a competitividade e proteger interesses comerciais.

Área em expansão 

Atualmente existem cerca de doze empresas ativas no território suíço, a grande parte delas sediada em Genebra, das quais se destacam Alp Services, One Intelligence, Kroll e Diligence.

"É um setor que cresce", afirma Hélène Madinier, professor na Escola de Administração de Empresas de Genebra, onde são oferecidos cursos de inteligência competitiva desde 2010.

"Eles são realmente discretos. Para algumas delas, inteligência competitiva é apenas uma parte das suas atividades. Elas também podem estar envolvidas em trabalhos gerais de investigação."

Para o especialista Stéphane Koch, sua presença pode ser explicada pelo caráter internacional de Genebra, o grande número de ONGs e multinacionais, além de um contexto mais do que descontraído.

"A França tem uma abordagem mais formal. Já na Suíça faltam regras para enquadrar ou regulamentar a profissão", explica. "Cada um faz o que quer."

Conspiração e sondagem 

No caso Areva, a ex-executiva Lauvergeon acusa o seu antigo empregador de espionagem e considera ter sido vítima de um complô para desestabilizar sua posição na empresa.

Sébastian de Montessus, chefe da divisão de mineração da Areva, confirmou recentemente ter contratado os serviços da Alp Services para investigar a compra desastrosa, em 2007, da concorrente Uramin pelo valor de 1,8 bilhões de euros (2,1 milhões de francos). Ele não comunicou o início das investigações à Lauvergeon, que no momento presidia a empresa.

Mas Montessus insiste ter iniciado as investigações apenas para examinar as operações de compra e verificar, ao mesmo tempo, se o marido de Lauvergon, Fric, havia se "beneficiado ilegalmente". Ele negou ter espionado sua vida privada ou utilizado métodos ilegais como escutas telefônicas.

Em 1° de fevereiro, a ONG Transparência Internacional na França anunciou que faria, em conjunto com o Greenpeace e o Instituto Worldwatch, uma queixa legal em uma corte de Paris contra pessoas não identificadas relacionadas ao caso Areva, segundo notícias publicadas na mídia francesa.

De acordo com o jornal "Journal de Dimanche", entre as várias propostas apresentadas, o diretor da Alp Services, Mario Brero, sugeriu "vigilância preventiva e infiltração e trabalho de lobby" das três ONGs por 40 mil a 60 mil euros por mês, o que foi rejeitado.

Enquanto isso, o advogado de Brero, David Bitton, negou que seu cliente tenha "espionado quem quer que seja ou realizado escutas telefônicas ilegais".

Ultrapassando fronteiras 

A advogada Marie-Laure Ingouf afirma que a maioria das grandes empresas utiliza atualmente os serviços de agências de detetives. "Isso não é um problema. Porém as leis precisam ser respeitadas e, por vezes, isso é um pouco vago."

Saber quando esses agentes estão ultrapassando fronteiras legais ou éticas, quando inteligência econômica pode ser tornar espionagem industrial, não é sempre fácil de estabelecer.

Enquanto certas atividades como escutas ilegais de telefone são claramente ilegais na Suíça, cobertas pela proteção de artigos individuais do Código Penal, a usurpação de identidade não é um crime, ao contrário da França.

Em outro caso no mês passado, ativistas antiglobalização da Attac entraram com um processo civil em Lausanne contra a Nestlé. A multinacional suíça admitiu ter contratado um agente infiltrado da empresa de segurança para espionar os ativistas, mas justificou a ação afirmando que sua ação preventiva era justificada pelo fato da "Attac ter declarado guerra contra a Nestlé" durante os protestos contra a reunião de cúpula do G8 em Evian, na França, em 2003. As duas partes aguardam o julgamento. 

Koch considera que a infiltração, apesar de comum, estava "fora dos códigos legais e éticos".

"Já para a hackear alguém, é fácil contratar um cyber-mercenário para invadir o computador de alguém e obter informações relevantes do seu disco rígido", afirma.

Atento 

Mas vigilância preventiva - participando de conferências públicas de ONGs ou discutindo com membros - não é ilegal ou considerado como espionagem, acrescenta Koch.

"Como país, embora as leis suíças protejam a privacidade individual. as empresas têm uma margem de manobra se desejam vigiar os seus próprios funcionários", mencionou o advogado Marc Henzelin à revista mensal suíça Hebdo.

Madinier admite existir uma considerável margem de manobra legal. Mas, ao mesmo tempo, insiste em fazer distinções entre a maioria das empresas de inteligência competitiva e algumas agências que também oferecem serviços de detetives e que podem recorrer a instrumentos "obscuros" como infiltração em uma empresa através de contratação sob falsa identidade.

"Isso existe, mas não é algo que a gente ensine ou defenda", afirma. "O caso Areva fez aumentar a confusão sobre inteligência econômica, que na realidade é apenas o trabalho de coletar e usar informações para aumentar o crescimento e a competitividade de uma empresa."

Espionagem na Suíça

De acordo com o Serviço Federal de Inteligência (o serviço secreto da Suíça), a espionagem industrial continua sendo o maior risco para a segurança do país.

A espionagem industrial também está a "atacar a soberania nacional" e pode "enfraquecer a competitividade das empresas estabelecidas na Suíça e ameaçar o setor financeiro e industrial", de acordo com o relatório anual do Serviço Federal de Inteligência. "Essa ameaça continua muito elevada."

"Bancos suíços e instituições financeiras baseadas no país continuam sob o olhar vigilante de governos estrangeiros e seus serviços de inteligência", acrescenta.

"Inúmeros serviços secretos de outros países estão ativos na Suíça. Eles coletam informações das suas comunidades de estrangeiros, as monitoram e as instrumentalizam por razões de política interna."

"Genebra é particularmente importante para a espionagem estrangeira devido a inúmeras organizações internacionais, ONGs que atraem diplomatas, executivos, jornalistas e outros oficiais de inteligência."

Espionagem

A espionagem é a prática de obter informações de caráter secreto ou confidencial sobre governos ou organizações, sem autorização destes, para alcançar certa vantagem militar, política, econômica, tecnológica ou social.

A prática manifesta-se geralmente como parte de um esforço organizado (ou seja, como ação de um grupo governamental ou empresarial).

Um espião é um agente empregado para obter tais segredos.

A definição vem sendo restringida a um Estado que espia inimigos potenciais ou reais, primeiramente para finalidades militares, mas ela abrange também a espionagem envolvendo empresas (conhecida como espionagem industrial) e pessoas físicas, através de contratação de detetives particulares. (Wikipédia em português)

Por Simon Bradley, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele



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